Aleksandr Púchkin - o poeta lírico

Aleksander Púchkin
Aleksandr Serguéievitch Púchkin nasceu em 6 de Junho de 1799 e é um grande poeta russo. Desde há muito que o seu nome é um símbolo da língua e cultura russas. Na cultura mundial, ele simboliza a Rússia como Goethe simboliza a Alemanha, Shakespeare a Inglaterra, Camões Portugal, Dante a Itália ou Cervantes a Espanha.

Um poeta genial, mas também prosador e dramaturgo, Pushkin criou obras-primas como a novela em verso Evgueny Oneguin , a novela Dama de Espadas, ou a tragédia Boris Godunov. Inspiradas pelo seu génio, as óperas dos célebres compositores russos Tchaikovsky e Mussorgsky foram apresentadas em teatros de todo o mundo.

A grandeza de Pushkin não se encontra só nas suas obras, mas também na sua personalidade e na sua vida. O que distingue o génio da literatura russa é a liberdade interior, a serenidade, a bondade e a nobreza, bem como o seu amor pela Pátria. O destino encarregou-se de conferir à sua biografia as características duma narrativa romântica fascinante.
Púchkin foi pioneiro no uso da língua vernácula nas suas obras, criando um estilo de narrativa que misturava o drama, o romance e a sátira hoje associados à literatura russa, e influenciando de modo notável os escritores russos que lhe seguiram.

Aleksandr Púchkin nasceu em Moscovo e foi educado pela avó e por uma ama,conhecedora de muitos contos populares. No salão da família ouvia falar de poesia, o pai e o tio faziam rimas e na biblioteca alinhavam-se todos os poetas de língua francesa do século XVIII, língua essa que ele sabia desde o berço.

Proveniente duma família nobre, Pushkin nasceu em 1799 em Moscovo, antiga capital da Rússia. De 1811 até 1817 estudou no liceu imperial de Tsarskoeselo, nos arredores de São Petersburgo. Celebrando a liberdade nos seus versos, o poeta foi expulso da então capital imperial em 1820, passando mais de 5 anos exilado no sul da Rússia e depois em Mikhailovskoe, uma vila na região de Pskov. Em 1826, Pushkin foi chamado a Moscovo pelo Tsar Nicolau I, o qual o reconheceu publicamente como o maior poeta da Rússia. O reconhecimento da sua obra valeu-lhe os epítetos de Ovídio e Byron russo.

Em 1831, Alexander Pushkin casou-se com Natália Gontcharova, a mulher mais bela de Moscovo, tendo passado os últimos anos da sua vida em São Petersburgo. Em 1837, Pushkin bate-se em duelo com Dantes, filho adoptivo dum ministro plenipotenciário holandês, e foi morto, defendendo a honra da sua mulher.

A vida do Pushkin é inseparável dos acontecimentos históricos da sua época: a Guerra Patriótica de 1812 (de defesa da sua integridade territorial face à invasão do exército napoleónico), a insurreição dos dezembristas (primeiros revolucionários russos), de 14 de Dezembro de 1825, entre os quais se contavam muitos dos amigos do poeta. A biografia de Pushkin é rica não só em acontecimentos, mas também em relações humanas. Conheceu muitos estadistas e personalidades públicas célebres: escritores, compositores e artistas. Admirava belas mulheres e dedicava-lhes os seus versos.

Um verdadeiro profeta, Pushkin predisse a sua imortalidade. Sonhava com uma “união doce” de poetas e da “grande família” que reunisse as pessoas de todo o mundo. A sua poesia servia e continua a servir estes generosos objectivos.

Contudo, a incapacidade de traduzir com o mesmo espírito, quer as suas poesias, quer as suas obras em prosa, fez com que Púchkin fosse mal conhecido (e talvez imperfeitamente interpretado) fora da Rússia e não ocupasse o lugar merecido no panteão da literatura mundial.

