Rainer Maria Rilke – o poeta de todos os tempos

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Rainer Maria Rilke nasceu em Praga no dia 4 de dezembro de 1875. Depois de viver uma infância solitária e cheia de conflitos emocionais, estudou nas universidades de Praga, Munique e Berlim. Suas primeiras obras publicadas foram poemas de amor, intitulados Vida e canções (1894). Em 1897, Rilke conheceu Lou Andreas-Salomé, a filha de um general russo, e dois anos depois viajava com ela para seu país natal. Inspirado pelas dimensões e pela beleza da paisagem como também pela profundidade espiritual das pessoas que conheceu, Rilke passou a acreditar que Deus estava presente em todas as coisas. Estes sentimentos encontraram expressão poética em Histórias do bom Deus (1900). Depois de 1900, Rilke eliminou de sua poesia o lirismo vago que em parte lhe haviam inspirado os simbolistas franceses, e, em seu lugar, adotou um estilo preciso e concreto, que podemos perceber em O livro das horas (1905), que consta de três partes: O livro da vida monástica, O livro da peregrinação e O livro da pobreza e da morte. Esta obra o consolidou como um grande poeta por sua variedade e riqueza de metáforas, e por suas reflexões um pouco místicas sobre as coisas.
Em Paris, em 1902, Rilke conheceu o escultor Auguste Rodin e foi seu secretário de 1905 a 1906. Rodin ensinou o poeta a contemplar a obra de arte como uma atividade religiosa e a fazer versos tão consistentes e completos como se fossem esculturas. Os poemas deste período apareceram em Novos poemas (2 volumes, 1907-1908). Até o início da I Guerra Mundial, o autor viveu em Paris de onde realizou viagens pela Europa e pelo norte da África. De 1910 a 1912 viveu no castelo de Duíno, próximo a Trieste (agora na Itália), e ali escreveu os poemas que formam A vida de Maria (1913). Logo após iniciou a primeira redação das Elegias de Duíno (1923), obra esta em que já se percebe uma certa aproximação dos conceitos filosóficos existenciais de Soren Kierkegaard.
Em sua obra em prosa mais importante, Os cadernos de Malte Laurids Brigge (1910), novela iniciada em Roma no ano de 1904, empregou imagens corrosivas para transmitir as reações que a vida em Paris provocava em um jovem escritor muito parecido com ele mesmo.
Residiu em Munique durante quase toda a I Guerra Mundial e em 1919 mudou-se para Sierra (Suíça), onde se estabeleceu para o resto de sua vida, salvo algumas visitas ocasionais a Paris e Veneza, concluindo as Elegias de Duíno e escreveu Sonetos a Orfeu (1923). Estas obra são consideradas as mais importantes de sua produção poética. As Elegias representam a morte como uma transformação da vida e uma realidade interior que, junto com a vida, foram uma coisa única. A maioria dos sonetos cantam a vida e a morte como uma experiência cósmica. Rilke morreu no dia 29 de dezembro de 1926 em Valmont (Suíça).
Sua obra, com seu hermetismo, solidão e ociosidade, chegou a um profundo existencialismo e influenciou os escritores dos anos cinqüenta tanto na Europa como na América.
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Fonte: in: RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. [tradução Paulo Rónai e Cecília Meireles]. Porto Alegre: Globo, 1975.



"O que se torna preciso é, no entanto, isto: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo, não encontrar ninguém durante horas - eis o que se deve saber alcançar. Estar sozinho como se estava quando criança, enquanto os adultos iam e vinham, ligados a coisas que pareciam importantes e grandes porque esses adultos tinham um ar tão ocupado e porque nada se entendia de suas ações."
- Rainer Maria Rilke, em "Cartas a um jovem poeta." [tradução Paulo Rónai]. in: RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. [tradução Paulo Rónai e Cecília Meireles].  Porto Alegre: Globo, 1975.


OBRA DE RAINER MARIA RILKE
Principais
:: Vida  e Canções (Leben und Lieder). 1894.
:: Historias do bom Deus (Geschichten vom lieben Gott).. 1900
:: Historias de ouro (Vom lieben Gott und Anderes). 1900.
:: Poemas (Geldbaum). 1901.
:: Livro de Imagens (Das Buch der Bilder). 1902.
:: Augusto Rodin (Auguste Rodin). 1903.
:: O livro das horas (Stundenbuch). 1905.
:: Histórias de amor e de morte do corneteiro Christopher Rilke. (Die Weise von Liebe und Tod des Cornet Christopher Rilke). 1906. 
:: Novos poemas (Neue Gedichte). 1907-1908.
:: Os Cadernos de Malte Laurids Brigge (Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge). 1910.
:: A vida de Maria (Das Merien Leben). 1913.
:: Cartas a um jovem poeta (Briefe an einen jungen Dichter). 1920.
:: O testamento. 1921.
:: Elegias de Duíno (Duineser Elegien). 1923
:: Sonetos a Orfeu (Sonette an Orpheus). 1923.


RILKE PUBLICADO EM PORTUGUÊS
Rilke no Brasil (apresentação em ordem alfabética)
:: A melodia das coisas (coletânea de contos, ensaios e cartas). Rainer Maria Rilke. [organização e tradução Claudia Cavalcanti]. São Paulo: Estação da Liberdade, 2011, 228p.
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:: A princesa branca: cena à beira-mar (Die weiße Fürstin). Rainer Maria Rilke. [tradução Ângela Leite Lopes]. Rio de Janeiro: 7 Letras, 1996, 47p.
:: Alguns poemas. Cartas a um jovem poeta (Gedichte: Briefe an einem jungen Dichter). Rainer Maria Rilke. [tradução Geir Campos]. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997, 93p.
:: As rosas (Les roses). Rainer Maria Rilke. [tradução e prefácio Janice Caiafa; e desenho de capa Anna Schewitz de Riga].  Rio de Janeiro: 7 Letras, 1996; 2ª ed., 2002; 3ª ed., 2007, 67p.
:: Auguste Rodin (Auguste Rodin). Rainer Maria Rilke. [tradução Marion Fleischer]. São Paulo: Nova Alexandria, 2003, 174p.
:: Cartas a um jovem poeta (Briefe an einen jungen Dichter). Rainer Maria Rilke.  [introdução e tradução Fernando Jorge]. Rio de Janeiro: Editora Hemus, 1967, 71p.
:: Cartas a um jovem poeta (Briefe an einen jungen Dichter). Rainer Maria Rilke. [tradução Pedro Süssekind]. Porto Alegre: L&PM Pocket, v. 530, 2006, 96p.
:: Cartas a um jovem poeta. A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke (Briefe an einen jungen Dichter. Die Weise von Liebe und Tod des Cornet Christoph Rilke). Rainer Maria Rilke. [tradução Paulo Rónai e Cecília Meireles].  1ª ed., Porto Alegre: Globo, 1953, 112p.
:: Cartas a um jovem poeta. A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke (Briefe an einen jungen Dichter. Die Weise von Liebe und Tod des Cornet Christoph Rilke). Rainer Maria Rilke. [tradução Paulo Rónai e Cecília Meireles]. São Paulo: Globo, 2001 111p.
:: Cartas do poeta sobre a vida: a sabedoria de Rilke. (Coleção Prosa). São Paulo: Martins Fontes, 2007, 272p.
:: Cartas Natalinas à mãe (Weihnachtsbriefe an die Mutter). Rainer Maria Rilke. [tradução Maria Aparecida Barbosa]. Sao Paulo: Editora Globo, 2007, 118p.
:: Cartas sobre Cézanne (Briefe über Cézanne). Rainer Maria Rilke. [tradução Pedro Süssekind].  1ª ed., Rio de Janeiro: 7 Letras, 1996; 4ª ed., 2001; 5ª ed., 2006, 99p.
:: Coisas e anjos de Rilke. Rainer Maria Rilke. [organização e tradução Augusto de Campos].. (Coleção Signos 30). São Paulo: Perspectiva, 2007, 127p.;  2ª ed., revista e ampliada, São Paulo: Perspectiva, 2013, 368p.
:: Elegias de Duíno (Duineser Elegien). Rainer Maria Rilke. [tradução Dora Ferreira da Silva].  1ª ed., Porto Alegre: Editora Globo, 1972.
:: Elegias de Duíno (Duineser Elegien). Rainer Maria Rilke. [tradução Dora Ferreira da Silva]. 1ª ed., São Paulo: Globo, 1991; 2ª ed., 2001, 126p.
:: Elegias de Duíno. (Duineser Elegien). Rainer Maria Rilke. [tradução Paulo Plínio Abreu em colaboração com o antropólogo alemão Peter Paul Hilbert]. Belém/Pará: Jornal Folha do Norte, publicado entre os anos de 1946 e 1948.
:: Histórias do bom Deus (Geschichten vom lieben Gott). Rainer Maria Rilke. [tradução Pedro Süssekind].. (Coleção Rocinante nº 6). Rio de Janeiro: 7 Letras, 2003, 109p.
:: Jardins (Vergers). Rainer Maria Rilke. [tradução Fernando Santoro]. Rio de Janeiro: 7 Letras, 1995, 168p.
:: Livro de horas (Das Stundenbuch). Rainer Maria Rilke. [tradução Geir Campos].  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993; 2ª ed., 1994, 185p.
:: O amor de Madalena (L'amour de Madeleine). Rainer Maria Rilke. [tradução Renata Maria Parreira Cordeiro]. São Paulo: Landy, 2000, 100p.
:: O diário de Florença (Das Florenzer Tagebuch). Rainer Maria Rilke. [tradução Marion Fleischer]. São Paulo: Nova Alexandria, 2002, 143p.
:: Os cadernos de Malte Laurids Brigge (Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge).  Rainer Maria Rilke. [tradução e notas de Renato Zwick]. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2009, 208p.
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:: Os cadernos de Malte Laurids Brigge. (Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge). Rainer Maria Rilke.  [tradução Lya Luft]. São Paulo: Editora Mandarim, 1996, 165p.
:: Os sonetos a Orfeu (Die Sonette an Orpheus); Elegias de Duíno (Duineser Elegien). Rainer Maria Rilke. [tradução Karlos Rischbieter e Paulo Garfunkel]. Rio de Janeiro: Record, 2002, 191p.
:: Poemas  e Cartas a um jovem poeta (Gedichte e Briefe an einen jungen Dichter). Rainer Maria Rilke. [tradução Geir Campos e Fernando Jorge]. Rio de Janeiro: Ediouro, 1992, 145p.
:: Poemas (Gedichte). Rainer Maria Rilke. [tradução José Paulo Paes]. São Paulo: Companhia das Letras, 1993; 3ª ed., 2001, 183p.
:: Rilke: poesia-coisa. Rainer Maria Rilke. [tradução Augusto de Campos].. (Coleção Lazuli). Rio de Janeiro: Imago, 1994, 85p.
:: Rodin (Auguste Rodin). Rainer Maria Rilke. [tradução Daniela Caldas]. Rio de Janeiro: Relume Dumara, 1995, 149p.
:: Sonetos a Orfe;  Elegias de Duino (Die Sonette an Orpheus). Rainer Maria Rilke. [tradução Emmanuel Carneiro Leão]. Petrópolis: Vozes, 2000, 206p.
:: Vida de Maria: levo uma tempestade dentro de mim (Das Marienleben). Rainer Maria Rilke. [tradução Dora Ferreira da Silva]. Petrópolis: Vozes, 1995, 61p.


