Fotógrafo e a fotografia - poemas e citações

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"O homem é um ser destinado à curiosidade. Indaga sempre e, quaisquer que sejam as respostas, põe-se insatisfeito. É um ser sempre em perda. Perde para o tempo que, inexoravelmente e impiedosamente, ignora sua inclinação para a perenidade e coloca-o em confronto com sua impossibilidade biológica. A memória significa um acervo de perdas, de algo passado e irrecuperável. O homem inventa processos de registro para não ser refém do esquecimento. É a memória que nos orienta no tempo, informa-nos sobre quem somos, de onde viemos e nos dá identidade ... Nossos álbuns de família têm um componente de crueldade cultivada, pois nos fazem reviver coisas já mortas e nos dão um certo compromisso com o relembrar. Eles carregam um travo de tristeza, misturado à lembrança de felicidades que já se foram."
- Luis Umberto Miranda de Assis Pereira, em "Fotografia, a poética do banal". Brasília: Editora UNB, 2000.

Chants Field Mirror, by Alex Baker/Photography
POEMAS ESCOLHIDOS


O fotógrafo
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a ‘Nuvem de calça’.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakowski – seu criador.
Fotografei a ‘Nuvem de calça’ e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.
- Manoel de Barros, em "Ensaios fotográficos". Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.



Great photographs, by Ivo Berg
Fotografia
Que seria da memória
sem a fotografia?

Que seria do homem
sem seus vestígios?

Como saberíamos dos avós,
do rosto da infância de nossos filhos?

Que seria de nós
sem ancoragem
no tempo que esgarça e destrói?

Que seria de nós
sem nossos baús
de saudade
e de choro?

É a fotografia que segura relógios,
retorna calendários,
faz do passado presente,
num instante.

Fala do retrato denunciador,
da esperança sumida,
dos amores acabados,
cujas caras
não mais nos tocam.

Fala da finitude
das coisas,
da velocidade,
da vida.

Dá vida
ao já morto,
reacende olhares
por um instante.

Fala das lições
nunca aprendidas,
da esperança
na razão
sem razão.

Fala fotografia!
Dá notícias
do homem,
em seu difícil trajeto.
- Luis Umberto Miranda de Assis Pereira, em "Fotografia, a poética do banal". Brasília: Editora UNB, 2000.


Numa fotografia
Não sejas como a névoa, nem quimera. 
Demora-te, demora-te assim: 
faz do olhar 
tempo sem tempo, espaço 
limpo – do deserto ou do mar. 
- Eugénio de Andrade, em "O outro nome da terra". 1988.


O retrato
Eu quero a fotografia,
os olhos cheios d’água sob as lentes,
caminhando de terno e gravata,
o braço dado com a filha.
Eu quero a cada vez olhar e dizer:
estava chorando. E chorar.
Eu quero a dor do homem na festa de casamento,
seu passo guardado, quando pensou:
a vida é amarga e doce?
Eu quero o que ele viu e aceitou corajoso,
os olhos cheios d’água sob as lentes.
- Adélia Prado, em "Bagagem".



filme fotográfico
Retrato de família
Este retrato de família
está um tanto empoeirado.
Já não se vê no rosto do pai
quanto dinheiro ele ganhou.

Nas mãos dos tios não se percebem
as viagens que ambos fizeram.
A avó ficou lisa e amarela,
sem memórias da monarquia.

Os meninos, como estão mudados.
O rosto de Pedro é tranqüilo,,
usou os melhores sonhos.
E João não é mais mentiroso.

O jardim tornou-se fantástico.
As flores são placas cinzentas.
E a areia, sob pés extintos,
é um oceano de névoa.

No semicírculo das cadeiras
nota-se certo movimento.
As crianças trocam de lugar,
mas sem barulho: é um retrato.

Vinte anos é um grande tempo.
Modela qualquer imagem.
Se uma figura vai murchando,
outra, sorrindo, se propõe.

