Edival Lourenço - escritor goiano

Edival Lourenço - foto: Revista Bula
Edival Lourenço (advogado e escritor), nasceu em Iporá, GO, no dia 13 de agosto de 1952. Filho de Geraldo Lourenço de Oliveira e Doraci Paes de Oliveira. É bacharel em Direito, gerente de Comunicação Social e Promoção Cultural da Caixa Econômica Federal em Goiás. Participa de mais de 15 antologias e teve cerca de 50 premiações, dentre as quais, o Troféu Tiokô de Literatura-Prosa, no ano de 1992. É membro da Academia Goiana de Letras (AGL) e presidente da União Brasileira de Escritores de Goiás. É ex - conselheiro Estadual de Cultura e atual conselheiro municipal. 
Recebeu o Prêmio Nacional de Romance do Estado do Paraná pelo romance A Centopeia de Neon e a Comenda Jorge Amado, da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, pelo conjunto da obra. Em 2012 recebeu os Prêmios Jaburu (Goiás) pelo conjunto da obra e o Jabuti (prêmio nacional), na categoria romance, com a obra Naqueles morros, depois da chuva. 
:: Fonte: site oficial do autor (acessado em 10.9.2015)


Edival Lourenço - foto: jornal Opção
PRÊMIOS
1992Prêmio Bolsa de Publicações José Décio Filho, para a obra "A perpétua utopia" (contos); 
1993 - Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, para a obra "Coisa Incoesa" (poesia);
1994 Prêmio Nacional de Romance do Estado do Paraná, pela obra "A centopeia de néon" (romance);
2008Comenda Jorge Amado, da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, pelo conjunto da obra;
2008 - Troféu Marieta Teles, conferido pela Academia Goiana de Letras, como melhor cronista do ano;
2012Prêmio Jaburu (Goiás) pelo conjunto da obra;
2012 - Prêmio Jabuti, na categoria romance (segundo lugar), pela obra "Naqueles morros, depois da chuva" (romance).


Edival Lourenço - foto: jornal Opção
OBRA LITERÁRIA DO AUTOR
Poesia
:: Estação do cioGoiânia, GO: Edições do autor, 1982.
:: Coisa incoesaGoiânia, GO: Editora Kelps, 1993.
:: As vias do vooGoiânia, GO: Instituto Goiano do Livro, 2005.
:: Pela alvorada dos NirvanasGoiânia, GO: RF Editora, 2009.
:: A caligrafia das eras. Goiânia, GO: RF Editora, 2012.
:: Os enganos do carbonoGoiânia, GO: Editora Pé de Letras, 2013.
:: Poesia reunida. Goiânia, GO: Editora Ex Machina, 2015.

Conto
:: A perpétua utopiaGoiânia, GO: Edições do autor, 1992.
:: MundocaiaGoiânia, GO: Editora Kelps, 2003.
:: Os carapinas do Sri LankaGoiânia, GO: Editora Kelps, 2005.

Crônica
:: O elefante do cegoGoiânia, GO: Editora Kelps, 2009.
:: As luzes do pântanoGoiânia, GO: Editora Kelps, 2011.
:: Aqueles tiros de domingoGoiânia, GO: Editora Kelps, 2012.

Romance
:: A centopeia de néonGoiânia, GO: Criassã Editora, Editora Kelps e RF Editora, 1994.
:: Naqueles morros depois da chuva. Editora Hidra, 2011.

Edival Lourenço - foto: Weimer Carvalho
POEMAS ESCOLHIDOS DE EDIVAL LOURENÇO

A noite
A noite tem seus gatos
seus gatilhos
seus miados
seus estampidos.

A noite tem alavancas 
De rolar as pedras
E desvendar o sol
A noite tem solavancos
De esmigalhar miolos.

A noite tem seus violinos
Seus rabecões, seus baixo-tubas
- Escute o que quiser escutar.

A noite tem sempre mulheres
Menos sxy
Do que parecem ser
A noite tem espera e esperança.

A noite é sépia
Com nuanças 
(ancas nuas)
de ouro ao desvanecer.
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 388-389.