Rilke em Portugal
:: Poemas I. Rainer Maria Rilke. [seleção, prefácio e tradução Paulo Quintela]. Coimbra: Instituto Alemão da Univiversidade de Coimbra Editores, 2ª ed., 1967, 267p.
:: Poemas II - dispersos e inéditos de 1906 a 1926. Rainer Maria Rilke. [seleção, prefácio e tradução Paulo Quintela]. Coimbra: Instituto Alemão da Univiversidade de Coimbra Editores, 1967, 2ª ed., 1967, 301p.
:: Os cadernos de Malte Laurids Brigge (Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge). Rainer Maria Rilke. [tradução Paulo Quintela]. Lisboa: Editora O Oiro do Dia, 1983, 233p.
:: Poemas, As elegias de Duíno e Sonetos a OrfeuRainer Maria Rilke. [tradução Paulo Quintela]. Lisboa: Editora O Oiro do Dia, 1983, 445p.; Lisboa: Edições Asa, 2001.
:: Cartas a um Jovem Poeta. Rainer Maria Rilke. Lisboa: Contexto, 1986.
:: As elegias de Duíno. Rainer Maria Rilke[tradução Maria Teresa Dias Furtado]. Lisboa: Assírio & Alvim, 1993.
:: Os sonetos a Orfeu. Rainer Maria Rilke[tradução Vasco Graça Moura]. Lisboa: Quetzal Editores, 1994.
:: Frutos e apontamentos. Rainer Maria RilkeLisboa: Relógio D’Água Editores, 1996.
:: O livro das imagens. Rainer Maria Rilke[tradução de Maria João Costa Pereira]. Lisboa: Relógio D’Água, 2005, 296p.


“O destino gosta de inventar desenhos e figuras. A dificuldade dele reside no complicado. A vida mesma, porém, é difícil pela simplicidade. Tem apenas algumas coisas de um tamanho que nos não é adequado. O santo, rejeitando o destino, escolhe estas coisas, em face de Deus. Mas que a mulher, conforme à sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, é o que evoca a fatalidade de todas as relações de amor: resoluta e sem destino como uma eterna, ergue-se ela ao lado dele, dele que se transforma. Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. O dom de si mesma quer ser desmedido: é esta a sua ventura. A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: que se exija dela que limite este dom de si mesma.”
- Rainer Maria Rilker, em "Os cadernos de Malte Laurids Brigge".[tradução Paulo Quintela]. Lisboa: Editora O Oiro do Dia, 1983.


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POEMAS ESCOLHIDOS RILKE MARIA RAINER (BILÍNGUE: PORTUGUÊS - ALEMÃO)

Abisag

                          1.

Sobre. Servos, seus Braços, Meninice, 
Fizeram enlear no Corpo augusto, 
De Bruços. Horas mortas, que Velhice!, 
não podia reter o Medo e o Susto.

Virava, revirava, (Barba), o Rosto, 
a cada Pio de Mocho. E todo o Meio 
da noite distendia-se, disposto 
a vê-la, Medo, e a envolvê-la, Anseio.

Tremeram as Estrelas, suas iguais, 
um Sopro abriu, sagaz, o Cortinado, 
(e um Ar insinuou-se perfumado) 
atraindo os seus Olhos com Sinais.

Mas ela, ao Rei sombrio, fiel se prende 
e, salva da pior das Noites, calma, 
na Realeza fria a Pele estende, 
virginalmente leve como uma Alma.

                       2.

Soberano sem Gozo em Dia vazio, 
e sem Feitos, o Rei medita 
em sua cadelinha favorita. 
A Noite vem: arqueia-se no Frio 
o Corpo de Abisag. Da Vida os Leitos 
são Costas de má Fama, Orla maldita 
sob a mortal Constelação dos Peitos.

Mas, versado em Mulher e seus Desejos, 
julgava ver, às vezes, (Sobrancelhas), 
uma boca suspensa, Flor sem Beijos 
- e via: para as suas Lavras velhas 
não se inclinava a Haste amorosa, langue. 
Insone, via-se Mastim, Orelhas, 
Buscando-se nas So(m)bras do seu Sangue.
- Rainer Maria Rilke [tradução Décio Pignatari]. in: PIGNATARI, Décio. "Poesia Pois É Poesia 1950-2000".  Cotia, SP: Ateliê Editorial; Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004, p. 257.


Abisag

                        I

Sie lag. Und ihre Kinderarme waren
von Dienern um den Welkenden gebunden,
auf dem sie lag die süßen langen Stunden,
ein wenig bang vor seinen vielen Jahren.

Und manchmal wandte sie in seinem Barte
ihr Angesicht, wenn eine Eule schrie;
und alles, was die Nacht war, kam und scharte
mit Bangen und Verlangen sich um sie.

Die Sterne zitterten wie ihresgleichen,
der Duft ging suchend durch das Schlafgemach,
der Vorhang rührte sich und gab ein Zeichen,
und leise ging ihr Blick dem Zeichen nach - .

Aber sie hielt sich an dem dunkeln Alten,
und von der Nacht der Nächte nicht erreicht,
lag sie auf seinem fürstlichen Erkalten
jungfräulich und wie eine Seele leicht.

                        II

Der König saß und sann den leeren Tag
getaner Taten, ungefühlter Lüste
und seiner Lieblingshündin, der er pflag - ,
Aber am Abend wölbte Abisag
sich über ihm. Sein wirres Leben lag
verlassen wie verrufne Meeresküste
unter dem Sternbild ihrer stillen Brüste.

Und manchmal, als ein Kundiger der Frauen,
erkannte er durch seine Augenbrauen
den unbewegten, küsselosen Mund;
und sah: ihres Gefühles grüne Rute
neigte sich nicht herab zu seinem Grund.
Ihn fröstelte. Er horchte wie ein Hund
und suchte sich in seinem letzten Blute.
- Rainer Maria Rilke, Winter 1905/06, Meudon (Neue Gedichte, Abisag).



A canção do mendigo
Vou indo de porta em porta, 
ao sol e à chuva, não importa;
de repente descanso o meu ouvido 
direito em minha mão direita: 
minha voz me soa imperfeita, 
como se nunca a tivesse ouvido.

E já nem sei quem clama em meus ais, 
eu ou outra pessoa.
Eu clamo por qualquer coisa à toa. 
Os poetas clamam por mais.

Com os olhos eu fecho o meu rosto 
e minha mão lhe serve de encosto 
de modo que ele pareça
descansar. Para que não se esqueça 
que eu também tenho um posto 
para pousar a cabeça.
- Rainer Maria Rilke, em "O livro de imagens"(Paris, 12.6.1906)In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 70-71.



Das Lied des Bettlers
Ich gehe immer von Tor zu Tor,
verregnet und verbrannt;
auf einmal leg ich mein rechtes Ohr
in meine rechte Hand.
Dann kommt mir meine Stimme vor
als hätt ich sie nie gekannt.
Dann weiß ich nicht sicher wer da schreit,
ich oder irgendwer.
Ich schreie um eine Kleinigkeit.
Die Dichter schrein um mehr.
Und endlich mach ich noch mein Gesicht
mit beiden Augen zu;
wie's dann in der Hand liegt mit seinem Gewicht
sieht es fast aus wie Ruh.
Damit sie nicht meinen ich hätte nicht,
wohin ich mein Haupt tu.
- Rainer Maria Rilke, 'Das Buch der Bilder'" (1906). in "Die stimmen, neun blätter mit einem titelblatt".

A canção do cego
Sou cego – escutem – é uma maldição,
um contrassenso, uma contradição,
não é uma doença qualquer.
Eu ponho a mão no braço da mulher,
minha mão cinzenta no seu cinza gris,
e ela só me leva para onde eu não quis.
Vocês andam, volteiam e gostam de pensar
que fazem um som diferente em seu andar,
mas estão errados: eu sozinho
vivo e vozeio o vazio.
Trago comigo um grito sem fim
e não sei se é a alma ou são as entranhas
o que grita em mim.
Já cantaram esta canção? Ninguém o saberia,
ao menos não com este acento.
Para vocês uma luz nova todo dia
vem e aquece o claro aposento.
E de olhar a olhar passa aquela energia
que induz à indulgencia e ao alento.
- Rainer Maria Rilke, em "O livro de imagens". In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013.


Das lied des blinden
Ich bin blind, ihr draussen, das ist ein Fluch,
ein Widerwillen, ein Widerspruch,
etwas täglich Schweres.
Ich leg meine Hand auf den Arm der Frau,
meine graue Hand auf ihr graues Grau,
und sie fürht mich durch lauter Leeres.

Ihr rürht euch und rückt und bildet euch ein,
anders zu klingen als Stein auf Stein,
aber ihr irrt euch: ich allein
lebe und leide und lärme.
In mir ist ein endloses Schrein,
und ich weiss nicht, schreit mir mein
Herz oder meine Gedärme.

Erkennt ihr die lieder? Ihr sanget sie nicht,
nicht ganz in dieser Betonung.
Euch kommt jeden Morgen das neue Licht
warm in die offene Wohnung.
Und ihr habt ein Gefühl von Gesicht zu Gesicht,

und das verleitet zur Schonung.
- Rainer Maria Rilke, 'Das Buch der Bilder'" (1906). in  "Die stimmen, neun blätter mit einem titelblatt".  


A Gazela
[à Gazella Dorcas]

Rainer Maria Rilke - German Photographer
(20th Century)
Mágico ser: onde encontrar quem colha
duas palavras numa rima igual
a essa que pulsa em ti como um sinal?
De tua fronte se erguem lira e folha

e tudo o que és se move em similar
canto de amor cujas palavras, quais
pétalas, vão caindo sobre o olhar
de quem fechou os olhos, sem ler mais,

para te ver: no alerta dos sentidos,
em cada perna os saltos reprimidos
sem disparar, enquanto só a fronte

a prumo, prestes, pára: assim, na fonte,
a banhista que um frêmito assustasse:
a chispa de água no voltear da face.
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas I" (1907). In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 122-123.