Os seus primeiros poemas, O Prisioneiro do Cáucaso (1820-1821) e Os Ciganos (1824), carregam em si a influência do romantismo, mas conseguem elevar-se acima dos sonhos sentimentais até as alturas sublimes do classicismo.

Um dos seus mais conhecidos poemas, O Cavaleiro de Bronze, foi escrito em 1833, mas foi apenas publicado após a morte de Púchkin.
Aleksandr Púchkin escreveu o romance em verso (com 400 versos no total) Evgueni Onéguin (1823-1832), no qual introduziu elementos que o levaram a designar o seu estilo como o primeiro romance realista da literatura russa do século XIX, “o romance nacional sobre a Rússia e para a Rússia”, onde se mostra um retrato panorâmico da vida russa. Possuidora de um cunho de grandeza moral, esta obra é, ao mesmo tempo, o seu mais melodioso poema.
Aleksander Púchkin
Outras obras importantes de Púchkin:
Poltava (1828-1829), a célebre descrição da batalha entre as tropas russas, chefiadas por Pedro I, e as tropas suecas, chefiadas pelo rei Carlos XII, da traição de Mazepa, o hetman (comandante) ucraniano, etc.
Borís Godunov (1825), um drama histórico digno de Shakespeare, no qual o interesse do autor se divide entre duas personagens: o Czar Borís Godunov, político hábil e firme, e o falso Dmítri, o impostor, que pretende ser czar com a ajuda da intervenção de tropas estrangeiras.
Púchkin dedicou-se também a outro género literário, o conto popular, ao escrever o ensaio O Czar Saltán (1831), considerado uma obra prima, O Conto da Princesa Morta e dos Sete Cavaleiros (1833)Conto sobre o Galo Dourado (1834), entre outros.
Grande poeta, Púchkin foi também um prosador de primeira ordem.
As suas Novelas de Bélkin (1830), entre as quais se encontram O Tiro de Pistola e A Tempestade de Neve, são paródias para os cânones da literatura romântica, quando a história, em lugar de um fim trágico, acaba bem.
A Dama de Espadas (1834) e A Filha do Capitão (1836) contêm a essência do futuro romance realista russo, que valerá a celebridade mundial aos seus sucessores. O nome de Púchkin é inseparável de toda a nova literatura russa. Ele é o mais antigo escritor profissional da Rússia: foi o primeiro a ter vivido, grande parte da vida, dos direitos de autor.
Deve mencionar-se ainda a enorme repercussão que a obra de Púchkin teve, e tem, na literatura e em outros campos artísticos, como na música e no cinema, não só na Rússia, mas também em diversas outras partes do mundo. Desta forma, o célebre romance-poema Evgueni Onéguin serviu de inspiração a Piotr Tchaikovski, o qual teve assim o privilégio de o tornar conhecido e enaltecer a obra; Borís Godunov foi adaptada para o palco pelas mãos do compositor Modest Mússorgski na forma de ópera; a novela A Dama de Espadas está na base de um filme inglês de Thorold Dickinson; o romance A Filha do Capitão constitui a fonte à qual Lev Tolstoi foi beber na composição de Guerra e Paz; e vários dos seus poemas foram traduzidos para a língua francesa por Prosper Mérimée, escritor francês do séc. XIX, entre outras personalidades.
Если жизнь тебя обманет,
Не печалься, не сердись!
В день уныния смирись:
День веселья, верь, настанет.
Сердце в будущем живет;
Настоящее уныло:
Все мгновенно, все пройдет;
Что пройдет, то будет мило.
(1825)
Se um dia esta vida te desiludir,
Não fiques triste ou aborrecida!
Num dia sombrio, resigna-te:
Tem confiança, dias melhores virão.
O coração vive no futuro; então;
E se a sombra invade o presente:
Tudo é efémero, tudo passará;
E o que passou torna-se, então saudoso.
(1825)
:: Fontes: Biblioteca Nacional Portugal |e Aleksandr Púchkin, por Vladimir I. Pliassov. in: Universidade de Coimbra. (acessado em 10.8.2016).


