Raimundo Correia - uma sinfonia poética

Raimundo Correia
Raimundo Correia (R. da Mota de Azevedo C.), magistrado, professor, diplomata e poeta, nasceu em 13 de maio de 1859, a bordo do navio brasileiro São Luís, ancorado na baía de Mogúncia, MA, e faleceu em Paris, França, em 13 de setembro de 1911. Fundador da Cadeira 5 da ABL.
Foram seus pais o Desembargador José Mota de Azevedo Correia, descendente dos duques de Caminha, e Maria Clara Vieira da Silva. Vindo a família para a Corte, o pequeno Raimundo foi matriculado no Internato do Colégio Nacional, hoje Pedro II, onde concluiu os estudos preparatórios em 1876. No ano seguinte, matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo. Ali encontrou um grupo de rapazes entre os quais estavam Raul Pompéia, Teófilo Dias, Eduardo Prado, Afonso Celso, Augusto de Lima, Valentim Magalhães, Fontoura Xavier e Silva Jardim, todos destinados a ser grandes figuras das letras, do jornalismo e da política.
Em São Paulo, no tempo de estudante, colaborou em jornais e revistas. Estreou na literatura em 1879, com o volume de poesias Primeiros sonhos. Em 1883, publicou as Sinfonias, onde se encontra um dos mais conhecidos sonetos da língua portuguesa, “As pombas”. Este poema valeu a Raimundo Correia o epíteto de “o Poeta das pombas”, que ele, em vida, tanto detestou. Recém-formado, veio para o Rio de Janeiro, sendo logo nomeado promotor de justiça de São João da Barra e, em fins de 1884, era juiz municipal e de órfãos e ausentes em Vassouras. Em 21 de dezembro daquele ano casou-se com Mariana Sodré, de ilustre família fluminense. Em Vassouras, começou a publicar poesias e páginas de prosa no jornal O Vassourense, do poeta, humanista e músico Lucindo Filho, no qual colaboravam nomes ilustres: Olavo Bilac, Coelho Neto, Alberto de Oliveira, Lúcio de Mendonça, Valentim Magalhães, Luís Murat, e outros. Em começos de 89, foi nomeado secretário da presidência da província do Rio de Janeiro, no governo do conselheiro Carlos Afonso de Assis Figueiredo. Após a proclamação da República, foi preso. Sendo notórias as suas convicções republicanas, foi solto, logo a seguir, e nomeado juiz de direito em São Gonçalo de Sapucaí, no sul de Minas.
Em 22 de fevereiro de 1892, foi nomeado diretor da Secretaria de Finanças de Ouro Preto. Na então capital mineira, foi também professor da Faculdade de Direito. No primeiro número da Revista que ali se publicava, apareceu seu trabalho “As antiguidades romanas”. Em 97, no governo de Prudente de Morais, foi nomeado segundo secretário da Legação do Brasil em Portugal. Ali edita suas Poesias, em quatro edições sucessivas e aumentadas, com prefácio do escritor português D. João da Câmara. Por decreto do governo, suprimiu-se o cargo de segundo-secretário, e o poeta voltou a ser juiz de direito. Em 1899, residindo em Niterói, era diretor e professor no Ginásio Fluminense de Petrópolis.
Em 1900, voltou para o Rio de Janeiro, como juiz de vara cível, cargo em que permaneceu até 1911. Por motivos de saúde, partiu para Paris em busca de tratamento. Ali veio a falecer. Seus restos mortais ficaram em Paris até 1920. Naquele ano, juntamente com os do poeta Guimarães Passos também falecido na capital francesa, para onde fora à procura de saúde foram transladados para o Brasil, por iniciativa da Academia Brasileira de Letras, e depositados, em 28 de dezembro de 1920, no cemitério de São Francisco Xavier.
Raimundo Correia ocupa um dos mais altos postos na poesia brasileira. Seu livro de estréia, Primeiros sonhos (1879) insere-se ainda no Romantismo. Já em Sinfonias (1883) nota-se o feitio novo que seria definitivo em sua obra o Parnasianismo. Segundo os cânones dessa escola, que estabelecem uma estética de rigor formal, ele foi um dos mais perfeitos poetas da língua portuguesa, formando com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac a famosa trindade parnasiana. Além de poesia, deixou obras de crítica, ensaio e crônicas.
:: Fonte: Academia Brasileira de Letras - ABL (acessado em 14.6.2015)