Die Gazelle
[Gazella Dorcas]

Verzauberte: wie kann der Einklang zweier
erwählter Worte je den Reim erreichen,
der in dir kommt und geht, wie auf ein Zeichen.
Aus deiner Stirne steigen Laub und Leier,

und alles Deine geht schon im Vergleich
durch Liebeslieder, deren Worte, weich
wie Rosenblätter, dem, der nicht mehr liest,
sich auf die Augen legen, die er schließt:

um dich zu sehen: hingetragen, als
wäre mit Sprüngen jeder Lauf geladen
und schüsse nur nicht ab, solang der Hals

das Haupt ins Horchen hält: wie wenn beim Baden
im Wald die Badende sich unterbricht:
den Waldsee im gewendeten Gesicht.
- Rainer Maria Rilke, (17.7.1907, Paris). in "Neue gedichte - I" (1907).


A montanha 

Trinta e seis vezes e mais outras cem
o pintor escreveu essa montanha,
devotado, sem êxito, à façanha
(trinta e seis vezes e mais outras cem)

de entender o vulcão que ele trazia,
feliz, mesmerizado, no seu peito,
mas a montanha de perfil perfeito
não lhe quis revelar sua magia:

doando-se do ar de cada dia,
mil vezes, cada noite cintilante
abandonando, como sem valia;
cada imagem imersa num instante,
em cada forma a forma transformada,
indiferente, distante, modesta —,
sabendo, como uma visão, do nada,
acontecer atrás de cada fresta. 
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas II" (1908)In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 296-297.



Der Berg
Sechsunddreißig Mal und hundert Mal 
hat der Maler jenen Berg geschrieben, 
weggerissen, wieder hingetrieben 
(sechsunddreißig Mal und hundert Mal) 

zu dem unbegreiflichen Vulkane, 
selig, voll Versuchung, ohne Rat, - 
während der mit Umriss Angetane 
seiner Herrlichkeit nicht Einhalt tat: 

tausendmal aus allen Tagen tauchend, 
Nächte ohne gleichen von sich ab 
fallen lassend, alle wie zu knapp; 
jedes Bild im Augenblick verbrauchend, 
von Gestalt gesteigert zu Gestalt, 
teilnahmslos und weit und ohne Meinung -, 
um auf einmal wissend, wie Erscheinung, 
sich zu heben hinter jedem Spalt.
- Rainer Maria Rilke, (Juli 1906 und 31.7.1907, Paris)in "Neue gedichte - II" (1908).



A morte do Poeta
Jazia. A sua face, antes intensa,
pálida negação no leito frio,
desde que o mundo, e tudo o que é presença,
dos seus sentidos já vazio,
se recolheu à Era da Indiferença.

Ninguém jamais podia ter suposto 
que ele e tudo estivessem conjugados
e que tudo, essas sombras, esses prados, 
essa água mesma eram o seu rosto.

Sim, seu rosto era tudo o que quisesse 
e que ainda agora o cerca e o procura; 
a máscara da vida que perece
é mole e aberta como a carnadura
de um fruto que no ar, lento, apodrece.
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas I" (1907)In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2007, p. 44-45.



Der tod des Dichters
Er lag. Sein aufgestelltes Antlitz war
bleich und verweigernd in den steilen Kissen, 
seitdem die Welt und dieses von ihr Wissen, 
von seinen Sinnen abgerissen,
zurückfiel an das teilnahmslose Jahr.

Die, so ihn leben sahen, wußten nicht, 
wie sehr er eines war mit allem diesen, 
denn Dieses: diese Tiefen, diese Wiesen 
und diese Wasser waren sein Gesicht.

O sein Gesicht war diese ganze Weite,
die jezt noch zu ihm will und um ihn wirbt; 
und seine Maske, die nun bang verstirbt,
ist zart und offen wie die Innenseite
von einer Frucht, die an des Luft verdirbt.
- Rainer Maria Rilke, in "Neue gedichte - I" (1907).


A Pantera
(No Jardin des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas I" (1907). In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 120-121.


Der Panther 
[Im Jardin des Plantes, Paris]

Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden,dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein grosser Wille steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille -
und hört im Herzen auf zu sein.
- Rainer Maria Rilke, in "Neue gedichte - I" (1907).


Amo as horas noturnas

Amo as horas noturnas do meu ser em
que se me aprofundam os sentidos;
nelas fui eu achar, como em cartas velhíssimas,
já vivida a vida dos meus dias
e como lenda longínqua e superada.

Delas eu aprendi que tenho espaço
para uma segunda vida, vasta e sem tempo.

E por vezes me sinto como a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
realiza o sonho que o menino foi
(em volta do qual apertam suas raízes quentes)
e perdeu em tristezas e canções.
- Rainer Maria Rilke, em "Poemas, As elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu". [tradução Paulo Quintela]. Lisboa: Edições Asa, 2001. 


Ich liebe meines Wesens Dunkelstunden
Ich liebe meines Wesens Dunkelstunden,
in welchen meine Sinne sich vertiefen;
in ihnen hab ich, wie in alten Briefen,
mein täglich Leben schon gelebt gefunden
und wie Legende weit und überwunden.

Aus ihnen kommt mir Wissen, daß ich Raum
zu einem zweiten zeitlos breiten Leben habe.

Und manchmal bin ich wie der Baum,
der, reif und rauschend, über einem Grabe
den Traum erfüllt, den der vergangne Knabe
(um den sich seine warmen Wurzeln drängen)
verlor in Traurigkeiten und Gesängen. 
- Rainer Maria Rilke, stretch "Das Buch vom Mönchischen Leben" (1899). in "Das Stunden-Buch". 


Dançarina espanhola 
Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.

E logo ela é só flama, inteiramente.

Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.

Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,

pisa-o com seu pequeno pé preciso.
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas I" (1907)In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 158-159.


Spanische Tänzerin
Wie in der Hand ein Schwefelzündholz, weiß,
eh es zur Flamme kommt, nach allen Seiten
zuckende Zungen streckt -: beginnt im Kreis
naher Beschauer hastig, hell und heiß
ihr runder Tanz sich zuckend auszubreiten.

Und plötzlich ist er Flamme, ganz und gar.

Mit einem Blick entzündet sie ihr Haar
und dreht auf einmal mit gewagter Kunst
ihr ganzes Kleid in diese Feuersbrunst,
aus welcher sich, wie Schlangen die erschrecken,
die nackten Arme wach und klappernd strecken.

Und dann: als würde ihr das Feuer knapp,
nimmt sie es ganz zusamm und wirft es ab
sehr herrisch, mit hochmütiger Gebärde
und schaut: da liegt es rasend auf der Erde
und flammt noch immer und ergiebt sich nicht -.
Doch sieghaft, sicher und mit einem süßen
grüßenden Lächeln hebt sie ihr Gesicht
und stampft es aus mit kleinen Füßen.
- Rainer Maria Rilke, (Juni 1906, Paris). in "Neue gedichte - I" (1907).


Exercícios ao piano
O calor cola. A tarde arde e arqueja.
Ela arfa, sem querer, nas leves vestes
e num é tudo enérgico despeja
a impaciência por algo que está prestes

a acontecer: hoje, amanhã, quem sabe
agora mesmo, oculto, do seu lado;
da janela, onde um mundo inteiro cabe,
ela percebe o parque arrebicado.

Desiste, enfim, o olhar distante; cruza
as mãos; desejaria um livro; sente
o aroma dos jasmins, mas o recusa
num gesto brusco. Acha que á faz doente.
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas II" (1908). In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 276-277.


Übung am Klavier
Der Sommer summt. Der Nachmittag macht müde; 
sie atmete verwirrt ihr frisches Kleid 
und legte in die triftige Etüde 
die Ungeduld nach einer Wirklichkeit, 

die kommen konnte: morgen, heute abend -, 
die vielleicht da war, die man nur verbarg; 
und vor den Fenstern, hoch und alles habend, 
empfand sie plötzlich den verwöhnten Park. 

Da brach sie ab; schaute hinaus, verschränkte 
die Hände; wünschte sich ein langes Buch - 
und schob auf einmal den Jasmingeruch 
erzürnt zurück. Sie fand, dass er sie kränkte. 
- Rainer Maria Rilke, (Herbst 1907, Paris, oder Frühjahr 1908, Capri). in "Neue gedichte - II" (1908).



Fonte romana
(Vila Borghese)

Duas velhas bacias sobrepondo
suas bordas de mármore redondo.
Do alto a água fluindo, devagar,
sobre a água, mais em baixo, a esperar,

muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,
como que só no côncavo da mão,
entremostrando um singular objeto:
o céu, atrás da verde escuridão;

ela mesma a escorrer na bela pia,
em círculos e círculos, constante-
mente, impassível e sem nostalgia,

descendo pelo musgo circundante
ao espelho da última bacia
que faz sorrir, fechando a travessia.
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas I" (1907)In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 156-157.


Römische Fontäne 
(Villa Borghese)

Zwei Becken, eins das andere übersteigend
aus einem alten runden Marmorrand,
und aus dem oberen Wasser leis sich neigend
zum Wasser, welches unten wartend stand,

dem leise redenden entgegenschweigend
und heimlich, gleichsam in der hohlen Hand,
ihm Himmel hinter Grün und Dunkel zeigend
wie einen unbekannten Gegenstand;

sich selber ruhig in der schönen Schale
verbreitend ohne Heimweh, Kreis aus Kreis,
nur manchmal träumerisch und tropfenweis

sich niederlassend an den Moosbehängen
zum letzten Spiegel, der sein Becken leis
von unten lächeln macht mit Übergängen.
- Rainer Maria Rilke, in "Neue gedichte - I" (1907).



Hora grave
Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.
- Rainer Maria Rilke, em "O livro de imagens" (1902). [tradução Paulo Plínio Abreu em colaboração com o antropólogo alemão Peter Paul Hilbert]. Belém/Pará: Jornal Folha do Norte.


Ernste stunde
Wer jetzt weint irgendwo in der Welt, 
ohne Grund weint in der Welt, 
weint über mich. 

Wer jetzt lacht irgendwo in der Nacht, 
ohne Grund lacht in der Nacht, 
lacht mich aus. 

Wer jetzt geht irgendwo in der Welt, 
ohne Grund geht in der Welt, 
geht zu mir. 

Wer jetzt stirbt irgendwo in der Welt, 
ohne Grund stirbt in der Welt: 
sieht mich an.
- Rainer Maria Rilke, in "Das Buch der Bilder" (1902).


Hortênsia Azul
Como um último verde em um pote de tinta
As folhas têm um tom áspero, seco , velho,
Sob umbelas em flor que um azul pinta
Do falso azul, que é o seu remoto espelho.

Tosco espelho sem luz, choroso e baço
Como que prestes a perder o tom postiço,
Como antigo papel de carta já sem viço,
Onde o amarelo, o roxo e o cinza deixam traço;

Desbotado como o avental de uma criança
Que não foi mais usado e agora só descansa:
Como uma vida breve que se extingue.

Mas de repente o azul quer como que viver de
Novo em alguma umbela e se distingue
Um comovente azul sorrir de verde.
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas I" (1907)In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013.