Agricultor de estrelas
Movido a sonhos e palavras
este é o meu arado esplêndido
e seus discos de metáforas

Com ele aro rios e mares
cordilheiras e pradarias
aro as noites de luar 
e também o raiar dos dias.

Aro eiras e beiras
faço dele o meu cinzel
aro abismos e horizontes


depois subo arando o céu.
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 99.


Amorecio
Somos filhos da rude poesia
de quem amou em suor e sem retórica
na heroica lide multiplicadora
dos seres da santíssima excrescência
(em abstrato portasse o ser supremo...)
nada mais que a explosão do exíguo instante
ou no infinito parêntese aberto
que vai do nada ao tudo, sobretudo
se formos (ch)aves) de inocência e fogo,
somos todos objetos do prazer
nos (inter)esses da mãe-natureza;
portas do real, aves do amorecio,
com nossas verdes asas incansáveis
cruzaremos o azul em voo (sin)crônico.
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p.  280.


Certas primaveras
Orquídeas grávidas
gravatás
gravatas de filodendros
as rendas dos ninhos dos guaxes
as rolas em juras
as tanajuras de fartos alforjes
a vida em profusão
a forja do poema
- flor de musgo
nas franjas do coração.
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 109.


Chama e magma
Do profundo (silí)cio dalma sã
arrancar o (vul)cão adormecido
(por inócuos motivos, sem sentido),
ferindo o ambiente de calma vã;
invadir a paisagem de (av)ela
qual anjo possesso ou louco varrido
meu (suss)urro (cr)uzando o teu gemido
num (cl)imã insólito de trauma e lã;
sol(tar) a voraz fera da libido
(varrendo tabus, dogmas e ciência
nas asas da malícia e da inocência
aos olhos dese mundo transfingido)
nas loucas (con)trações de teu dia(fragma)
a estancar um rio de chama e magma.
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 277.


Debitare
Cultive dúvidas
como plantas de hortaliça
e não se deixe enganar
pelas ervas da certeza.

Toda certeza tem um travo
no paladar
um ressaibo de lance de lado
de bilhete de loteria.
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 200.


De ser em ser
A vida com o seu mágico sopro
Vai animando estrumes e cascais
Criando plantas, liquens, animais
A tudo concedendo aura e frescor.
Em toda parte a Vida é um só
Para uso próprio é que tudo faz
Pra sugar cerne, seiva, sangue e sais
Criar e consumir é seu negócio.
Na ânsia pela carne tenra e fresca
Descarta no caminho a velha presa
Sem peso de consciência e sem dó.
Decerto não possui remorso a Vida:
salta de ser em ser, presumida,
Vai deixando pra trás rastro do pó.
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 379.


Gênese
Neste momento,
Milhões de palavras
(espermas em labirinto?)
Dormem no limo
- Dicionário ainda vago -
Num idioma que há de vir
(Um secreto esperanto)
À espera de significados.
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 395.


Harmonia
Identidade não temos, contudo,
de dois fizemos um no eter(no) amplexo
fundindo as al(m)as com amor e nexo
neste mundo só nosso amplo e graúdo.
Amam-se nossos corpos, sobretudo
com despudor, sem brio e sem convexo
tal e qual continente e conteúdo.
Apossa-se de nós o encantamento
de astro e luzir no azul do firmamento
e a eternidade pura e sem marasmo
escorre em nossas veias e do céu
provamos que é tão-só você  mais eu
na transcendência de infinito orgasmo.
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 278.



Olho d'água
Assim escrevo o poema
como Deus escreve o rio
entre fluxo e o dilema
o pleonasmo e a elipse

sem me importar se o veio
vem ou vai para o sertão
se nele dá barco a passeio
ou nem dá navegação.

Tiro por Deus que se atreve
entre ofícios e inzonas
e de gota em gota escreve
arroios e Amazonas

com seus tiques e sotaques
e dicções e corredeiras
suas gagueiras e baques
declamando cachoeiras.

Não sei que rio farei.
Apenas destilo água
de sentimentos se rei
nesta vida sem Pasárgada.