Raimundo Correia
OBRA DE RAIMUNDO CORREIA
Poesia
:: Primeiros sonhos(poesias lyricas), São Paulo: Typographia da Tribuna Liberal, 1879. 
:: Symphonias[introdução Machado de Assis]. Rio de Janeiro: Typographia de Faro e Lino, 1883.
:: Versos e versões (1883-1886). Rio de Janeiro: Thipographia e Litographia Moreira Maximino & C, 1887.
:: Alleluias (1888-1890).. [Carta-prefácio Affonso Celso]. Rio de Janeiro: Companhia Editora Fluminense, 1891.

Ensaio
:: Lucindo Filho: biografia e estudo crítico. Lisboa:, 1898.

Antologia, seleta e obra reunida
:: Poesias. (edição portugueza).. [prólogo de D. João da Câmara; notas do autor]. 1ª ed., Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1898, 188p.; 2ª ed., corregida e aumentada, 1906, 215p.; 3 ª ed., corregida e aumentada, 1910, 294p.
:: Poesias. [Organização, nota sobre a edição Mário de Alencar]. 4ª ed., Rio de Janeiro: Anuário do Brasil; Porto: Renascença Portuguesa, 1922, 310p.
:: Poesias completas. 2 vols., [organização Múcio Leão]. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1948.
:: Poesia completa e prosa. [Texto, cronologia, notas e estudo biográfico Valdir Ribeiro do Val; introdução Manuel Bandeira]. Rio de janeiro: Nova Aguilar, 1961.
:: Poesias. [Organização Lêdo Ivo]. 1ª ed., 1958; 2ª ed., Rio de Janeiro: Agir, 1961.
:: Melhores poemas de Raimundo Correia. [organização Telenia Hill]. Rio de Janeiro: Global Editora, 2001, 192p.
:: Raimundo Correia: melhores poemas. Editora Via Lettera, 2009, 224p.
:: Raimundo CorreiaSérie essencial. (45 poemas feitos na juventude, quando o poeta tinha entre 16 e 17 anos). [organização Augusto Sérgio Bastos]. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2011, 68p.
:: Poesia Completa Raimundo Correia. [organização Claunísio Amorim Carvalho]. São Luis MA: Editora Café & Lápis, 2013.

Antologia [participação]
:: Antologia nacional (1895-1969).. [seleção e notas Fausto Barreto e Carlos de Laet]. 9ª ed., Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1925, 551p.
:: Antologia dos poetas brasileiros da fase parnasiana. [Organização Manuel Bandeira]. 1ª ed., 1938; Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.
:: Apresentação da poesia brasileira. [organização Manuel Bandeira; posfácio Otto maria Carpeaux]. 1ª ed., 1946; 2ª ed., São Paulo Casac Naify, 2009.
:: Antologia da poesia parnasiana brasileira. [organização e seleção Pedro Marques]. Companhia Editora Nacional; Lazuli, 2007, 228p.

Edições estrangeiras da obra de Raimundo Correia
:: Revista de Cultura Brasileña [tradução Angel Crespo]. Edições Embajada del Brasil en Madrid, España, nº 17, Junio 1966.
:: Aleluias. [introdução, fixação do texto e notas Maria da Penha Campos Fernandes].. Coleção Cruzeiro do Sul, nº 2. Porto: Edições Ecopy, 2013.

Traduções e versões
Em seu terceiro livro, Versos e Versões, incluiu numerosas “versões” de poetas como Théophile Gautier, Jean Richepin, Victor Hugo e Lope de Vega, entre outros. Lançou-o no Rio, em 1887.
:: Versos e versões. 1ª ed., Rio de Janeiro: Typ. e Lith. Moreira Maximino & C., 1887. Disponível no link. (acessado em 14.6.2015).


"Aí está o poeta, com a sua sensibilidade, o seu verso natural e correntio, o seu amor à arte de dizer as coisas, fugindo à vulgaridade, sem cair na afetação. Ele pode não ser sempre a mesma coisa, no conceito e no estilo, mas é poeta, e fio que esta seja a opinião dos leitores."
- Machado de Assis. 'Raimundo Correia: sinfonias'. [introdução a Sinfonias, Rio de Janeiro, 1883. 


