Grande Otelo - entrevista: eu sou todo cordura

Grande Otelo (foto: Luciana Whitaker)
"Eu sou todo cordura"

Depois de quase cinquenta anos de trabalho ele chega a Sancho Pança e diz que está finalmente se encontrando

Por Oswaldo Amorim

Preto e pobre, ele não poderia ir muito longe, exceto levando recados. Mas o talento e o destino fizeram do Bastiãozinho da tia Silvana, um menino muito esperto que vivia pelas ruas de Uberlândia (MG), um ator admirado e principalmente muito querido em todo o Brasil. Sebastião Prata, filho de Chico e Maria Abadia, que não tinham sobrenome e adotaram o Prata da família para a qual trabalhavam, transformou-se em Grande Otelo.
Bastiãzinho da tia Silvana, assim era conhecida sua bisavó, foi ajudante de palhaço de circo, ator mirim de uma companhia de comédias que o trouxe de Minas para São Paulo, estudou canto e declamação ("o maestro Pedro Arlécio dizia que eu tinha uma voz de tenorino e ainda ia dar um bom Otelo"), teve várias famílias - gente com quem morou até decidir sair de cada ou ser mandado embora -, frequentou o Juizado de Menores, trabalhou em dúzias de palcos e picadeiros, batizou um filho Osvaldo Aranha ("homenagem a um grande amigo"), contracenou com Josephine Baker, virou Macunaíma no cinema e agora é Sancho Pança no teatro, em "O homem de La Mancha". Com 57 anos de idade, ele recebe as palmas da platéia e as críticas que classificam sua atuação como extraordinária - jan Michalsky, do "Jornal do Brasil", afirma que o espetáculo no Rio, com Grande Otelo, está muito melhor do que em São Paulo, sem Grande Otelo - com a mesma simplicidade com que antigamente recebia aplausos por ser o campeão de charleston do seu bairro, na época em que morou com uma rica família paulista, os Queiroz, e estudava em colégios finos. "Até que um dia o dr. Queiroz descobriu que eu estava vendendo alguns livros raros de sua biblioteca."
"E por que você vendeu os livros?"
"Para comprar pastéis e vinho. Eu adorava comer pastéis com vinho. Também comprava ioiôs. Além do charleston, eu fui campeão de ioiô."
Irreverente, irresponsável, bêbado, briguento, de Grande Otelo já se disse tudo isso. Com a vida marcada pela pobreza e por alguns acontecimentos trágicos, como o suicídio de sua primeira mulher, ele no entanto parece hoje estar muito próximo de uma espécie de paz interior: "Eu trabalho como ator há quase cinquenta anos, e só agora tive oportunidade de fazer papéis de acordo com a minha maneira de ser. Na TV faço uma novela onde sou o Pimpinone, um crioulo criado num cortiço por um velho italiano. Estou adorando esse personagem. Um sujeito bom que trata de acalmar todo mundo, de fazer com que os outros vivam bem. Ainda há pouco fui ao Rio Grande do Sul filmar "O negrinho do pastoreio". Outro personagem suave, que perdoa as ofensas e mesmo chicoteado e supliciado não guarda raiva do patrão. Aí vem o Sancho Pança, um tipo de muita cordura, muita paz".

Oswaldo Amorim - Você disse uma vez que tinha poucas oportunidades de aparecer como um grande ator poque era aceito apenas como um cômico, um sujeito engraçado. Agora parece que finalmente decidiram levar você a sério.
Grande Otelo - Em parte é verdade, mas eu já fiz vários papéis sérios, principalmente no cinema. Em "Amei um bicheiro" fiz uma cena altamente dramática e incluída numa antologia do cinema brasileiro. Perseguido pela polícia, eu me escondo no cubículo do relógio de gás de um edifício. Vem um polícia e bate a porta com o pé e ela fecha. Há um escapamento de gás e eu morro. Fiz um papel sério no "Assalto ao trem pagador". No teatro fiz dois monólogos dramáticos. Mas a estereotipação do ator é quase inevitável. É muito mais fácil aproveitar alguém pronto para um determinado papel. Ninguém ia chamar Tarcísio Meira agora para um papel cômico. Às vezes até o ator se acomoda nesses papéis. E não consegue mais se libertar. Mas ninguém deve ser eternamente engraçado ou vilão. O José Lewgoy, por exemplo, está reagindo e vivendo tipo diferentes do homem mau na televisão e no teatro.

Oswaldo Amorim - E por que você começou pelo cômico? 
Grande Otelo - Um pouco pelo tipo físico. E para se começar na carreira é mais fácil. Principalmente no meu tempo, quando não havia escolas de teatro e a gente se fazia levando na valsa, batendo papos, esperando as oportunidades. E principalmente para o negro, que no Brasil é melhor aceito se for engraçadinho.