Blaue Hortensie
So wie das letzte Grün in Farbentiegeln
sind diese Blätter, trocken, stumpf und rauh,
hinter den Blütendolden, die ein Blau
nicht auf sich tragen, nur von ferne spiegeln. 

Sie spiegeln es verweint und ungenau,
als wollten sie es wiederum verlieren,
und wie in alten blauen Briefpapieren
ist Gelb in ihnen, Violett und Grau; 

Verwaschenes wie an einer Kinderschürze,
Nichtmehrgetragenes, dem nichts mehr geschieht:
wie fühlt man eines kleinen Lebens Kürze. 

Doch plötzlich scheint das Blau sich zu verneuen
in einer von den Dolden, und man sieht
ein rührend Blaues sich vor Grünem freuen.
- Rainer Maria Rilke, in "Neue gedichte - I" (1907).


Morgue
Rainer Maria Rilke - foto: (...)
Estão prontos, ali, como a esperar
que um gesto só, ainda que tardio,
possa reconciliar com tanto frio
os corpos e um ao outro harmonizar;

como se algo faltasse para o fim.
Que nome no seu bolso já vazio
há por achar? Alguém procura, enfim,
enxugar dos seus lábios o fastio:

em vão; eles só ficam mais polidos.
A barba está mais dura, todavia
ficou mais limpa ao toque do vigia,

para não repugnar o circunstante.
Os olhos, sob a pálpebra, invertidos,
olham só para dentro, doravante.
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas I" (1907). In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 114-115.



Morgue
Da liegen sie bereit, als ob es gälte, 
nachträglich eine Handlung zu erfinden, 
die mit einander und mit dieser Kälte 
sie zu versühnen weiß und zu verbinden;

denn das ist alles noch wie ohne Schluß. 
Wasfür ein Name hätte in den Taschen 
sich finden sollen? An dem Überdruß 
um ihren Mund hat man herumgewaschen:

er ging nicht ab; er wurde nur ganz rein. 
Die Bärte stehen, noch ein wenig härter, 
doch ordentlicher im Geschmack der Wärter,

nur um die Gaffenden nicht anzuwidern. 
Die Augen haben hinter ihren Lidern 
sich umgewandt und schauen jetzt hinein.
- Rainer Maria Rilke, in "Neue gedichte - I" (1907).


O cego
Ele caminha e interrompe a cidade,
que não existe em sua cela escura,
como uma escura rachadura
numa taça atravessa a claridade.

Sombras das coisas, como numa folha,
nele se riscam sem que ele as acolha:
só sensações de tato, como sondas,
captam o mundo em diminutas ondas:

serenidade; resistência -
como se à espera de escolher alguém, atento,
ele soergue, quase em reverência,
a mão, como num casamento.
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas II" (1908)In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2007.


Der blinde
Sieh, er geht und unterbricht die Stadt, 
die nicht ist auf seiner dunkeln Stelle, 
wie ein dunkler Sprung durch eine helle 
Tasse geht. Und wie auf einem Blatt 

ist auf ihm der Widerschein der Dinge 
aufgemalt; er nimmt ihn nicht hinein. 
Nur sein Fühlen rührt sich, so als finge 
es die Welt in kleinen Wellen ein 

eine Stille, einen Widerstand -, 
und dann scheint er wartend wen zu wählen: 
hingegeben hebt er seine Hand, 
festlich fast, wie um sich zu vermählen. 
- Rainer Maria Rilke, in "Neue gedichte - II" (1908).


Lamento de uma jovem 
A inclinação que nos vem do passado, 
quando crianças, sempre tão constante, 
de sermos sós, era algo delicado; 
para os demais era luta cada instante, 
e cada qual tinha o seu lado, 
o seu perto, o seu distante, 
um chão, um cão, um quadro. 

E eu ainda achava que a vida 
nunca cessaria de doar, 
e que é em nós mesmos nosso lar. 
Não sou em mim a minha preferida? 
O que é meu não há mais de ter confiança 
e me entender como quando era criança? 

Súbito, estou como entre alheios, 
e em algo que me ultrapassa 
a solidão se muda em mim, 
quando, do alto dos meus seios, 
meus sentimentos clamam por asas 
ou por um fim. 
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas I". In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 94-95.


Mädchen-Klage
Diese Neigung, in den Jahren, 
da wir alle Kinder waren, 
viel allein zu sein, war mild; 
andern ging die Zeit im Streite, 
und man hatte seine Seite, 
seine Nähe, seine Weite, 
einen Weg, ein Tier, ein Bild. 

Und ich dachte noch, das Leben 
hörte niemals auf zu geben, 
dass man sich in sich besinnt. 
Bin ich in mir nicht im Größten? 
Will mich Meines nicht mehr trösten 
und verstehen wie als Kind? 

Plötzlich bin ich wie verstoßen, 
und zu einem Übergroßen 
wird mir diese Einsamkeit, 
wenn, auf meiner Brüste Hügeln 
stehend, mein Gefühl nach Flügeln 
oder einem Ende schreit. 
- Rainer Maria Rilke (1906), in  "Neue gedichte - I" (1907)


O encantador de serpentes 
Quando na praça, ondeando, o encantador 
toca a flauta que embala e entorpece, 
às vezes ele atinge ao seu redor 
alguém, em meio à turba, e o adormece, 

e o faz entrar no círculo da flauta, 
que quer e quer e quer e vai e volta, 
até que emerja a cabeça alta 
do réptil, que do seu cesto se solta, 

alternando tontura e lassidão, 
o que expande e tensiona e o que represa —; 
basta um olhar daquele indiano, então, 
para infundir no outro uma estranheza 

que te mata. Como se de repente 
o céu caísse. De súbito estrias 
racham-te o rosto. Há especiarias 
na memória boreal e a tua mente 

de nada serve. Inútil, a magia. 
O sol fermenta, vêm febres ferventes, 
os raios têm maléfica alegria 
e o veneno cintila nas serpentes. 
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas II" (1908). In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 246-247.


Schlangen-Beschwörung
Wenn auf dem Markt, sich wiegend, der Beschwörer 
die Kürbisflöte pfeift, die reizt und lullt, 
so kann es sein, da er sich einen Hörer 
herüberlockt, der ganz aus dem Tumult 

der Buden eintritt in den Kreis der Pfeife, 
die will und will und will und die erreicht, 
dass das Reptil in seinem Korb sich steife 
und die das steife schmeichlerisch erweicht, 

abwechselnd immer schwindelnder und blinder 
mit dem, was schreckt und streckt, und dem, was löst -; 
und dann genügt ein Blick: so hat der Inder 
dir eine Fremde eingeflößt, 

in der du stirbst. Es ist als überstürze 
glühender Himmel dich. Es geht ein Sprung 
durch dein Gesicht. Es legen sich Gewürze 
auf deine nordische Erinnerung, 

die dir nichts hilft. Dich feien keine Kräfte, 
die Sonne gärt, das Fieber fällt und trifft; 
von böser Freude steilen sich die Schäfte, 
und in den Schlangen glänzt das Gift. 
- Rainer Maria Rilke, im "Neue gedichte - II" (1908).



O homem que contempla
Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anônimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.
- Rainer Maria Rilke, em "O Livro das Imagens", (1902).. [tradução Maria João Costa Pereira]. Lisboa: Relógio D’Água, 2005. 


Der Schauende
Ich sehe den Bäumen die Stürme an,
die aus laugewordenen Tagen
an meine ängstlichen Fenster schlagen,
und höre die Fernen Dinge sagen,
die ich nicht ohne Freund ertragen,
nicht ohne Schwester lieben kann.

Da geht der Sturm, ein Umgestalter,
geht durch den Wald und durch die Zeit,
und alles ist wie ohne Alter:
Die Landschaft, wie ein Vers im Psalter,
ist Ernst und Wucht und Ewigkeit.

Wie ist das klein, womit wir ringen,
was mit uns ringt, wie ist das groß;
ließen wir, ähnlicher den Dingen,
uns so vom großen Sturm bezwingen, -
wir würden weit und namenlos.

Was wir besiegen, ist das Kleine,
und der Erfolg selbst macht uns klein.
Das Ewige und Ungemeine
will nicht von uns gebogen sein.
Das ist der Engel, der den Ringern
des Alten Testaments erschien:
Wenn seiner Widersacher Sehnen
im Kampfe sich metallen dehnen,
fühlt er sie unter seinen Fingern
wie Saiten tiefer Melodien.

Wen dieser Engel überwand,
welcher so oft auf Kampf verzichtet,
der geht gerecht und aufgerichtet
und groß aus jener harten Hand,
die sich, wie formend, an ihn schmiegte.
Die Siege laden ihn nicht ein.
Sein Wachstum ist: Der Tiefbesiegte
von immer Größerem zu sein. 
- Rainer Maria Rilke, in "Das Buch der Bilder" (1902).


O homem que lê
Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.

E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.
- Rainer Maria Rilke, em "O Livro das Imagens", (1902).. [tradução Maria João Costa Pereira]. Lisboa: Relógio D’Água, 2005. 


Der Lesende
Ich las schon lang. Seit dieser Nachmittag,
mit Regen rauschend, an den Fenstern lag.
Vom Winde draußen hörte ich nichts mehr:
mein Buch war schwer.
Ich sah ihm in die Blätter wie in Mienen,
die dunkel werden von Nachdenklichkeit,
und um mein Lesen staute sich die Zeit. -
Auf einmal sind die Seiten überschienen,
und statt der bangen Wortverworrenheit
steht: Abend, Abend ... überall auf ihnen;
ich schau noch nicht hinaus, und doch zerreißen
die langen Zeilen, und die Worte rollen
von ihren Fäden fort, wohin sie wollen ...
Da weiß ich es: über den übervollen
glänzenden Gärten sind die Himmel weit;
die Sonne hat noch einmal kommen sollen. -
Und jetzt wird Sommernacht, soweit man sieht:
Zu wenig Gruppen stellt sich das Verstreute,
dunkel auf langen Wegen gehn die Leute,
und seltsam weit, als ob es mehr bedeute,
hört man das Wenige, das noch geschieht.

Und wenn ich jetzt vom Buch die Augen hebe,
wird nichts befremdlich sein und alles groß.
Dort draußen ist, was ich hier drinnen lebe,
und hier und dort ist alles grenzenlos;
nur daß ich mich noch mehr damit verwebe,
wenn meine Blicke an die Dinge passen
und an die ernste Einfachheit der Massen, -
da wächst die Erde über sich hinaus.
Den ganzen Himmel scheint sie zu umfassen:
der erste Stern ist wie das letzte Haus.  
- Rainer Maria Rilke, in "Das Buch der Bilder" (1902).



O leitor
Quem pode conhecer esse que o rosto
mergulha de si mesmo em outras vidas,
que só o folhear das páginas corridas
alguma vez atalha a contragosto?