POEMAS ESCOLHIDOS DE RAIMUNDO CORREIA
Amor e vida
Esconde-me a alma, no íntimo, oprimida,
Este amor infeliz, como se fora
Um crime aos olhos dessa, que ela adora,
Dessa, que crendo-o, crera-se ofendida.

A crua e rija lâmina homicida
Do seu desdém vara-me o peito; embora,
Que o amor que cresce nele, e nele mora,
Só findará quando findar-me a vida!

Ó meu amor! como num mar profundo,
Achaste em mim teu álgido, teu fundo,
Teu derradeiro, teu feral abrigo!

E qual do rei de Tule a taça de ouro,
Ó meu sacro, ó meu único tesouro!
Ó meu amor! tu morrerás comigo!
- Raimundo Correia, em "Sinfonias". 1883.


Anoitecer
A Adelino Fontoura 

Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de ouro e de púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...

Delineiam-se, além, da serrania
Os vértices de chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia.

Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua...

A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece.
- Raimundo Correia, em "Poesias completas de Raimundo Correia". vol. 1. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1948, p.120.


As pombas
Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...
- Raimundo Correia, em "Sinfonias". 1883.


A cavalgada
A lua banha a solitária estrada...
Silêncio!... Mas além, confuso e brando,
O som longínquo vem-se aproximando
Do galopar de estranha cavalgada.

São fidalgos que voltam da caçada;
Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando.
E as trompas a soar vão agitando
O remanso da noite embalsamada...

E o bosque estala, move-se, estremece...
Da cavalgada o estrépito que aumenta
Perde-se após no centro da montanha...

E o silêncio outra vez soturno desce...
E límpida, sem mácula, alvacenta
A lua a estrada solitária banha...
- Raimundo Correia, em "Sinfonias". 1883.


Banzo
Visões que na alma o céu do exílio incuba,
Mortais visões!  Fuzila o azul infando...
Coleia, basilisco de ouro, ondeando
O Níger... Bramem leões de fulva juba...

Uivam chacais... Ressoa a fera tuba
Dos cafres, pelas grotas retumbando,
E a estrelada das árvores, que um bando
De paquidermes colossais derruba...

Como o guaraz nas rubras penhas dorme,
Dorme em nimbos de sangue o sol oculto...
Fuma o saibro africano incandescente...

Vai com a sombra crescendo o vulto enorme
Do baobá... E cresce na alma o vulto
De uma tristeza, imensa, imensamente...
- Raimundo Correia, em "Aleluias" (1891)/"Poesias completas". São Paulo: Cia Editora Nacional, vol 1., 1948, p. 18.


Beijo póstumo
Do meu primeiro amor, ei-lo, o templo em ruína! 
No estômago da morte, atro e voraginoso,
Essa carne ideal, deliciosa e fina,
Caiu como um manjar fino e delicioso

E antes que tudo venha a supurar em flores,
Sob o pudor da morte os membros seus inermes
Têm de ser fatalmente o pábulo dos vermes
Frios e roedores...

E o beijo que pedi e ela jamais me deu,
Que em vida quis colher e nunca foi colhido,
Cai do seu lábio como um fruto apodrecido...
Ó beijo virginal! Fruto que apodreceu!
- Raimundo Correia, em 'Sinfonias' (1883)/ "Poesia completa e prosa". Rio de janeiro: Aguilar, 1961, p. 142.


Chuva e Sol 
Agrada à vista e à fantasia agrada
Ver-te, através do prisma de diamantes
Da chuva, assim ferida e atravessada 
Do sol pelos venábulos radiantes...

Vais e molhas-te, embora os pés levantes:
- Par de pombos, que a ponta delicada 
Dos bicos metem nágua e, doidejantes,
Bebem nos regos cheios da calçada...

Vais, e, apesar do guarda-chuva aberto,
Borrifando-te colmam-te as goteiras
De pérolas o manto mal coberto;

E estrelas mil cravejam-te, fagueiras,
Estrelas falsas, mas que assim de perto, 
Rutilam tanto, como as verdadeiras...
- Raimundo Correia, em "Versos e versões" (1887)/Poesias completas. São Paulo: Cia Editora Nacional, vol 1., 1948, p. 109.