Esses estranhos assentados,
meus parentes? Não acredito.
São visitas se divertindo
numa sala que se abre pouco.

Ficaram traços da família
perdidos no jeito dos corpos.
Bastante para sugerir
que um corpo é cheio de surpresas.

A moldura deste retrato
em vão prende suas personagens.
Estão ali voluntariamente,
saberiam -— se preciso —voar.

Poderiam sutilizar-se
no claro-escuro do salão,
ir morar no fundo dos móveis
ou no bolso de velhos coletes.

A casa tem muitas gavetas
e papéis, escadas compridas.
Quem sabe a malícia das coisas,
quando a matéria se aborrece?

O retrato não me responde.
ele me fita e se contempla
nos meus olhos empoeirados.
E no cristal se multiplicam

os parentes mortos e vivos.
Já não distingo os que se foram
dos que restaram. Percebo apenas
a estranha idéia de família

viajando através da carne.
- Carlos Drummond de Andrade, em ""A rosa do povo", 1945.


Retratos
Rostos. Retratos. Sombras.
Espelhos quebrados. Espectros. Viagens...
Moldados no barro do Ribeirão dos Potes.
Extraídos a canivete da lenha torta dos cerrados
ou de certa matéria sútil
que transita entre a esquiva esperança
que o sertão ensina
e o sonho sempre em véspera de dissipar-se.

Há algo neles que me assombra:
uma ausência
como se nos olhos faltasse a pessoa...

Carantonha de barro moreno
de guardar nos olhos as águas de março.
Oculta sob a máscara de terra
o tumulto de medos, ternuras, vinganças,
ressentimentos curtidos pela severa vida desses
Gerais.
- Pedro Tierra, no livro "O Porto Submerso". Brasília: Edição do Autor, 2005.


Piano e Câmera
AFORISMOS E CITAÇÕES
"Seja o que for o que ela dê a ver e qualquer que seja a maneira, uma foto é sempre invisível: não é ela que vemos."
- Roland Barthes, em "A câmara clara". Nota sobre a fotografia. [tradução Júlio Castañon Guimarães]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.


"O artista percute, o outro soa. O artista tem as baquetas, o outro é o couro, vibra. O artista bate, o outro explode. Só nesse sentido se pode dizer que a fotografia tem ritmo. Não o ritmo visual dos elementos (massas, volumes, linhas) no interior de uma imagem, o que a aproximaria das artes plásticas, mas o ritmo resultante da dança entre o homem e seu tambor. Tímpano."
- Arthur Omar, em "Antropologia da face gloriosa". São Paulo: Cosac & Naify, 1997, p. 23.


"[...] a essência da imagem é estar toda fora, sem intimidade, e, no entanto, mais inacessível e misteriosa do que o pensamento do foro íntimo; sem significação, mas invocando a profundidade de todo sentido possível; irrevelada e todavia manifesta, tendo essa presença-ausência que faz a atração e o fascínio das Sereias."
- Maurice Blanchot, em "O espaço literário". [tradução Álvaro Cabral]. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.




“Fotografias há de dois tipos: As mais raras são obras de arte, belezas que o olho do fotógrafo percebeu e nos mostra. Olhamos a foto e ficamos espantados: não havíamos visto a beleza que estava lá, coisas com as quais um turista jamais desperdiçaria uma foto - tais como folhas secas sobre o chão, um pau seco saindo da lagoa, as marcas do vento sobre a areia - e a gente leva um susto. Não é a boa câmera que faz a fotografia. É o olho do fotógrafo.”
- Rubem Alves, em "Quarto de Badulaques". São Paulo: Parábola, 2003.




Retrato em Branco e Preto (Chico Buarque e Tom Jobim)



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** Página atualizada em 22.8.2016



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Um comentário:

  1. Deliciei-me, em noite de insónia. Mergulhei na poesia e fotografia. Que eu amo!!! Agora sim. Estou em paz. Obrigada

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