A própria mãe já não veria o seu
filho nesse diverso ele que agora,
servo da sombra, lê. Presos à hora,
como sabermos quanto se perdeu

antes que ele soerga o olhar pesado
de tudo o que no livro se contém,
com olhos, que, doando, contravêm
o mundo já completo e acabado:
como crianças que brincam sozinhas
e súbito descobrem algo a esmo;
mas o rosto, refeito em suas linhas,
nunca mais será o mesmo.
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas II" (1908)In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 294-295.


Der leser
Wer kennt ihn, diesen, welcher sein Gesicht 
wegsenkte aus dem Sein zu einem zweiten, 
das nur das schnelle Wenden voller Seiten 
manchmal gewaltsam unterbricht? 

Selbst seine Mutter wäre nicht gewiss, 
ob er es ist, der da mit seinem Schatten 
Getränktes liest. Und wir, die Stunden hatten, 
was wissen wir, wieviel ihm hinschwand, bis 

er mühsam aufsah: alles auf sich hebend, 
was unten in dem Buche sich verhielt, 
mit Augen, welche, statt zu nehmen, gebend 
anstießen an die fertig-volle Welt: 
wie stille Kinder, die allein gespielt, 
auf einmal das Vorhandene erfahren; 
doch seine Züge, die geordnet waren, 

blieben für immer umgestellt.
- Rainer Maria Rilke, im "Neue gedichte - II" (1908).



O mundo estava no Rosto
O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.
- Rainer Maria Rilke, em "Quatro Poemas Esparsos" (1908). In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2007. 


Welt war in dem Antlitz
Welt war in dem Antlitz der Geliebten —,
aber plötzlich ist sie ausgegossen:
Welt ist draußen, Welt ist nicht zu fassen.

Warum trank ich nicht, da ich es aufhob,
aus dem vollen, dem geliebten Antlitz
Welt, die nah war, duftend meinem Munde ?

Ach, ich trank. Wie trank ich unerschöpflich.
Doch auch ich war angefüllt mit zu viel

Welt, und trinkend ging ich selber über.
- Rainer Maria Rilke


O poeta 
Já te despedes de mim, Hora.
Rainer Maria Rilke (1919) - foto: (...)
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?

Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas I" (1907). In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 130-131.


Der dichter
Du entfernst dich von mir, du Stunde.
Wunden schlägt mir dein Flügelschlag.
Allein: was soll ich mit meinem Munde?
mit meiner Nacht? mit meinem Tag?

Ich habe keine Geliebte, kein Haus,
keine Stelle auf der ich lebe
Alle Dinge, an die ich mich gebe,
werden reich und geben mich aus. 
- Rainer Maria Rilke, im "Neue Gedichte I" (1907).



Orfeu. Eurídice. Hermes
Eram as minas ásperas das almas.
Como veios de prata caminhavam
silentes pela treva. Das raízes
brotava o sangue que parece aos vivos,
na treva, duro como pórfiro. Depois
nada mais foi vermelho.

Somente rochas,
bosques imateriais. Pontes sobre o vazio
e o lago imenso, cinza, cego,
que sobre o fundo jaz, distante, como
um céu de chuva sobre uma paisagem.
Por entre os prados, suave, em plena calma,
deitado, como longa veia branca,
via-se o risco pálido da estrada.

Desta única via vinham eles.

À frente o homem com o manto azul,
esguio, olhar em alvo, mudo, inquieto.
Sem mastigar, seu passo devorava a estrada
em grandes tragos; suas mãos pendiam
rígidas, graves, das dobras das vestes
e não sabiam mais da leve lira
que brotava da ilharga como um feixe
de rosas dentre ramos de oliveira.
seus sentidos estavam em discórdia:
o olhar corria adiante como um cão,
voltava presto, e logo andava longe,
parando, alerta, na primeira curva,
mas o ouvido estacava como um faro.
Às vezes parecia-lhe sentir
a lenta caminhada dos dois outros
que o acompanhavam pela mesma senda.

Mas só restava o eco dos seus passos
a subir e do vento no seu manto.
A si mesmo dizia que eles vinham.
Gritava, ouvindo a voz esmorecer.

Eles vinham, os dois, vinham atrás,
em tardo caminhar. Se ele pudesse
voltar-se uma só vez (se contemplá-los
não fosse o fim de todo o empreendimento
nunca antes intentado) então veria
as duas sombras a seguir, silentes:
o deus das longas rotas e mensagens,
o capacete sobre os olhos claros,
o fino caduceu diante do corpo,
um palpitar de asas junto aos pés
e, confiada à mão esquerda: ela.

A mais amada, essa por quem a lira
chorou mais que o chorar das carpideiras,
por quem se ergueu um mundo de chorar,
um mundo com florestas e com vales,
estradas, povos, campos, rios, feras;
um mundo-pranto tendo como o outro
um sol e um céu calado com seus astros,
um céu-pranto de estrelas desconformes -
a mais amada.

Ia guiada pela mão do deus,
o andar tolhido pelas longas vestes,
incerto, tímido, sem pressa .
Ia dentro de si, como esperança,
e não pensava no homem que ia à frente,
nem no caminho que subia aos vivos.
Ia dentro de si. E o dom da morte
dava-lhe plenitude.
Como um fruto em doçura e escuridão,
estava plena em sua grande morte,
tão nova que não tinha entendimento.

Entrar em uma nova adolescência
inviolada. Seu sexo se fechava
como flor em botão ao entardecer
e suas mãos estavam tão distantes
de enlaçar outro ser que mesmo o toque
levíssimo do guia, o deus ligeiro,
a magoava por nímia intimidade.

Não era mais a jovem resplendente
que ecoava nos cantos do poeta,
nem o aroma do leito do casal
nem ilha e propriedade de um só homem.

Estava solta como os seus cabelos,
liberta como a chuva quando cai,
exposta como farta provisão.

Agora era raiz.

E quando enfim o deus
a deteve e, com voz cheia de dor,
disse as palavras: “Ele se voltou.” –
ela não compreendeu e disse: “Quem?”

Mas pouco além, sombrio, frente à clara
saída, se postava alguém, o rosto 
já não reconhecível. Esse viu
em meio ao risco branco do caminho

o deus das rotas, com olhar tristonho,
volver-se, mudo, e acompanhar o vulto
que retornava pela mesma via,
o andar tolhido pelas longas vestes,
incerto, tímido, sem pressa.
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas I" (1907)In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013.


Orpheus. Eurydike. Hermes
Das war der Seelen wunderliches Bergwerk. 
Wie stille Silbererze gingen sie 
als Adern durch sein Dunkel. Zwischen Wurzeln 
entsprang das Blut, das fortgeht zu den Menschen, 
und schwer wie Porphyr sah es aus im Dunkel. 
Sonst war nichts Rotes. 

Felsen waren da 
und wesenlose Wälder. Brücken über Leeres 
und yener grosse graue blinde Teich, 
der über seinem fernem Grunde hing 
wie Regenhimmel über einer Landschaft. 
Und zwischen Wiesen, sanft und voller Langmut, 
erschien des einen Weges blasser Streifen, 
wie eine lange Bleiche hingelegt. 

Und dieses einen Weges kamen sie. 

Voran der schlanke Mann im blauen Mantel, 
der stumm und ungedulgig vor sich aussah. 
Ohne zu kauen frass sein Schritt den Weg 
in grossen Bissen.; seine Hände hingen 
schwer und verschlossen aus dem Fall der Falten 
und wussten nich mehr von der leichten Leier, 
die in die Linke eingewachsen war 
wie Rosenranken in den Ast des ölbaums. 
Und seine Sinne waren wie entzweit: 
indes der Blick ihm wie ein Hund vorauslief, 
umkehrte, kam und immer wieder weit 
und wartend an der nächsten Wendung stand, — 
blieb sein Gehör wie ein Geruch zurück. 
Manchmal erschien es ihm als reichte es 
bis an das Gehen jener beiden andern, 
die folgen sollten diesen ganzen Aufstieg. 

Dann wieder wars nur seins Steigens Nachklang 
und seines Mantels Wind was hinter ihm war. 
Er aber sagte sich, sie kämen doch.; 
sagte es laut und hörte sich verhallen. 

Sie kämen doch, nur wärens zwei 
die furchtbar leise gingen. Dürfte er 
sich einmal wenden (wäre das Zurückschaun 
nicht die Zersetzung dieses ganzen Werkes, 
das erst vollbracht wird), müsste er sie sehen, 
die beiden Leisen, die ihm schweigend nachgehn: 
Den Gott des Ganges und der weiten Botschaft, 
die Reisehaube über hellen Augen, 
den schlanken Stab hertragend vor dem Leibe 
und flügelschlagend an den Fussgelenken.; 
und seiner linken Hand gegeben: sie 

Die So-geliebt, dass aus einer Leier 
mehr Klage kam als je aus Klagefrauen.; 
dass eine Welt aus Klage ward, in der 
alles noch einmal da war: Wald und Tal 
und Weg und Ortschaft, Feld und Fluss und Tier.; 
und dass um diese Klage-Welt, ganz so 
wie um die andre Erde, eine Sonne 
und ein gestirnter stiller Himmel ging, 
ein Klage-Himmel mit entstellten Sternen — 
Diese So-geliebt. 

Sie aber ging an jenes Gottes Hand, 
den Schritt beschränkt von langen Leichenbändern, 
unsicher, sanft und ohne Ungeduld. 
Sie war in sich, wie Eine hoher Hoffnung, 
und dachte nicht des Mannes, der voranging, 
und nicht des Weges, der ins Legen aufstieg. 
Sie war in sich. Und ihr Gestorbensein 
erfüllte sie wie Fülle. 
Wie eine Frucht von Süssigkeit und Dunkel, 
so war sie voll von ihrem grossen Tode, 
der also neu war, dass sie nichts begriff. 

Sie war in einem neuen Mädchentum 
und unberührbar.; ihr Geschlecht war zu 
wie eine junge Blume gegen Abend, 
und ihre Hände waren der Vermählung 
so sehr entwöhnt, dasss selbst des leichten Gottes 
unendlich leise, leitende Berührung 
sie kränkte wie zu sehr Vertraulichkeit. 

Sie war schon nicht mehr diese blonde Frau, 
die in des Dichters Liedern manchmal anklang, 
nicht mehr des breiten Bettes Duft und Eiland 
und jenes Mannes Eigentum nicht mehr. 

Sie war schon aufgelöst wie langes Haar 
und hingegeben wie gefallner Regen 
und ausgeteilt wie hundertfacher Vorrat. 

Sie war schon Wurzel. 

Und als plötzlich jäh 
der Gott sie anhielt und mit Schmerz im Ausruf 
die Worte sprach: Er hat sich umgewendet —, 
begriff sie nichts und sagte leise: Wer? 