Desdéns
Realçam no marfim da ventarola
As tuas unhas de coral felinas
Garras com que, a sorrir, tu me assassinas,
Bela e feroz... O sândalo se evolua;

O ar cheiroso em redor se desenrola;
Pulsam os seios, arfam as narinas...
Sobre o espaldar de seda o torso inclinas
Numa indolência mórbida, espanhola...

Como eu sou infeliz! Como é sangrenta
Essa mão impiedosa que me arranca
A vida aos poucos, nesta morte lenta!

Essa mão de fidalga, fina e branca;
Essa mão, que me atrai e me afugenta,
Que eu afago, que eu beijo, e que me espanca!
- Raimundo Correia, em "Versos e versões". 1887.


Mal secreto
Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja aventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!
- Raimundo Correia, em "Sinfonias". 1883.



Nua e crua 
Doire a Poesia a escura realidade
E a mim a encubra! Um visionário ardente
Quis vê-la nua um dia; e, ousadamente,
Do áureo manto despoja a divindade;

O estema da perpétua mocidade
Tira-lhe e as galas; e ei-la, de repente,
Inteiramente nua e inteiramente
Crua, como a Verdade! E era a Verdade!

Fita-a em seguida, e atônito recua...
- Ó Musa! exclama então, magoado e triste,
Traja de novo a louçainha tua!

Veste outra vez as roupas que despiste!
Que olhar se apraz em ver-te assim tão nua?...
À nudez da Verdade quem resiste?!
- Raimundo Correia, em em "Aleluias" (1891)/Poesia completa e prosa". Rio de janeiro: Aguilar, 1961.


O misantropo
A boca, às vezes, o louvor escapa
E o pranto aos olhos; mas louvor e pranto
Mentem: tapa o louvor a inveja, enquanto
O pranto a vesga hipocrisia tapa.

Do louvor, com que espanto, sob a capa
Vejo tanta dobrez, ludíbrio tanto!
E o pranto em olhos vejo, com que espanto,
Que escarnecem dos mais, rindo à socapa!

Porque, desde que esse ódio atroz me veio,
Só traições vejo em cada olhar venusto?
Perfídias só em cada humano seio?

Acaso as almas poderei sem custo
Ver, perspícuo e melhor, só quando odeio?
E é preciso odiar para ser justo?!
- Raimundo Correia, em "Versos e versões". 1887.


O poeta
A Alberto Oliveira

Poeta! É mister que o poeta, ele, em cuja linguagem
há torrentes lustrais e bálsamos fragrantes;
Ele que encanta, embora os cépticos o ultrajem,
As crianças, as mães, os tristes e os amantes;

Ele que erra na plaga, onde em flechas radiantes,
o sol do estro a surdir purpureja a paisagem,
E onde bailam cantando as estrofes cambiantes,
- Aves de voz de prata e irisada plumagem;

É mister que ele, o poeta, 0 cismador, 0 brando,
Ele que ri, também ruja de quando em quando,
Implacável, cruento, enraivecido, atroz!

Assim na selva em flor, esplendida e ridente
E verde e silenciosa, atroa de repente
Um berro de animal carnívoro e feroz.
- Raimundo Correia, em 'Sinfonias' (1883)/ "Poesia completa e prosa". Rio de janeiro: Aguilar, 1961, p. 160.


O vinho de Hebe
Quando do Olimpo nos festins surgia
Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia...

A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia...

E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa...
Passa, e não torna atrás o seu caminho.

Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho
- Raimundo Correia, em "Sinfonias". 1883.


Ondas...
Ilha de atrozes degredos!
Cinge um muro de rochedos
Seus flancos.  Grosso a espumar
Contra a dura penedia,
Bate, arrebenta, assobia,
Retumba, estrondeia o mar.

Em circuito, o Horror impera; 
No centro, abrindo a cratera 
Flagrante, arroja um volcão 
Ígnea blasfêmia às alturas... 
E, nas ínvias espessuras, 
Brame o tigre, urra o leão.

Aqui chora, aqui, proscrita,
Clama e desespera aflita
A alma de si mesma algoz,
Buscando na imensa plaga,
Entre mil vagas, a vaga,
Que neste exílio a depôs.