Grande Otelo (foto: ...)
Oswaldo Amorim - Então você concorda com a frase "no Brasil não há preconceito de cor porque os negros conhecem o seu lugar"?
Grande Otelo - Não é bem isso. No Brasil, no tempo da escravidão, os negros se destacavam pelo trabalho e pela força física. As negras pela beleza e porque iam para a cama dos senhores. Com o 13 de maio, na minha opinião, foi como se tivessem aberto uma porteira e soltado o rebanho. O negro ficou sem saber o que fazer. Mas o coração português sempre foi terno e carinhoso. Então, ao mesmo tempo que dava a bronca, criava um caso, ele oferecia um prato de comida, tomava uma bebida junto com os negros e mulatos. Os negros então começaram a progredir, mas às vezes isso é muito difícil. Em vez do preconceito, o que existe é a ânsia do preto em progredir. Mas temos que levar em conta a cabeça do negro, o que está dentro dela. O que ele passou lhe deixou vários estigmas. Pelo tempo em que se escondeu no mato, pelo tempo em que foi ladino, cavorteiro, inzoneiro. Então ele procura chegar nas coisas através do sorriso, da inteligência nata. Enquanto tenta abrir caminho violentamente em outros países, aquele ele procura abrir caminho inteligentemente, através da arte e dos estudos. É verdade que até um negro chegar à posição de um branco tem de saber dez vez mais do que o branco. Porque em cada branco está um senhor de engenho, um feitor de fazenda. Em cada mulato está um capitão do mato. Então o negro está acuado por todos os lados. Ele tem que lutar, não dando a essa luta o nome de preconceito, mas o de luta pela sobrevivência, que todo branco pobre enfrenta também. Eu pessoalmente não sinto o preconceito. Eu sinto paternalismo. Por exemplo, depois que tive um enfarte, no ano passado, vários bares da cidade se recusaram a me servir uma simples cervejinha. Dona Laura, no Beco da Fome, só me deixava beber se eu comesse.

Oswaldo Amorim - Quer dizer que você nunca enfrentou problemas por ser negro?
Grande Otelo - Não. Sempre tive a mulher branca que eu quis. Eu tive uma loura, linda, francesa, chamada Simone. Antes de se casar na França mandou uma carta dizendo que o pai tinha morrido e ela precisava sustentar a casa. Foi a primeira loura da minha vida. A segunda foi uma polonesa. Também sempre tive entrada nos lugares em que quis entrar. É como diz o Simonal: "Em lugar que preto não entra, pobre branco também não entra". Entre as namoradas de meus filhos há brancas, negras e mulatas. É preciso que me façam sentir o preconceito para que depois eu declare o preconceito. A cada jovem de cor que eu encontro pergunta se está estudando, em que ano está. Se eu posso ajudar, eu ajudo.

Grande Otelo, no filme Macunaíma
Oswaldo Amorim - Mas a verdade é que seu talento custou para ser reconhecido. E talvez a cor tenha influído nisso, não acha?
Grande Otelo - Não é verdade. Depois de "Macunaíma*", falou-se muito no meu nome. Mas o reconhecimento veio antes. Acho que do tempo de Uberlândia, quando eu cantava para os hóspedes dos hotéis da cidade e ganhava um dinheirinho. Nessa época eu fui descoberto pela atriz Abigail Parecis, a primeira pessoa entendida a dizer que eu tinha talento. E tanto acreditava nisso que me levou para São Paulo. Ainda no início da minha carreira muita gente me aceitava como um artista de talento. Mas nesse aspecto ninguém fez mais do que Jardel Jercolis, o pai do Jardel. Ele acreditou em mim apesar de meus sucessivos fracassos em sua companhia, inclusive na Argentina e na Europa.

* Em 1969, depois de uma fase de relativo ostracismo, Grande Otelo foi convidado para fazer o papel-título em "Macunaíma", dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. O filme foi sucesso de crítica e bilheteria.

Oswaldo Amorim - E por que você fracassou?
Grande Otelo - Porque eu fiz apenas uma ou duas "cortinas" na Argentina. Depois fomos para a Europa, ou melhor, para Portugal e Espanha. Isso em 1935. Em Portugal fui mais ou menos visto. Mas na Espanha nem tomaram conhecimento de mim. Creio que não houve propriamente fracasso. O que faltou foi sucesso.