Fern aber, dunkel vor dem klaren Ausgang, 
stand irgend jemand, dessen Angesicht 
nicht zu erkennen war. Er stand und sah, 
wie auf dem Streifen eines Wiesenpfades 

mit trauervollem Blick der Gott der Botschaft 
sich schweigend wandte, der Gestalt zu folgen, 
die schon zurückging dieses selben Weges, 
den Schritt beschränkt von langen Leichenbändern, 
unsicher, sanft und ohne Ungeduld.
- Rainer Maria Rilke, im "Neue Gedichte I" (1907).


Os cântaros
Ó boca de fonte, doadora, ó boca
que inexaurível dizes uma só coisa, pura, -
tu, máscara de mármore ante a face
fluida da água. E no plano de fundo

a origem dos aquedutos. De longe, passando
junto aos túmulos, da vertente do Apenino
trazem-te a tua fala, que então
pelo negro envelhecer do queixo

passa e cai na concha em tua frente.
Esta é a orelha jacente e adormecida,
a orelha de mármore pra que falas sempre.

Uma orelha da Terra. Apenas pra si só
ela fala assim. Interpõe-se um cântaro,
parece-lhe que estás a interrompê-la.
- Rainer Maria Rilke, em "Sonetos a Orfeu" (1923).. in: RILKE, Rainer Maria. Poemas, As elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu. [tradução Paulo Quintela]. Lisboa: Editora O Oiro do Dia, 1983. 


XV - O Brunnen-Mund, du gebender, du Mund
O Brunnen-Mund, du gebender, du Mund,
der unerschöpflich Eines, Reines, spricht, -
du, vor des Wassers fließendem Gesicht,
marmorne Maske. Und im Hintergrund

der Aquädukte Herkunft. Weither an
Gräbern vorbei, vom Hang des Apennins
tragen sie dir dein Sagen zu, das dann
am schwarzen Altern deines Kinns

vorüberfällt in das Gefäß davor.
Dies ist das schlafend hingelegte Ohr,
das Marmorohr, in das du immer sprichst.

Ein Ohr der Erde. Nur mit sich allein
redet sie also. Schiebt ein Krug sich ein,
so scheint es ihr, daß du sie unterbrichst.
- Rainer Maria Rilke , in "Die Sonette an Orpheus" (Zweitert Teil). 1. Auflage 1923.


O solitário
Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.

Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,

ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas II"  (1907). In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 292-293.



Der Einsame
Wie einer, der auf fremden Meeren fuhr, 
so bin ich bei den ewig Einheimischen; 
die vollen Tage stehn auf ihren Tischen, 
mir aber ist die Ferne voll Figur. 

In mein Gesicht reicht eine Welt herein, 
die vielleicht unbewohnt ist wie ein Mond, 
sie aber lassen kein Gefühl allein, 
und alle ihre Worte sind bewohnt. 

Die Dinge, die ich weither mit mir nahm, 
sehn selten aus, gehalten an das Ihre -: 
in ihrer großen Heimat sind sie Tiere, 
hier halten sie den Atem an vor Scham. 
- Rainer Maria Rilke (Paris, Mitte August 1907).


Para recitar antes de adormecer
Eu queria cantar para dentro de alguém,
sentar-me junto de alguém e estar aí.
Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente
e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres.
Queria ser o único na casa
a saber: a noite estava fria.
E queria escutar dentro e fora
de ti, do mundo, da floresta.
Os relógios chamam-se anunciando as horas
e vê-se o fundo o tempo.
E em baixo ainda passa um estranho
e acirra um cão desconhecido.
Depois regressa o silêncio. Os meus olhos,
muito abertos, pousaram em ti;
e prendem-te docemente e libertam-te
quando algo se move na escuridão.
- Rainer Maria Rilke, em "O livro das imagens" (1902).[tradução de Maria João Costa Pereira]. Lisboa: Relógio D’Água, 2005. 



Zum Einschlafen zu sagen
Ich möchte jemanden einsingen, 
bei jemandem sitzen und sein. 
Ich möchte dich wiegen und kleinsingen 
und begleiten schlafaus und schlafein. 
Ich möchte der Einzige sein im Haus, 
der wüßte: die Nacht war kalt. 
Und möchte horchen herein und hinaus 
in dich, in die Welt, in den Wald. 
Die Uhren rufen sich schlagend an, 
und man sieht der Zeit auf den Grund. 
Und unten geht noch ein fremder Mann 
und stört einen fremden Hund. 
Dahinter wird Stille. Ich habe groß 
die Augen auf dich gelegt; 
und sie halten dich sanft und lassen dich los, 
wenn ein Ding sich im Dunkel bewegt.
- Rainer Maria Rilke, in "Das Buch der Bilder" (1902).



Primeira Elegia 
Quem, se eu gritasse, entre as legiões de Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia 
valer? Nem anjos, nem homens 
e o intuitivo animal logo adverte 
que para nós não há amparo 
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe, 
a árvore de alguma colina, que podemos rever 
cada dia; resta-nos a rua de ontem 
e o apego cotidiano de algum hábito 
que se afeiçoou a nós e permaneceu. 
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços 
do mundo desgastar-nos a face — a quem se furtaria ela, 
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o 
coração solitário? Será mais leve para os que amam? 
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino. 
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços 
para os espaços que respiramos — talvez os pássaros 
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido. 
(…)
Rainer Maria Rilke, in "Elegias de Duíno – Rainer Maria Rilke". [tradução Dora Ferreira da Silva]. São Paulo: Globo, 1991.


Die Erste Elegie
Wer, wenn ich schriee, hörte mich denn aus der Engel 
Ordnungen? und gesetzt selbst, es nähme 
einer mich plötzlich ans Herz: ich verginge von seinem 
stärkeren Dasein. Denn das Schöne ist nichts 
als des Schrecklichen Anfang, den wir noch grade ertragen, 
und wir bewundern es so, weil es gelassen verschmäht, 
uns zu zerstören. Ein jeder Engel ist schrecklich. 
Und so verhalt ich mich denn und verschlucke den Lockruf 
dunkelen Schluchzens. Ach, wen vermögen 
wir denn zu brauchen? Engel nicht, Menschen nicht, 
und die findigen Tiere merken es schon, 
daß wir nicht sehr verläßlich zu Haus sind 
in der gedeuteten Welt. Es bleibt uns vielleicht 
irgend ein Baum an dem Abhang, daß wir ihn täglich 
wiedersähen; es bleibt uns die Straße von gestern 
und das verzogene Treusein einer Gewohnheit, 
der es bei uns gefiel, und so blieb sie und ging nicht. 
O und die Nacht, die Nacht, wenn der Wind voller Weltraum 
uns am Angesicht zehrt -, wem bliebe sie nicht, die ersehnte, 
sanft enttäuschende, welche dem einzelnen Herzen 
mühsam bevorsteht. Ist sie den Liebenden leichter? 
Ach, sie verdecken sich nur mit einander ihr Los. 
Weißt du's noch nicht? Wirf aus den Armen die Leere 
zu den Räumen hinzu, die wir atmen; vielleicht daß die Vögel 
die erweiterte Luft fühlen mit innigerm Flug.

(…)
- Rainer Maria Rilke


Recordação
E tu esperas, aguardas a única coisa 
que aumentaria infinitamente a tua vida; 
o poderoso, o extraordinário, 
o despertar das pedras, 
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham 
os volumes em castanho e ouro; 
e tu pensas em países viajados, 
em quadros, nas vestes 
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso. 
Ergues-te e diante de ti estão 
angústia e forma e oração 
de certo ano que passou.
- Rainer Maria Rilke, em "O livro das imagens" (1902).[tradução de Maria João Costa Pereira]. Lisboa: Relógio D’Água, 2005. 


Erinnerung
Und du wartest, erwartest das Eine,
das dein Leben unendlich vermehrt;
das Mächtige, Ungemeine,
das Erwachen der Steine,
Tiefen, dir zugekehrt.

Es dämmern im Bücherständer
die Bände in Gold und Braun;
und du denkst an durchfahrene Länder,
an Bilder, an die Gewänder
wiederverlorener Fraun.

Und da weißt du auf einmal: das war es.
Du erhebst dich, und vor dir steht
eines vergangenen Jahres
Angst und Gestalt und Gebet. 
- Rainer Maria Rilke, in "Das Buch der Bilder" (1902).



São Sebastião
Como alguém que jazesse, está de pé,
sustentado por sua grande fé.
Como mãe que amamenta, a tudo alheia,
grinalda que a si mesma se cerceia.

E as setas chegam: de espaço em espaço,
como se de seu corpo desferidas,
tremendo em suas pontas soltas de aço.
Mas ele ri, incólume, às feridas.

Num só passo a tristeza sobrevém
e em seus olhos desnudos se detém,
até que a neguem, como bagatela,
e como se poupassem com desdém
os destrutores de uma coisa bela.
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas I" (1907). In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 124-125.


Sankt Sebastian
Wie ein Liegender so steht er, ganz
hingehalten von dem großen Willen.
Weitentrückt wie Mütter, wenn sie stillen,
und in sich gebunden wie ein Kranz.

Und die Pfeile kommen: jetzt und jetzt
als sprängen sie aus seinen Lenden,
eisern bebend mit den freien Enden.
Doch er lächelt dunkel, unverletzt.

Einmal nur wird seine Trauer groß,
und die Augen liegen schmerzlich bloß,
bis sie etwas leugnen, wie Geringes,
und ließen sie verächtlich los
die Vernichter eines schönen Dinges.
- Rainer Maria Rilke,  in "Neue gedichte - I" (1907).



Solidão
A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios... 
- Rainer Maria Rilke, em "O Livro das Imagens", (1902).. [tradução Maria João Costa Pereira].  Lisboa: Relógio D’Água, 2005. 


Einsamkeit
Die Einsamkeit ist wie ein Regen. 
Sie steigt vom Meer den Abenden entgegen; 
von Ebenen, die fern sind und entlegen, 
geht sie zum Himmel, der sie immer hat. 
Und erst vom Himmel fällt sie auf die Stadt. 

Regnet hernieder in den Zwitterstunden, 
wenn sich nach Morgen wenden alle Gassen 
und wenn die Leiber, welche nichts gefunden, 
enttäuscht und traurig von einander lassen; 
und wenn die Menschen, die einander hassen, 
in einem Bett zusammen schlafen müssen: 

dann geht die Einsamkeit mit den Flüssen... 
- Rainer Maria Rilke, in "Das Buch der Bilder" (1902).


Soneto
(à Franz Kappus)

Rainer Maria Rilke (1906) - foto: George Bernard Shaw
Treme sem queixa por meu coração,
sem suspiro, uma dor muito sombria.
Só dos sonhos a nívea floração
é a festa de algum mais tranqüilo dia.

Tanta vez a grande interrogação
se me depara! Encolho-me, e com fria
timidez passo, como passaria
por bravo mar, sem aproximação.

Desce, então, sobre mim, turva amargura
como esses céus cinzentos de verão
Onde uma estrela às vezes estremece.