Se a vida a prende à matéria,
Fora desta, a alma, sidérea,
Radia em pleno candor;
O corpo, escravo dos vícios,
É que teme os precipícios,
Que este mar cava em redor.

No azul eterno ela busca,
No azul, cujo brilho a ofusca,
Pairar, incendida ao sol,
Despindo a crusta vil, onde
Se esconde, como se esconde
A lesma em seu caracol.

Contempla o infinito ... Um bando
De gerifaltos voando
Passou, desapareceu
No éter azul, na água verde...
E onde esse bando se perde,
seu longo olhar se perde...

Contempla o mar, silenciosa:
Ora mansa, ora raivosa,
Vai e vem a onda minaz,
E entre as pontas do arrecife,
Às vezes leva um esquife,
Às vezes um berço traz.

Contempla, de olhos magoados,
Tudo...  Muitos degredados
Findo o seu degredo têm;
Vão-se na onda intumescida
Da Morte, mas na da Vida,
Novos degredados vêm.

Ó alma contemplativa !
Vem já, decumana e altiva,
Entre as ondas talvez,
A que, no supremo esforço
Da morte, em seu frio dorso,
Te leve ao largo, outra vez.

Quanto esplendor!  São aquelas
As regiões de luz, que anelas,
Rompe os rígidos grilhões,
Com que à Carne de agrilhoa
O instinto vital!  E voa,
e voa àquelas regiões!...
- Raimundo Correia, em "Aleluias" (1891)/"Poesia completa e prosa". Rio de janeiro: Aguilar, 1961.


Plenilúnio
Além nos ares, tremulamente,
Que visão branca das nuvens sai!
Luz entre as franças, fria e silente;
Assim nos ares, tremulamente,
Balão aceso subindo vai...

Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor!
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador!

Astros dos loucos, sol da demência,
Vaga, noctâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol da demência,
Lua dos loucos, loucos estão!

Quantos à noite, de alva sereia
O falaz canto na febre a ouvir,
No argênteo fluxo da lua cheia.
Alucinados se deixam ir...

Também outrora, num mar de lua,
Voguei na esteira de um louco ideal;
Exposta aos éolos a fronte nua,
Dei-me ao relento, num mar de lua,
Banhos de lua que fazem mal.

Ah! quantas vezes, absorto nela,
Por horas mortas postar-me vim
Cogitabundo, triste, à janela,
Tardas vigílias passando assim!

E assim, fitando-a noites inteiras,
Seu disco argênteo na alma imprimi;
Olhos pisados, fundas olheiras,
Passei fitando-a noites inteiras,
Fitei-a tanto, que enlouqueci!

Tantos serenos tão doentios,
Friagens tantas padeci eu;
Chuva de raios de prata frios
A fronte em brasa me arrefeceu!

Lunárias flores, ao feral lume,
— Caçoilas de ópio, de embriaguez —
Evaporaram letal perfume...
E os lençóis d'água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez...

Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
E a tudo em roda, desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver.

E erguem por vias enluaradas
Minhas sandálias chispas a flux...
Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
Eu sigo às tontas, cego de luz...

Um luar amplo me inunda, e eu ando
Em visionária luz a nadar,
Por toda a parte, louco, arrastando
O largo manto do meu luar...
- Raimundo Correia, em "Poesias". Lisboa: Tip. de Antonio Maria Pereira, 3ª ed., 1910.


Saudade
Aqui outrora retumbaram hinos;
Muito coche real nestas calçadas
E nestas praças, hoje abandonadas,
Rodou por entre os ouropéis mais finos...

Arcos de flores, fachos purpurinos,
Trons festivais, bandeiras desfraldadas,
Girândolas, clarins, atropeladas
Legiões de povo, bimbalhar de sinos...

Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lájeas frias;

E em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia, e chora, como Jeremias,
Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!...
- Raimundo Correia, em "Versos e versões". 1887.


Último porto
Este o país ideal que em sonhos douro;
Aqui o estro das aves me arrebata,
E em flores, cachos e festões, desata
A Natureza o virginal tesouro;

Aqui, perpétuo dia ardente e louro
Fulgura; e, na torrente e na cascata,
A água alardeia toda a sua prata,
E os laranjais e o sol todo o seu ouro...