Aleksandr Púchkin

OBRA DE ALEKSANDR PÚCHKIN EM PORTUGUÊS
Púchkin, Aleksandr (Alexandre, Alexander; Pouskine, Pushkin, Pushkine, Puschkin):
:: A filha do capitãoAleksandr Púchkin. [tradução Paulo Corrêa Lopes]. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1933.
:: Águia negra. Aleksandr Púchkin. [tradução ..?]. Collecções Econômicas SIP, vol. 32. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1935.
:: Águia negra, A dama de espadas, Um tiroAleksandr Púchkin[tradução Cira Neri]. Rio de Janeiro: Pongetti, 1937.
:: A dama de espadasAleksandr Púchkin[tradução Álvaro Moreyra*]. Rio de Janeiro: Confraria de Bibliófilos Brasileiros Cattleya Alba, 1944 [edição restrita]. Reed. Rio de Janeiro: Brasilia Aeterna, 1945.
:: A filha do capitão. Aleksandr Púchkin. [tradução Boris Solomonov - pseudônimo de Boris Schnaiderman]. Coleção 'Os Maiores Êxitos da Tela'. Rio de Janeiro: Vecchi, 1949.
:: Águia negra. Aleksandr Púchkin. [tradução Boris Solomonov - pseudônimo de Boris Schnaiderman]. Coleção 'Os Maiores Êxitos da Tela'. Rio de Janeiro: Vecchi, 1949.
:: 10 histórias de Púshkin. [tradução..?]. Coleção 'Romances célebres'. São Paulo: Abril Cultural, 1956.
Aleksandr Pushkin - menino
:: A filha do capitão (HQ). Aleksander Púchkin. Coleção Romances Ilustrados, vol. 18. Editora Ebal, 1956.
:: O negro de pedro, o grande. Aleksander Púchkin. [tradução de Boris Schnaiderman]. Rio de Janeiro: Difel, 1962; São Paulo: Editora 34, 1999.
:: A filha do capitão. Aleksander Púchkin. [tradução de Leontina Vassilieva e Renard Perez]. São Paulo, Bup, 1963.
:: Contos de belkin. Aleksander Púchkin. [tradução de Eduardo Sucupira Filho]. São Paulo, Editora Brasiliense, 1964.
:: Mozart e Salieri. Aleksander Púchkin. [tradução e adaptação Tatiana Belinky]. São Paulo: Comissão Estadual de Teatro - setor infanto-juvenil, vol. 4, n. 18, p. 53-56, mar. 1968. 
:: A filha do capitão. Aleksandr Púchkin. [adaptação de Marques Rebelo]. Coleção clássicos da literatura juvenil. São Paulo: Abril cultural, 1971; Coleção Grandes Aventuras. São Paulo: Abril cultural, 1979; Coleção Elefante. Rio de Janeiro: Ediouro, 1987.
:: A filha do capitão e o Jogo das epigrafes. Aleksander Púchkin. [tradução de Helena S. Nazário]. São Paulo. Perspectiva, 1981.
:: A dama de espadasAleksander Púchkin. [tradução Boris Schnaiderman]. São Paulo: Max Limonad, 1981.
:: O pope avarento. Aleksander Púchkin. [tradução de Tatiana Belinky]. São Paulo: Editora Paulinas, 1988.
:: A história da ursa-parda. Aleksander Púchkin. [tradução e adaptação de Tatiana Belinky. Rio de Janeiro: Editora Scipione, 1993.
:: Contos de belkin. Aleksander Púchkin. [tradução Klara Gouriánova]. São Paulo: Editora Nova Alexandria
:: A dama de espadas. Aleksander Púchkin. [adaptação Rodrigo Espinosa Cabral]. Coleção aventuras grandiosas. Editora Rideel, 2006; 2ª ed., 2011.
:: A filha do capitão - a dama de espadas. [tradução de Álvaro Moreyra*]. Coleção Obra-prima de cada autor. Editora Martin Claret, 2006.
:: Pequenas tragédias. A. S. Púchkin. [tradução Irineu Franco Perpetuo]. São Paulo: Editora Globo, 2006.
:: Boris Godunov. A. S. Púchkin. [tradução, notas e o posfácio Irineu Franco Perpetuo]. São Paulo: Editora Globo, 2007.
:: Eugênio Oneguin. Alexandr Pushkin. [tradução do russo de Dário Moreira de Castro Alves]. Edição bilíngue. Moscou/Rússia: Grupo Editorial Azbooka-Atticus, 2008; Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. 
:: Noites egípcias e outros contos. Aleksander Púchkin. [organização e tradução Cecília Rosas]. São Paulo: Hedra Editora, 2010.
:: Pequenas tragédias. Aleksandr Púchkin. [tradução do russo, prefácio, posfácio, notas explicativas e texto de capa por Oleg Almeida]. São Paulo: Martin Claret, 2012.
:: Conto maravilhoso do tsar Saltan. Aleksandr Púchkin. [tradução e adaptação de Cecilia Rosas; ilustrações de Guenádi Spirin]. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