Oswaldo Amorim - "Macunaíma" foi seu grande êxito no cinema? Ou o melhor filme?
Grande Otelo - O melhor filme continua a ser "Moleque Tião", que eu fiz em 1942. Foi meu primeiro papel importante no cinema. Era dirigido por José Carlos Burle e foi muito bom para minha carreira. Esse filme tem uma passagem da minha vida que eu fiz questão de colocar. É a cena em que uma senhora vai ao Juizado de Menores buscar um menino para brincar com seu filho. Botei isso no filme em homenagem a dona Maria Eugênia e ao dr. Antônio Queiroz, que me tiraram do abrigo de menores e me deram uma chance de estudar. Foi um episódio definitivo na minha vida. Agora, em "Macunaíma" eu fui eu mesmo. Eu me lembrei do Bastiãozinho que catava gabiroba atrás do cemitério. Fiz a cara do Bastiãozinho e o negócio funcionou muito bem, graças a Deus.

Oswaldo Amorim - E a época de ouro das chanchadas? Não se fazem mais chanchadas como antigamente?
Grande Otelo - Mas ainda se fazem filmes engraçados. Eu vi "Copacabana me engana" e "Toda donzela tem um pai que é uma fera" e um outro filme em que o Paulo José, que eu nem conhecia na época, me chamou a atenção. São filmes engraçados.

Grande Otelo em cena com Oscarito (foto: ...)
Oswaldo Amorim - E o Oscarito?
Grande Otelo - O Oscarito era uma espécie de símbolo do carioca da época. Sabido. Malandro. Era
um ator de uma histrionice fantástica. Foi também um excelente colega. O único que não estrilava quando eu chegava atrasado. Ele poderia também ser um outro Macunaíma.

Oswaldo Amorim - Durante muito tempo você teve fama de mau profissional, irresponsável. É justa essa fama?
Grande Otelo - Injusta. Injusta. É que eu só funciono na hora em que tenho que funcionar. Esse negócio de pensar que é só apertar um botão e eu começo a funcionar, como um bonequinho de corda, não dá certo. Preciso de um papel que me agrade. Uma situação de estabilidade para a minha família e condições psicológicas para interpretar um papel. Se eu não tenho isso, perco a vontade de ir trabalhar. Se estão me pagando pouco porque na época de fazer o contrato eu estava passando fome, aquilo me vai irritando e não consigo fazer mais nada. Como alguns empresários, que eu prefiro não citar, têm interesse em me diminuir, eles ficam espalhando que eu sou irresponsável. Mas atualmente eu duvido que você chegue na TV Globo e eles digam que eu sou mau profissional. Pergunte ao Joaquim Pedro, ao Luiz Carlos Barreto, inclusive ao Roberto Farias.

Oswaldo Amorim - E aquela confusão que você armou no Copacabana Palace?
Grande Otelo - Eu tinha sido chamado para filmar na Itália algumas cenas que ficaram faltando em "Uma rosa para todos", um filme que tinha sido rodado aqui com a Claudia Cardinale. Coisa para uns quinze dias. Mas o Carlos Manga, com quem eu estava trabalhando numa peça no Copacabana, resolveu cobrar não sei que dinheiro a mais para me liberar e a Columbia desistiu. E eu perdi outra chance internacional na minha vida. Fiz um apelo ao Manga, em vão. Aquele negócio foi me irritando. Um dia enchi a cara e fiz um escândalo tremendo, no teatro, e fui posto para fora a pontapés.

Oswaldo Amorim - E quais foram as outras chances perdidas?
Grande Otelo - Antes disso eu já tinha perdido uma viagem aos Estados Unidos no tempo de Cármen Miranda. Foi a maior frustração da minha vida e acho que só me curei dela depois do meu segundo casamento. A frustração foi tão grande que decretou minha fama de bêbado. O que me atrapalhou na época foi o contrato com o Cassino da Urca, que me obrigava a pagar cinquenta por cento do que ganhasse por fora. Outra vez foi a Columbia, que me convidou para um filme com a Ann Miller. Não fui porque não tinha meu imposto de renda em ordem e não achei ninguém que quisesse se responsabilizar por ele. Eu tinha ou não tinha razão de estrilar com a intransigência do Manga?


Grande Otelo (foto: ...)
Oswaldo Amorim - Você largou de beber definitivamente?
Grande Otelo - Não bebo mais cachaça, nem uísque. Quando vou a coquetéis tomo Coca-Cola. Só uma vez ou outra tomo um pouco de vinho, como acompanhamento do jantar.

Oswaldo Amorim - E como você conseguiu largar a bebida?
Grande Otelo - Ou na Clínica São Vicente, onde fiz tratamento, ou na cabana de Pai Jatum, que é o meu terreiro. Só sei que não estou bebendo mais. Nem sentindo falta.