Aqui, de rosas e de luz tecida,
Leve mortalha envolva estes destroços
Do extinto amor, que inda me pesam tanto;

E a terra, a mãe comum, no fim da vida,
Para a nudeza me cobrir dos ossos,
Rasgue alguns palmos do seu verde manto.
- Raimundo Correia, em "Aleluias", 1891.



Vésper 
Do seu fastígio azul, serena e fria,
Desce a noite outonal, augusta e bela;
Vésper fulgura além... Vésper! Só ela
Todo o céu, doce e pálida, alumia.

De um mosteiro na cúpula irradia
Com frouxa luz... Em sua humilde cela,
Contemplativa e lânguida à janela, 
Triste freira, fitando-a, se extasia...

Vésper, envolta em deslumbrante alvura, 
Ó nuvens, que ides pelo espaço afora!
A quem tão longo olhar volve da altura?

Que olhar, irmão do seu, procura agora 
Na terra o astro do amor? O olhar procura 
Da solitária freira que o namora.
- Raimundo Correia, em "Aleluias" (1891)/Poesias completas. São Paulo: Cia Editora Nacional, vol 1., 1948, p. 97.


Vulnus
Com bons olhos, quem ama, em torno tudo vê!
Folga, estremece, ri, sonha, respira e crê;
A crença doira e azula o círculo que o cinge;
Da volúpia do bem o grau supremo atinge!

Eu também atingi esse supremo grau:
Também fui bom e amei, e hoje odeio e sou mau!
E as culpadas sois vós, visões encantadoras,
Virgínias desleais, desleais Eleonoras!

Minha alma juvenil, ígnea, meridional,
Num longo sorvo hauriu o pérfido e letal
Filtro do vosso escuro e perigoso encanto!

A vossos pés rasguei tantos castelos! Tanto
Sonho se esperdiçou! Tanta luz se perdeu!...
Amei: nem uma só de vós me compreendeu!
- Raimundo Correia, em "Sinfonias". 1883.