Poesia
:: Poesias escolhidas. Aleksandr Púchkin. [seleção e tradução de José Casado]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.
:: A dama de espadas: prosa e poemas. Aleksander Púchkin. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher; 'orelha' de Aurora Fornoni Bernardini ]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.

Dossiê Puchkin
:: Caderno de literatura e cultura russa -  Puchkin. [organização Homero Freitas de Andrade]. São Paulo: Ateliê Editorial; USP, 2004.

Antologia (participação)
Aleksander Púchkin - auto retrato
:: Os russos: antigos e modernos. [organização Rubem Braga; prefácio Aníbal M. Machado; Supervisão Graciliano Ramos; notas biográficas Valdemar Cavalcanti; tradução Dias da Costa, Aníbal Machado e outros]. Coleção Contos do Mundo. Rio de Janeiro: Companhia Editora Leitura, 1944.
:: Os colossos do conto da velha e da nova Rússia. [tradução Edison Carneiro, Frederico Reys Coutinho e outros]. Rio de Janeiro: Mundo Latino, 1944.
:: Os mais belos contos russos dos mais famosos autores. [tradução Manuel R. da Silva, Carlos Casa Nova, e outros]. 1ª Série. Rio de Janeiro: Vecchi, 1945.
:: Mar de histórias. [organização e tradução de Aurélio Buarque de Hollanda e Paulo Rónai]. vol. II.  Rio de Janeiro: José Olympio, 1951.
:: Antologia do conto russo. 8 volumes. [organização Otto Maria Carpeaux e Vera Newerowa; tradutores vários]. Rio de Janeiro: Editora Lux, 1961 - 1962.
:: Contos russos. [seleção e organização Jacob Penteado; tradução..?] . Coleção Primores do conto universal. São Paulo: Edigraf, 1962.
:: Obras-primas do conto russo. [introdução, seleção e notas de Homero Silveira; tradução..?]. Coleção Obras-Primas. São Paulo: livraria Martins, 1964.
:: Contos breves. [tradução.. ?]. Coleção Grandes Clássicos. Rio de Janeiro: Editora Otto Pierre, 1980.
:: Salada russa (Tolstói, Gorki, Púchkin, Tchêkhov).. [tradução do russo de Tatiana Belinky]. São Paulo: Editora Paulinas, 1988.
:: Sete contos russos. [organização e tradução Tatiana Belinky; ilustrações Odilon Moraes]. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1995.
:: Contos russos eternos. [organização Maria do Carmo Sepúlveda Campos; tradução José Augusto Carvalho]. Rio de Janeiro: Editora Bom Texto, 2004.
:: Contos russos: os clássicos[organização Rubem Braga; prefácio Aníbal M. Machado; Supervisão Graciliano Ramos; notas biográficas Valdemar Cavalcanti; tradução Dias da Costa, Aníbal Machado e outros]. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
:: Nova antologia do conto russo - 1792-1998. [organização Bruno Barreto Gomide; traduções de Arlete Cavaliere, Aurora Fornoni Bernardini, Boris Schnaiderman, Cecília Rosas, Daniela Mountian, Denise Sales, Fátima Bianchi, Graziela Schneider, Lucas Simone, Mário Ramos, Moissei Mountian, Natalia Marcelli de Carvalho, Nivaldo dos Santos, Noé Silva e Yulia Mikaelyan]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 2011; 3ª ed., 2013.
:: Antologia do pensamento crítico russo (1802-1901).. [organização de Bruno Barretto Gomide; traduções de Cecília Rosas, Denise Sales, Ekaterina Vólkova Américo, Graziela Schneider, Mário Ramos, Renata Esteves, Sonia Branco e Yulia Mikaelyan]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 2013.
:: Contos russos: Tomo I. [tradução do russo, introdução, notas explicativas e texto de capa por Oleg Almeida]. São Paulo: Martin Claret, 2015. 
:: Os russos. [tradução Cecília Rosas]. São Paulo: Editora Hedra, 2015.
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Saiba mais sobre as edições e traduções brasileiras da obra de Púchkin, no excelente levantamento realizado por Denise Bottmann:
BOTTMANN, Denise. púchkin no brasil, I*. Disponível no link. (acessado em 9.8.2016).
_________ . púchkin no brasil, II. Disponível no link. (acessado em 9.8.2016).
_________ . Denise. mais chacalices*. 31.3.2009. Disponível no link. (acessado em 28.8.2016).