Pode ser que nem dê rio
e tão somente lagoe
mas por não achar caminho

repentinamente voe.
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 101.


O vinho dos dias
Os dias são frutas
plenas de caldo e viço
num daqueles cachos
ainda apegados à videira.

A gente colhe os dias
transporta os dias
que se ferem pelo mau jeito
no assoalho da carroça.

Os dias a gente esmaga
com os pés sobre a tina
dos ofícios e do seu sumo
faz o vinho
da safra possível.

Vem, amada minha!
Vamos nos embriagar
com o vinho desta safra
depois a gente se deita
sobre o bagaço dos dias.

E as sementes lançadas ao solo
vão escrevendo novas videiras
pela caligrafia das heras.
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 113.


Palavras fugitivas
Do fundo sombrio da selva
do dicionário, eu sei (ah, se sei!)
as palavras cessam de mascar
o capim da prosódia e me espreitam
escondidas atrás dos sinônimos
ou nas sombras
dos significados.

Fecham as asas
silenciam os guizos
ficam de canto meio marotas
cochicham entre si e mangam
da minha cara apalermada
e quando eventualmente me deparo
com a palavra exata, aquela
que dá conta do recado,
ela escapa veloz por entre o cipoal
léxico, ou então se faz de esquerda
como se outro significante
é que fosse:
folha seca
graveto
centopeia morta
ninfa transparente.

E assim é que acabo por pegar
uma palavra cambeta, fanha ou tartamuda
que na sua carência para a fuga
ou disfarce não consegue
se esquivar de mim.

Por isso meus poemas são assim:
puxados prum lado
tortinhos de nascença
e ao se manifestarem, é inevitável 
que o aleijão seja o aspecto
mais saliente.
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 115-116.



Raízes
Como quem busca
a beleza interior
as raízes fuçam a terra
reviram a terra por dentro
deslocam pedras
racham calçadas
rompem divisas
de quintais e impérios.

As raízes reviram 
a terra por dentro
feito minhocas
ou porcos em sua fome implacável
em busca de cebolas
selvagens.

No seio da terra
as raízes são rápidas
como o raio.
As raízes têm faro
e focinho e são feras
quando o assunto 
é encontrar o pasto.
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 182-183.


Sentido
Seria o mundo opaco ou transluzente?
Seria a vida inteira um estilhaço,
Restolho de outra obra, simulacro
De outra realidade mais patente?
Seria o mundo palco deprimente
De hormônios e paixões? Um espetáculo
Para o gozo e fruição de um deus gaiato
Que a tudo vê, no entanto, queda ausente?
Seria a vida um auto de sofrer?
Encenação, carente de sentido,
Dos maus sonhos de um deus aborrecido?
Ou um vazio surrão a ser nutrido
De flores e nirvanas que eu quiser?
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 380.



Tecelagem
Quando me convém a certeza
de que  ninguém nesta hora
virá corromper o silêncio.
Ser nenhum no grave instante
há de contaminar os vidros
e os meandros da solidão
que me induzem a sonhar
e com os fios do sonho
tecer a mulher perfeita
(aquela que se combina
com os meus defeitos)
que se encontra diluída
em toda fauna humana.
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 163.


Tempestade em noite densa
Lá fora ainda chove
e a noite é densa
e se adensa em meu peito
tão pequeno tão contido
em seu medo de existir
ou de inexistência.

Lá fora ainda chove
e Deus tomado de toda fúria
atira seus dardos
suas pedras de intifada
ouço o rufar dos tambores
o fragor de tempos
antigos
aflorando dos abismos
anteriores à criação
restolhos de algum material
que Deus desprezou
nos seis dias
de trabalho duro.

Lá fora ainda chove
oh, meu Deus!
e a noite é densa
e desesperado procuro
sobre o criado mudo
nas gavetas da cômoda
que foi de meu eneavô
(antigo bandeirante)
algum segredo alguma chave
alguma palavra mágica
que desarme
essa casa de espantos
que nesta noite feroz
solta seus fantasmas
de famélicos mastodontes
para pastarem a relva
de minha solidão.