Tateantes, minhas mãos vão à procura
do amor, buscam palavras da oração
Que meu lábio deseja e não conhece.
- Rainer Maria Rilke, em "Carta nº 7' - Cartas a um jovem poeta." [tradução Paulo Rónai]. in: RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. [tradução Paulo Rónai e Cecília Meireles]. 22ª ed., São Paulo: Globo, 1995.


Sonnet
(Franz Kappus)

Durch mein Leben Zittert ohne Klage,
ohne Seufzer ein tiefdunkles Weh
Meiner Träume reiner Blütenschnee
ist die Weihe menier stillsten Tage.

Öfter aber kreuzt die große Frage
Meinen Pfad. Ich werde klein und geh
kalt vorüber wie an einem See,
dessen Flut ich nicht zu messen wage.

Und dann sinkt win Leid auf mich, so trüble
wie das Grau galanzarmer Sommernächte,
die ein Stern durchflimmert – dann und wann – :

Mein Hände tasten dann nach Liebe,
weil ich gerne Laute beten möchte,

die mein heißer Mund nicht finden kann…
- Rainer Maria Rilke


Soneto XXI
Eis outra vez a Primavera. A Terra
é um menino que sabe dizer versos;
tantos, oh tantos... Por aquele esforço
de longo estudo vai receber um prêmio.

Severo foi o mestre. Nós gostávamos
da brancura da barba daquele velho.
Agora podemos perguntar o nome
do verde, o azul: ela sabe, ela sabe!

Terra feliz, em férias, brinca agora
co′as crianças. Queremos agarrar-te,
Terra alegre. A mais jovial consegue-o.

Oh, o muito em que o mestre as instruiu
e o impresso nas raízes e nos longos
troncos difíceis: ela o canta, canta!
- Rainer Maria Rilke, em "Sonetos a Orfeu" (1923).. in: RILKE, Rainer Maria. Poemas, as elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu. [tradução Paulo Quintela]. Lisboa: Editora O Oiro do Dia, 1983. 


XXI. Sonett
Singe die Gärten, mein Herz, die du nicht kennst; wie in Glas 
eingegossene Gärten, klar, unerreichbar. 
Wasser und Rosen von Ispahan oder Schiras, 
singe sie selig, preise sie, keinem vergleichbar. 

Zeige, mein Herz, daß du sie niemals entbehrst. 
Daß sie dich meinen, ihre reifenden Feigen. 
Daß du mit ihren, zwischen den blühenden Zweigen 
wie zum Gesicht gesteigerten Lüften verkehrst. 

Meide den Irrtum, daß es Entbehrungen gebe 
für den geschehnen Entschluß, diesen: zu sein! 
Seidener Faden, kamst du hinein ins Gewebe. 

Welchem der Bilder du auch im Innern geeint bist 
(sei es selbst ein Moment aus dem Leben der Pein), 
fühl, daß der ganze, der rühmliche Teppich gemeint ist.
- Rainer Maria Rilke, im "Die Sonette an Orpheus, Zweiter Teil".


Torso arcaico de Apolo
Não conhecemos a sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo ergue-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as suas fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.
- Rainer Maria Rilke, em "Outra parte dos novos poemas" (1926). in: FAUSTINO, Mário. Poesia completa e traduzida. [Org. Benedito Nunes]. São Paulo: Max Limonard, 1985, p.262-263.



Archaïscher Torso Apollos
Wir kannten nicht sein unerhörtes Haupt, 
darin die Augenäpfel reiften. Aber 
sein Torso glüht noch wie ein Kandelaber, 
in dem sein Schauen, nur zurückgeschraubt, 

sich hält und glänzt. Sonst könnte nicht der Bug 
der Brust dich blenden, und im leisen Drehen 
der Lenden könnte nicht ein Lächeln gehen 
zu jener Mitte, die die Zeugung trug. 

Sonst stünde dieser Stein entstellt und kurz 
unter der Schultern durchsichtigem Sturz 
und flimmerte nicht so wie Raubtierfelle; 

und bräche nicht aus allen seinen Rändern 
aus wie ein Stern: denn da ist keine Stelle, 
die dich nicht sieht. Du mußt dein Leben ändern. 
- Rainer Maria Rilke, im "Der neuen Gedichte anderer Teil" (1908).


Tumbas das Hetairas 
Em seus longos cabelos elas jazem, 
rostos escuros, encerrados em si mesmos, 
olhos cerrados como se distantes. 
Esqueletos e bocas, flores. E nas bocas 
dentes polidos, como num xadrez de bolso, 
peças enfileiradas em marfim. 
Flores, pérolas amarelas, ossos finos 
e mãos e mantas, murchas vestimentas, 
e lá no fundo, o coração cravado. 
Mas sob anéis e talismãs e pedras 
de olhos azuis (regalos preferidos), 
ainda resta, em sua cripta, o sexo mudo, 
cumulado de pétalas de flores. 
Pérolas amarelas, ainda, esparsas,— 
pratos de terracota, curvos, adornados 
de suas imagens, cacos verdoengos 
de jarras de óleo olentes como flores, 
miniaturas de deuses e altares, 
céus de hetairas, deuses desejantes. 
Cintos soltos, escaravelhos-pedras, 
vultos pequenos com enormes falos, 
boca ridente, atletas, dançarinas, 
fíbulas de ouro, como arcos de caça 
para amuletos de animais e pássaros, 
e agulhas finas, utensílios raros, 
e sobre um vaso circular, vermelho, 
como a negra inscrição de algum portal, 
as pernas rígidas de uma quadriga. 
De novo flores, perólas roladas, 
as ancas lisas da pequena lira, 
e dentre os véus que caem como névoa, 
como se de crisálidas-sandálias: 
a borboleta leve de um artelho. 

Jazem assim, acúmulo de coisas, 
coisas preciosas, pedras, jóias, jogos, 
bagatelas (caidas sobre elas) 
no escuro, como se o leito de um rio. 

Pois elas foram rios, 
e em ondas breves e velozes, nelas, 
precipitaram-se os corpos de jovens 
(que ansiavam só por uma vida nova) 
e torrentes de homens irromperam. 
E às vezes os meninos das colinas 
da infância vinham em tímidas quedas, 
brincavam com as coisas até quando 
a cachoeira enchia os seus sentidos: 

Então davam à água rasa e clara 
toda a extensão dos cursos expansivos 
e enfrentavam remoinhos e águas fundas, 
refletindo, pela primeira vez, as margens 
e a voz dos pássaros ao longe —, e as noites 
estelares de um país ameno abriam 
um céu que nunca mais se fecharia.
- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas I". In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 166-167.


Hetären-Gräber 
In ihren langen Haaren liegen sie 
mit braunen, tief in sich gegangenen Gesichtern. 
Die Augen zu wie vor zu vieler Ferne. 
Skelette, Munde, Blumen. In den Munden 
die glatten Zähne wie ein Reise-Schachspiel 
aus Elfenbein in Reihen aufgestellt. 
Und Blumen, gelbe Perlen, schlanke Knochen, 
Hände und Hemden, welkende Gewebe 
über dem eingestürzten Herzen. Aber 
dort unter jenen Ringen, Talismanen 
und augenblauen Steinen (Lieblings-Angedenken) 
steht noch die stille Krypta des Geschlechtes, 
bis an die Wölbung voll mit Blumenblättern. 
Und wieder gelbe Perlen, weitverrollte, – 
Schalen gebrannten Tones, deren Bug 
ihr eignes Bild geziert hat, grüne Scherben 
von Salben-Vasen, die wie Blumen duften, 
und Formen kleiner Götter: Hausaltäre, 
Hetärenhimmel mit entzückten Göttern. 
Gesprengte Gürtel, flache Skarabäen, 
kleine Figuren riesigen Geschlechtes, 
ein Mund der lacht und Tanzende und Läufer, 
goldene Fibeln, kleinen Bogen ähnlich 
zur Jagd auf Tier- und Vogelamulette, 
und lange Nadeln, zieres Hausgeräte 
und eine runde Scherbe roten Grundes, 
darauf, wie eines Eingangs schwarze Aufschrift, 
die straffen Beine eines Viergespannes. 
Und wieder Blumen, Perlen, die verrollt sind, 
die hellen Lenden einer kleinen Leier, 
und zwischen Schleiern, die gleich Nebeln fallen, 
wie ausgekrochen aus des Schuhes Puppe: 
des Fußgelenkes leichter Schmetterling. 

So liegen sie mit Dingen angefüllt, 
kostbaren Dingen, Steinen, Spielzeug, Hausrat, 
zerschlagnem Tand (was alles in sie abfiel), 
und dunkeln wie der Grund von einem Fluss. 

Flussbetten waren sie, 
darüber hin in kurzen schnellen Wellen 
(die weiter wollten zu dem nächsten Leben) 
die Leiber vieler Jünglinge sich stürzten 
und in denen der Männer Ströme rauschten. 
Und manchmal brachen Knaben aus den Bergen 
der Kindheit, kamen zagen Falles nieder 
und spielten mit den Dingen auf dem Grunde, 
bis das Gefälle ihr Gefühl ergriff: 

Dann füllten sie mit flachem klarem Wasser 
die ganze Breite dieses breiten Weges 
und trieben Wirbel an den tiefen Stellen; 
und spiegelten zum ersten Mal die Ufer 
und ferne Vogelrufe –, während hoch 
die Sternennächte eines süßen Landes 
in Himmel wuchsen, die sich nirgends schlossen. 
- Rainer Maria Rilke (1904). im  "Neue gedichte - I" (1907).



Fragmento de Rainer Maria Rilke
'intradução', do poeta Augusto de Campos
Rosa de Rilke. [tradução Augusto de Campos]. 2004. 