PORTUGAL
:: O cavaleiro de bronze e Outros poemas. Aleksandr Púchkin[selecção, tradução Nina Guerra e Filipe Guerra]. Lisboa: Assírio & Alvim. Lisboa, 1999.
:: Contos de Aleksandr Púchkin. [tradução e notas Nina Guerra e Filipe Guerra]. Lisboa: Relógio d'Água, 2003.


Aleksandr Púchkin
SELETA DE POEMAS DE ALEKSANDR PÚCHKIN (EDIÇÃO BILÍNGUE)

Mas,*

tardes de borrasca –
todos à tasca!

Trucavam: cem mais cem!

Que Deus no além
lhes perdoe (Amem!).

Apostas, riscos, bis!

Quem ganha faz um x
com giz.

Tardes de borrasca.

Encargos graves
na tasca.
.

А в ненастные дни

Собирались они
Часто;
Гнули — бог их прости! —
От пятидесяти
На сто,
И выигрывали,
И отписывали
Мелом.
Так, в ненастные дни,
Занимались они
Делом.
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин).. [tradução Haroldo de Campos].
* Esta Epígrafe em versos ao conto “A dama de espadas” de Aleksander Púchkin foi traduzida, a pedido de Boris Schnaiderman, por Haroldo de Campos.

§


O DEMÔNIO
Quando não me era ainda insossa 
cada impressão da vida outrora
– rumor de bosque, olhar de moça,
canção de rouxinol na aurora –
e quando a liberdade, o amor,
a glória, as artes, o melhor
da inspiração e altas idéias
turvavam-me o sangue nas veias,
um certo espírito nefando,
trazendo angústia e me anuviando
horas confiantes de prazer,
passou, em sigilo, a me ver.
O nosso encontro era sombrio
e ele sorria com o olhar
cheio de escárnio ao me instilar
dentro da alma um veneno frio.
Pois caluniava sem receio
e desafiava a Providência,
julgava o Belo – um devaneio,
a Inspiração – tolice imensa,
o amor e a liberdade – vis.
E, olhando altivo, com profundo
desprezo, a vida, ele não quis
abençoar nada em todo o mundo.

(1823)
.