Ainda uma vez
uma vez mais
lá fora é a noite dos tempos
crescendo a pleno fermento
o palco da ira de Deus
chicoteando o Satanás
na jaula dos exemplos
e aqui dentro
em vão procuro
em todos os vãos
do claro e do escuro
uma chave que desarme
uma arma que debele
esses arcabuzes
essas bazucas
esses zabumbas infernais

um laço que desate
as auroras em segredo
e acenda a chama firme
dos castiçais.

Lá fora ainda chove
e a noite é densa
ainda uma vez
uma vez mais.
- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 124-126.


Tempo-vento
O vento bole na flauta
sua corda vocal
imprime o fruto da estação
em seu passeio matinal
esculpe na pedra a face
e na face a pedra final.

Todo vento
          é sobejo
do sopro seminal
nas narinas do fantoche.

Vento! Vento!
Cigano dos tempos,
leva a semente do instante
para o horizonte mais remoto.

O amanhã
(fascinante) é a nova face
a ser esculpida

          ao comando de seu hálito.
- Edival Lourenço, em "A caligrafia das eras". Goiânia, GO: R&F Editora, 2012, p. 114-115.


Viração lunar
[A Delermando Vieira e Maria de Fátima Gonçalves Lima]

Galharda noite
no seio da madrugada
a grande meia lua
- inteiro naco -
a luz em arco defronte
um barco e outeiro no horizonte
a multiplicar-se no charco.
O Adágio da Sonata ao Luar
de Beethoven
me trespassa
no interior do carro.

Pela via que embarco
como um narco a luz da lua
me embriaga o espírito
e então me incluo no barco

daí zarpo em vertigem
por um destino mágico
pela aragem me dissipo
sem porto
sem mira
sem marco.
- Edival Lourenço, em "A caligrafia das eras". Goiânia, GO: R&F Editora, 2012, p. 196-197.


Edival Lourenço - foto: Janela art
FORTUNA CRÍTICA DE EDIVAL LOURENÇO
ENTREVISTA. Edival Lourenço. em Janela Art. Disponível no link. (acessado em 10.9.2015).
LEITE, Carlos William. O texto como metáfora. Jornal Opção, Edição 1873 de 29 de maio a 3 de junho 2011. Disponível no link. (acessado em 10.9.2015).
Edival Lourenço - foto: Nelson Santos
LUIZ, Ademir. Poesia Reunida: a biografia em versos de Edival Lourenço. Jornal Opção, edição 2086. Disponível no link. (acessado em 10.9.2015).
LUIZ, Ademir. Futuro no pretérito. Jornal Opção, Edição 1873 de 29 de maio a 3 de junho 2011. Disponível no link. (acessado em 10.9.2015).
SILVA, Carlos Augusto. Poesia reunida, de Edival Lourenço - a trajetória de um poeta. in: revista Bula. Disponível no link. (acessado em 10.9.2015).
SILVA, Ricardo. Proeza linguística e enredo estimulante. Jornal Opção, Edição 1892 de 9 a 15 de outubro de 2011. Disponível no link. (acessado em 10.9.2015).
TAVARES, Valéria Alves Correia. Sob o signo do fantástico e seus desdobramentos no romance, A centopéia de neon, de Edival Lourenço, em diálogo com contos dos autores goianos: Antônio Tavares, José J. Veiga e Bernardo Élis. (Dissertação Mestrado em Letras). Pontifícia Universidade Católica de Goiás, PUC GOIÁS, 2015.
TELES, José Mendonça (editor). Dicionário do escritor Goiano. 4ª ed., Goiânia: Kelps, 2011.



SITE/BLOG DO POETA EDIVAL LOURENÇO
:: Blog Edival Lourenço


Edival Lourenço - foto: arrozdefyesta
REFERÊNCIAS E OUTRAS FONTES DE PESQUISA
:: Antonio Miranda
:: UBE - Secção Goiás

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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Edival Lourenço - escritor goiano. Templo Cultural Delfos, setembro/2015. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
____
** Página atualizada em 10.9.2015.




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