FORTUNA CRÍTICA DE RAIMUNDO CORREIA
Raimundo Correia
[Estudos acadêmicos - teses, dissertações, ensaios, artigos e livros]
AMARAL, Marcos Roberto dos Santos. Raimundo Correia: a estilística do soneto. Cadernos, Diario do Nordeste, 28.6.2008. Disponível no link. (acessado em 14.6.2015). ARAUJO, Antonio Martins de.. Vida e obra do “maior artista do verso” no Brasil: Raimundo Correia. Disponível no link. (acessado em 14.6.2015). 
ASSIS, Machado. Raimundo Correia: sinfonias. [introdução a 'Sinfonias', Rio de Janeiro, 1883]. Texto-Fonte: Obra Completa de Machado de Assis, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994. Disponível no link. (acessado em 14.6.2015).
BARROS, Fernando Monteiro de; PEREIRA, Aline; VEIGA, Suzane Morais da.. Traços do decadentismo na poesia brasileira de 1880 a 1920: Raimundo Correia e Gilka Machado. SOLETRAS, Ano X, Nº 19, jan./jun.2010. São Gonçalo: UERJ, 2010. Disponível no link. (acessado em 14.6.2015).
BASTOS, Augusto Sérgio. Centenário de Raimundo Correia (morte). Penclube, revista 2. Disponível no link. (acessado em 14.6.2015).
BILAC, Olavo; PASSOS, Guimarães. Tratado de versificação - a poesia no Brasil, a métrica, gêneros literários. 1ª ed., 1905; 10ª ed., Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1956.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 1ª ed., 1994; 46ª ed., São Paulo Cultrix, 2008.
BOTOSO, Altamir. Traços Baudelairianos em Raimundo Correia. Revista Eletrônica Via Litterae,  Anápolis, v. 2, n. 2, p. 541-557, jul./dez. 2010. Disponível no link. (acessado em 14.6.2015).
CAVALCANTI, Camillo. A presença da mulher na poesia parnasiana. Cadernos de Letras da UFF – PIBIC – GLC, nos 30-31, 2004-2005. Disponível no link. (acessado em 14.6.2015).
FRANZ, Jaqueline Pricila dos Reis. As pombas - Raimundo Correia. In: Grupo PET / Letras da Unisinos. (Org.). Românticos, parnasianos e simbolistas juntos na eternidade do verso. 1ª ed.,São Leopoldo: COOPRAC, 2001, v. 1, p. 101-111.
LÔBO, Danilo. Raimundo Correia: itinerário de um poeta. Travessia, nº 25, 1992. Disponível no link. (acessado em 14.6.2015).
NOVIELLO, Celeste. Minha terra. Três Corações: Excelsior Gráfica e Editora, 1995.
PATRIOTA, Margarida de Aguiar. Para compreender Raimundo Correia. 1ª ed., Brasília: Alhambra, 1994. v. 1000. 48p.
SALTARELLI, Thiago César Viana Lopes. Elementos simbolistas num poema de Raimundo Correia. O Eixo e a Roda, v. 14, p. 95-104, 2007.
SILVA, Adriana Gonçalves da.. O uso dos recursos fonéticos na poesia de Raimundo Correia e Manuel Bandeira: um estudo comparativo. (Monografia Graduação em Língua Portuguesa e suas Literaturas). Associação Barramansense de Ensino, SOBEU, 2006.
Capa do livro "Versos e Versões" 1887
Raimundo Correia
SILVA, Adriana Gonçalves da.. O trato do signo linguístico no poema "Ondas..." de Raimundo Correia. In: I Jornada Nacional de Lingüística e Filologia da Língua Portuguesa, 2006. Dia Nacional da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, 2006.
SIQUEIRA, Bueno. Raimundo Correia - sua vida e sua obra. Rio de Janeiro: Academia Brasileira DE Letras, 1942.
SOUTO, Bernardo. Desonra ao mérito. Revista Vila Nova, 8.11.2013. Disponível no link. (acessado em 14.6.2015).
VAL, Waldir Ribeiro do. Raimundo Correia estudante. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação, MEC, 1955.
VAL, Waldir Ribeiro do. Vida e obra de Raimundo Correia. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro (INL), 1960; 2ª ed., Cátedra, 1980.
VASCONCELOS, Rosel Ulisses Silva e.. O filosófico e o intertextual na poesia de Raimundo Correia. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal do Ceará, UFC, 2001.
VASCONCELOS, Rosel Ulisses Silva e.. Cruzamento de biografias: um estudo coordenado sobre Raimundo Correia e Narcisa Amália. In: VI Semana de Atividades Científicas, 2008, Resende. VI SEMANA DE ATIVIDADES CIENTÍFICAS DA AEDB. Resende: AEDB Editora, 2008.


“[...] Oxalá possuísse nossa pátria muitos homens desta craveira, homens que dignifiquem, homens que a exaltem, homens que, com o pensamento ilustrado e o caráter incorrupto, a tornem invejável, e que, com a vida honesta, a tornem amável; homens, enfim, que a não amem só com a boca, mas de coração, mas de fato [...]”
- Bueno de Sequeira, escreveu em 1925, sobre Raimundo Correia.


Alberto Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac
A tríade parnasiana

PUBLICAÇÕES DA OBRA DE RAIMUNDO CORREIA DISPONÍVEIS ONLINE* (1ª EDIÇÕES) - BIBLIOTECA BRASILIANA GUITA E JOSÉ MINDLIN - USP
:: Primeiros sonhos: poesias. São Paulo: Typ. da Tribuna Liberal, 1879.
:: Versos e versões. Rio de Janeiro: Typ. e Lith. Moreira Maximino & C., 1887.
:: Alleluias. Rio de Janeiro: Companhia Editora Fluminense, 1891. 
* (acessado em 14.6.2015).


Raimundo Correia
REFERÊNCIAS E OUTRAS FONTES DE PESQUISA
:: Academia Brasileira de Letras - ABL
:: Antonio Miranda - Raymundo Correia
:: Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin - Raimundo Correia 1859-1911
:: Enciclopédia Itaú Cultural - literatura 
:: Escritas - Raimundo Correia
:: Poemagens - Raimundo Correia
:: Raimundo Correia - alguns poemas. (Iba Mendes)
:: Sonetos - Raimundo Correia


© A obra de Raimundo Correia é de domínio público

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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Raimundo Correia - uma sinfonia poética. Templo Cultural Delfos, junho/2015. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 15.6.2015.




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2 comentários:

  1. Onde posso encontrar crônicas de Raimundo Correia?

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