FORTUNA CRÍTICA RAINER MARIA RILKE
[Estudos acadêmicos: livros, teses, dissertações, monografias, ensaios e artigos]
Rainer Maria Rilke, por (....)
AGUIAR, Melânia Silva de; LOBO, Suely Maria de Paula e Silva; MELLER, Lauro Wanderley. Rilke, poeta superlativo, e os modernos: uma introdução. In: AGUIAR, Melânia Silva de; LOBO, Suely Maria de Paula e Silva (Org.).. (Org.). Poesia, tradição e modernidade: interlocuções. Belo Horizonte: Veredas & Cenários, 2008, v. , p. 129-148.
ANDRADE, Fábio Rigatto de Souza. Rilke e o silêncio de Orfeu. Folha de S.Paulo (Ilustrada), São Paulo, p. E3 - E3, 18 jul. 2009.
ARCURI, Isabella Guedes. A possível sacralidade do fazer artístico em Rilke. In: Experiências e interpretações do sagrado: interfaces entre saberes acadêmicos e religiosos, 2011, Juiz de Fora. Anais do XII simpósio nacional da Associação Brasileira de História das Religiões, 2011. v. 12.
BARJAU, Eustaquio."'Gesicht y Antlitz' en las Elegías de Duino: un problema de interpretación y traducción”. Filología Moderna, n.º 77. Madrid: Editorial Universidad Complutense, 1985. pp. 319-325.
BARRENTO, João. Escritos sobre Rainer Maria Rilke. revista de cultura nº 33 - Fortaleza, São Paulo - março de 2003. Disponível no link. (acessado em 9.8.2014).
BERMÚDEZ CAÑETE, F.. Rilke. Barcelona: Ediciones Júcar, 1984.
BETZ, Maurice. Rainer Maria Rilke - Poésie. París: Éditions Émile- Paul, 1938.
BONFIM, Rita Rios. Das Echo der Bilder (O Eco das Imagens). Jugendstil, Quattrocento und ägyptischer Totenkult in Rilkes poetischer Rezeption Hofmanns, Vogelers und Modersohn-Beckers. (Tese Doutorado em Literatura Comparada). Universidade de Genebra, 2003.
BONFIM, Rita Rios. Ein BLICK auf RezeptionsAUGENBLICKE. Zu Rilkes Auseinandersetzung mit Kunstwerken um 1900. In: BLICKWECHSEL, 2003, Sao Paulo, Paraty, Petrópolis. BLICKWECHSEL. Akten des XI. Lateinamerikanischen Germanistenkongresses. Sao Paulo: Edusp, Monferrer Produções 2005, 2003. v. 2. p. 190-198.
BONFIM, Rita Rios. Poemas e Pedras. Poesia em Pedra. Uma abordagem da relação entre a poesia e a escultura com base em obras de Rodin e Rilke.. 1ª ed. , São Paulo: Edusp, 2010. 350p.
BONFIM, Rita Rios. Worpswede. Pintura paisagística, romantismo e concepção de "natureza" em "Worpswede", de Rilke. (Dissertação Mestrado profissionalizante em Filologia Alemã - moderna e medieval). Technische Universitaet Berlin, 1992.
BONFIM, Rita Rios. Zu Rilkes Ästhetik der Frühzeit. Vom Erlebnis zum Vorwand, vom Gefühl zur Wirklichkeit. In: Wulf Herzogenrath, Andreas Kreul. (Org.). Rilke. Worpswede. 1ª ed., Bremen: H. M. Hausschild GmbH, 2003, v. 1, p. 288-297.
BUDDEBERG, Else. Rainer Maria Rilke - Eine innere Bibliographie. Stuttgart: J.B. Metzlersche Verlagsbuchhandlung, 1954.
CINTO, Mercedes Martín. Rilke, los Sonetos a Orfeo Análisis y valoración de sus traducciones. (Tese em Teoría de la Literatura). Universidad de Málaga, 2001. Disponível no link. (acessado em 30.6.2014).
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***

ELEGIAS DE DUÍNO
- 1ª carta -

Rainer Maria Rilke , por Helmut Westhoff (1901)
Quem se eu gritasse, me ouviria pois entre as ordens
Dos anjos? E dado mesmo que me tomasse
Um deles de repente em seu coração, eu sucumbiria
Ante sua existência mais forte. Pois o belo não é
Senão o início do terrível, que já a custo suportamos,
E o admiramos tanto porque ele tranqüilamente desdenha
Destruir-nos. Cada anjo é terrível.
E assim me contenho pois, e reprimo o apelo

De obscuro soluço. Ah! A quem podemos
Recorrer então? Nem aos anjos nem aos homens,
E os animais sagazes logo percebem
Que não estamos muito seguros
No mundo interpretado. Resta-nos talvez
Alguma árvore na encosta que diariamente
Possamos rever. Resta-nos a rua de ontem
E a mimada fidelidade de um hábito,
Que se compraz conosco e assim fica e não nos abandona.
Ó e a noite, a noite, quando o vento cheio dos espaços
Do mundo desgasta-nos o rosto -, para quem ela não é /sempre a desejada,
Levemente decepcionante, que para o solitário coração
Se impõe penosamente. Ela é mais leve para os amantes?
Ah! Eles escondem apenas um com o outro a própria sorte.
Não o sabes ainda? Atira dos braços o vazio
Para os espaços que respiramos; talvez que os pássaros
Sintam o ar mais vasto num vôo mais íntimo.

Sim, as primaveras precisavam de ti.Muitas estrelas
Esperavam que tu as percebesses. Do passado
Erguia-se uma vaga aproximando-se, ou
Ao passares sob uma janela aberta,
Um violino se entregava. Tudo isso era missão.
Mas a levaste ao fim? Não estavas sempre
Distraído pela espera, como se tudo te ansiasse
A bem amada? (onde queres abrigá-la
Então, se os grandes e estranhos pensamentos entram
E saem em ti e muitas vezes ficam pela noite.)
Se a nostalgia te dominar, porém, cantas as amantes; muito
Ainda falta para ser bastante imortal seu celebrado sentimento.
Aquelas que tu quase invejaste, as desprezadas, que tu
Achaste muito mais amorosas que as apaziguadas. Começa
Sempre de novo o louvor jamais acessível;
Pensa: o herói se conserva, mesmo a queda lhe foi
Apenas um pretexto para ser : o seu derradeiro nascimento.
As amantes, porém, a natureza exausta as toma
Novamente em si, como se não houvesse duas vezes forças para realizá-las.
Já pensaste pois em Gaspara Stampa
O bastante para que alguma jovem,
A quem o amante abandonou, diante do elevado exemplo
Dessa apaixonada, sinta o desejo de tornar-se como ela?
Essas velhíssimas dores afinal não se devem tornar
Mais fecundas para nós? Não é tempo de nos libertarmos,
Amando, do objeto amado e a ele tremendo resistirmos Como a flecha suporta à corda, para, concentrando-se no salto Ser mais do que ela mesma?
Pois parada não há em /parte alguma.

Vozes, vozes.Escuta, coração como outrora somente
os santos escutavam: até que o gigantesco apelo
levantava-os do chão; mas eles continuavam ajoelhados,
inabaláveis, sem desviarem a atenção:
eles assim escutavam. Não que tu pudesses suportar
a voz de Deus, de modo algum. Mas escuta o sopro,
a incessante mensagem que nasce do silêncio.
Daqueles jovens mortos sobe agora um murmúrio em direção /a ti.
Onde quer que penetraste, nas igrejas
De Roma ou de Nápoles, seu destino não falou a ti, /tranqüilamente?
Ou uma augusta inscrição não se impôs a ti
Como recentemente a lousa em Santa Maria Formosa.
Que eles querem de mim? Lentamente devo dissipar
A aparência de injustiça que às vezes dificulta um pouco
O puro movimento de seus espíritos.

Certo, é estranho não habitar mais terra,
Não mais praticar hábitos ainda mal adquiridos,
Às rosas e outras coisas especialmente cheias de promessas
Não dar sentido do futuro humano;
O que se era, entre mãos infinitamente cheias de medo
Não ser mais, e até o próprio nome
Deixar de lado como um brinquedo quebrado.
Estranho, não desejar mais os desejos. Estranho,
Ver tudo o que se encadeava esvoaçar solto
No espaço. E estar morto é penoso
E cheio de recuperações, até que lentamente se divise
Um pouco da eternidade. - Mas os vivos
Cometem todos o erro de muito profundamente distinguir.
Os anjos (dizem) não saberiam muitas vezes
Se caminham entre vivos ou mortos. A correnteza eterna
Arrebata através de ambos os reinos todas as idades
Sempre consigo e seu rumor as sobrepuja em ambos.

Finalmente não precisam mais de nós os que partiram cedo,
Perde-se docemente o hábito do que é terrestre, como o /seio materno
suavemente se deixa, ao crescer.Mas nós que de tão grandes
mistérios precisamos, para quem do luto tantas vezes
o abençoado progresso se origina - : poderíamos passar /sem eles?
É vã a lenda de que outrora, lamentando Linos,
A primeira música ousando atravessou o árido letargo,
Que então no sobressaltado espaço, do qual um quase /divino adolescente
escapou de súbito e para sempre, o vazio entrou
naquela vibração que agora nos arrebata e consola e ajuda?
- Rainer Maria Rilke, em "Elegias de Duíno". [tradução Paulo Plínio Abreu em colaboração com o antropólogo alemão Peter Paul Hilbert]. Belém/Pará: Jornal Folha do Norte, publicado entre os anos de 1946 e 1948.




***

CARTAS A UM JOVEM POETA
Carta nº 1 -

Paris, 17 de fevereiro de 1903

Prezadíssimo Senhor, 


Rainer Maria Rilke, por Leonid Pasternak (1928)
Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer: a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito esse reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com a maior clareza no último poema Minha Alma. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema A Leopardi talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto as poesias nada tem ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem, – usando da licença que me deu de aconselhá-lo – peço que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende as suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: “sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se, então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza – relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existências cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a sim mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Paro o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: Sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar.Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, – o único existente. Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procura interpretá-la. Talvez venha a significar que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceito o destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.


Rainer Maria Rilke , por (...)
Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta. (Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao término de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria eu encontrei em sua carta o nome do professor Horacek; guardo por esse amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste meu sentimento É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,
___
** Fonte: RILKE, Rainer Maria, em "Carta nº 1' - Cartas a um jovem poeta." [tradução Paulo Rónai]. in: RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. [tradução Paulo Rónai e Cecília Meireles]. 22ª ed., São Paulo: Globo, 1995.


AMIGOS
Rodin, Rose, Rilke dans le jardin de Meudon en compagnie de deux chiens, [S.1380]
Photo: Albert Harlingue - Acervo Musée Rodin


Rainer Maria Rilke e Paul Valéry  em Paris  (verão, 1926)


Rilke, 1902 (stehend, mit Notizheft)

FANPAGE DEDICADO A LITERATURA ALEMÃ
:: Literatura alemã/ Deutsche literatur


REFERÊNCIAS E OUTRAS FONTES DE PESQUISA
:: A voz da poesia - Rilke
:: Cultura Pará - Rilke
:: Miscelânea - Rilke ("Cartas ao jovem poeta" - Disponíveis online as Cartas: I, II, IV, VII, VIII (tradução Paulo Rónai)
:: Poetry Foundation - Biography Rainer Maria Rilke (1875–1926)
:: Rainer Maria Rilke (1875–1926)
:: Rilke.de
:: Releituras - Rilke
:: Projekt Gutenberg-DE (Rainer Maria Rilke).. [obra em alemão].
:: Gedichte - Rainer Maria Rilke 



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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Rainer Maria Rilke - o poeta de todos os tempos. Templo Cultural Delfos, junho/2014. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
____
** Post atualizado 15.1.2016.



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Um comentário:

  1. Obrigado, Elfi, por divulgar esse poeta e sua obra.
    Eu tenho em minha memória um verso assim : "Rosa, pura contradição - volúpia de quem não é o olho de ninguém debaixo de tantas pálpebras".
    Eu agradeço a vc por fazer isso.

    José Elias

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