ДЕМОН
В те дни, когда мне были новы
Все впечатленья бытия —
И взоры дев, и шум дубровы,
И ночью пенье соловья, —
Когда возвышенные чувства,
Свобода, слава и любовь
И вдохновенные искусства
Так сильно волновали кровь, —
Часы надежд и наслаждений
Тоской внезапной осеня,
Тогда какой-то злобный гений
Стал тайно навещать меня.
Печальны были наши встречи:
Его улыбка, чудный взгляд,
Его язвительные речи
Вливали в душу хладный яд.
Неистощимой клеветою
Он провиденье искушал;
Он звал прекрасное мечтою;
Он вдохновенье презирал;
Не верил он любви, свободе;
На жизнь насмешливо глядел —
И ничего во всей природе
Благословить он не хотел.

(1823)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). A dama de espadas: prosa e poemas. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.

§

Aleksander Púchkin - menino
O SEMEADOR
O semeador saiu para semear

Eu semeador, deserto afora,
da liberdade, fui com mão 
pura lançar, antes que a aurora
nascesse, o grão que revigora
no sulcos vis da escravidão.
Mas todo esforço foi em vão:
joguei vontade e tempo fora.

Pasce, pois eu te repudio,
ralé submissa e surda ao brio.
Libertar gado é faina ingrata,
pois gado se tosquia e mata.
Herda, por gerações a fio,
canga, chocalhos e chibata.

(1823)
.

Изыде сеятель сеяти семена своя.

Свободы сеятель пустынный,
Я вышел рано, до звезды;
Рукою чистой и безвинной
В порабощенные бразды
Бросал живительное семя —
Но потерял я только время,
Благие мысли и труды...

Паситесь, мирные народы!
Вас не разбудит чести клич.
К чему стадам дары свободы?
Их должно резать или стричь.
Наследство их из рода в роды
Ярмо с гремушками да бич.


(1823)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). A dama de espadas: prosa e poemas. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.

§

A UVA
Não choro, finda a primavera 
ligeira, a rosa que definha, 
pois, maturando numa vinha 
ao pé do monte, a uva me espera: 
primor do vale viridente, 
deleite do dourado outono,
tão diáfana e tão longo como
os dedos de uma adolescente.

(1824)
.

ВИНОГРАД
Не стану я жалеть о розах,
Увядших с легкою весной;
Мне мил и виноград на лозах,
В кистях созревший под горой,
Краса моей долины злачной,
Отрада осени златой,
Продолговатый и прозрачный,
Как персты девы молодой.

(1824)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). A dama de espadas: prosa e poemas. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.

§

O PROSADOR E O POETA
Por que te inquietas, prosador?
Escolhe os temas e, ao que for,
eu darei gume, alada rima,
e farei dele flecha exímia
que, após deixar a corda tesa
do arco dobrado servilmente,
voará certeira até que a presa,
nosso inimigo, se lamente!

(1825)
.

ПРОЗАИК И ПОЭТ
О чем, прозаик, ты хлопочешь?
Давай мне мысль какую хочешь:
Ее с конца я завострю,
Летучей рифмой оперю,
Взложу на тетиву тугую,
Послушный лук согну в дугу,
А там пошлю наудалую,
И горе нашему врагу!

(1825)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). A dama de espadas: prosa e poemas. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.

§

PARA ***


Recordo o luminoso instante
quando eu, tomado de surpresa,
te vi: súbita imagem, diante
de mim, da essência da beleza.

Desesperado e triste, a sós
no caos do mundo, ouvi durante
anos, em mim, a tua voz, 
vi, no meu sonho, teu semblante.

Passou o tempo; um vento atroz
varreu meu sonho ao seu talante,
e não ouvi mais tua voz,
deixei de ver o teu semblante.

Minha existência se esvaía
no exilio inóspito e incolor,
sem vida, lágrimas, poesia,
sem divindade nem amor.

Reapareceste e nesse instante
minha alma despertou surpresa;
revi, súbita imagem distante
de mim, a essência da beleza.

Meu peito, cheio de alegria,
bate de novo; há no interior
dele outra vez vida, poesia,
lágrimas, divindade, amor.

(1825)
.

К ***

Я помню чудное мгновенье:
Передо мной явилась ты,
Как мимолетное виденье,
Как гений чистой красоты.

В томленьях грусти безнадежной
В тревогах шумной суеты,
Звучал мне долго голос нежный
И снились милые черты.