Oswaldo Amorim - Depois de tanto trabalho você tem apenas um apartamento e um sítio. Você é um perdulário ou nunca mais lhe pagaram bem?
Grande Otelo - Nunca me pagaram bem. Mesmo porque eu nunca exigi. Queria apenas obter um papel bom, em que pudesse aparecer. O dinheiro era secundário. Agora estou meio mudado. Acho que já fiz tudo o que tinha de ser feito para aparecer. Atualmente os empresários tem de pagar o meu preço. Mas a gente acaba sempre entrando num acordo. Ainda agora tinha pedido 15.000 (cruzeiros) por mês para fazer o Sancho Pança. Acabei concordando com 5.000 (cruzeiros) porque sei das dificuldades da Bibi Ferreira para pagar o elenco.

Oswaldo Amorim - Você ainda se lembra do primeiro dia em que pisou num palco?
Grande Otelo - Eu tinha sete anos e não foi palco, foi picadeiro. Apareceu um circo lá em Uberlândia e eles precisavam de um menino para contracenar com o palhaço numa pantomima. Eu me apresentei. Mas não me avisaram que haveria tiros durante o espetáculo. Quando eu ouvi os estampidos, fugi assustado. Acharam muito engraçado.

Oswaldo Amorim - E quando você tentou se candidatar a vereador, em 1950, era pra fazer graça ou a sério?
Grande Otelo - Era a sério. Eu pretendia ser um representante dos artistas. Uma pessoa que pudesse dialogar dentro dos quadros do governo. Porque a ideia que se tinha da vida de artista a de que os homens eram boêmios, e as mulheres prostitutas. Hoje em dia essa imagem está mudando um pouco porque já temos com quem dialogar, até mesmo em nível ministerial, como é o caso do ministro Jarbas Passarinho. Mas nem cheguei a ser candidato. Meu nome foi vetado pela direção do PTB.

Grante Otelo (foto: ...)
Oswaldo Amorim - E as suas aventuras como compositor?
Grande Otelo - A única música de sucesso de minha autoria foi "Praça Onze". E acho que fez sucesso
porque não é minha. Eu vou revelar agora para você. Na "Praça Onze" eu só entrei com a ideia. Eu li uma reportagem falando sobre o fim da praça Onze. Achei aquilo muito triste e fiz uns versos: "Meu povo, este ano a escola não sai (...) não temos mais praça para fazer evoluções (...)", etc. ... Mostrei esses versos a vários compositores e nenhum se interessou. Só o Herivelto Martins. Mas disse que aquilo não era letra de samba. Ali mesmo ele pegou o violão e de um jato fez a primeira parte do samba. Naquela época nós trabalhávamos juntos no cassino de Icaraí, em Niterói. Quando voltávamos para o Rio, na barca, ele pegou de novo o violão e fez a segunda parte. Então, letra e música, é tudo dele.
Na época eu fiz também um samba patriótico, chamado "Desperta, Brasil". Foi gravado pela Linda Batista e me deu algum dinheiro. Era um samba de ocasião. Estávamos em tempo de guerra. Fiz outras composições, mas nenhuma delas fez sucesso. Também eu estava mais interessado em ser cantor do que compositor. Antigamente, não sei por que, era muito difícil alguém ser cantor e compositor, como o são hoje o Caetano, o Chico, o Gilberto Gil. A única exceção era o velho Ataulfo. Mas outros que tentaram misturar as duas coisas, como Heitor dos Prazeres e Henricão, não conseguiram.

Oswaldo Amorim - No ano passado você virou busto na praça principal de Uberlândia, foi tema de documentário a cores, recebeu várias homenagens. Isso significa que está se aproximando a hora da aposentadoria?
Grande Otelo - De jeito nenhum. Não pretendo parar nunca. Vou morrer no palco ou na coxia. Ou nos bastidores, fazendo alguma coisa. Aposentado eu estou desde o ano passado. Recebo 2.000 (cruzeiros) por mês do INPS.

Oswaldo Amorim - Mas você não se sente cansado, envelhecido?
Grande Otelo - Ao contrário. Meu temperamento nunca esteve tão próximo do Bastiãozinho da tia Silvana, um garoto bom e alegre. Mas esse reencontro exigiu uma longa e penosa caminhada.

Oswaldo Amorim - Grande Otelo, você é um sentimental...
Grande Otelo - Todo ator é um sentimental. Do contrário não seria ator. A gente tem que ser um doido, um sentimental, um idealista. Se não for assim, não poderá ser bom ator.

Grande Otelo, 1983 (foto: Jorge Rodrigues)


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:: Entrevista publicada originalmente na revista Veja, 14 de fevereiro de 1973 - Edição 232


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Página atualizada em 12.4.2016.



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