Шли годы. Бурь порыв мятежный
Рассеял прежние мечты,
И я забыл твой голос нежный,
Твой небесные черты.

В глуши, во мраке заточенья
Тянулись тихо дни мои
Без божества, без вдохновенья,
Без слез, без жизни, без любви.

Душе настало пробужденье:
И вот опять явилась ты,
Как мимолетное виденье,
Как гений чистой красоты.

И сердце бьется в упоенье,
И для него воскресли вновь
И божество, и вдохновенье,
И жизнь, и слезы, и любовь.

(1825)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). A dama de espadas: prosa e poemas. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.

§


ALEXANDRE I
Junto aos tambores, nosso tsar
criou-se e, capitão sem par,
em Austerlitz debandou cedo,
no ano de doze teve medo,
mas como, até cansar-se, foi
Santo Instrutor de marcha, o herói
tornou-se enfim vice-assessor
no Ministério do Exterior.



(1825)
.

НА АЛЕКСАНДРА I
Воспитанный под барабаном,
Наш царь лихим был капитаном:
Под Австерлицем он бежал,
В двенадцатом году дрожал,
Зато был фрунтовой профессор!
Но фрунт герою надоел —
Теперь коллежский он асессор
По части иностранных дел!

(1825)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). A dama de espadas: prosa e poemas. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.

§

PARA VIÁZEMSKI*
O mar, terror antigo, inflama 
num tempo infame a tua mente?
Louvas com lira de ouro a fama
do atroz Netuno e seu tridente.

Desiste: o deus se fez parceiro
da terra e o homem no momento
é, tanto faz em que elemento,
traidor, tirano ou prisioneiro.



(1826)
.

К ВЯЗЕМСКОМУ
Так море, древний душегубец,
Воспламеняет гений твой?
Ты славишь лирой золотой
Нептуна грозного трезубец.

Не славь его. В наш гнусный век
Седой Нептун Земли союзник.
На всех стихиях человек -
Тиран, предатель или узник. 

(1826)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). A dama de espadas: prosa e poemas. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.
* Púchkin dedicou este poema a seu amigo, o também poeta Пëтр Андре́евич Вя́земский – P. A. Viázemski (1792 1878).

§

Aleksander Púchkin - jovem
O PROFETA
Num ermo, eu de âmago sedento
já me arrastava e, frente a mim,
surgiu com seis asas ao vento,
na encruzilhada, um serafim;
ele me abriu, com dedos vagos
qual sono, os olhos que, pressagos,
tudo abarcaram com presteza
que nem olhar de águia surpresa;
ele tocou-me cada ouvido
e ambos se encheram de alarido:
ouvi mover-se o firmamento,
anjos cruzando o céu, rasteiras
criaturas sob o mar e o lento
crescer, no vale, das videiras.
Junto a meus lábios, rasgou minha
língua arrogante, que não tinha,
salvo enganar, qualquer intuito,
da boca fria onde, depois,
com mão sangrenta ele me pôs
um aguilhão de ofídio arguto.
Vibrando o gládio com porfia,
tirou-me o coração do peito
e colocou carvão que ardia
dentro do meu tórax desfeito.
Jazendo eu hirto no deserto,
o Senhor disse-me: "Olho aberto,
de pé, profeta e, com teu verbo,
cruzando as terras, os oceanos,
cheio do meu afã soberbo,
inflama os corações humanos!"

(1826)
.

ПРОРОК
Духовной жаждою томим,
В пустыне мрачной я влачился, —
И шестикрылый серафим
На перепутье мне явился.
Перстами легкими как сон
Моих зениц коснулся он.
Отверзлись вещие зеницы,
Как у испуганной орлицы.
Моих ушей коснулся он, —
И их наполнил шум и звон:
И внял я неба содроганье,
И горний ангелов полет,
И гад морских подводный ход,
И дольней лозы прозябанье.
И он к устам моим приник,
И вырвал грешный мой язык,
И празднословный и лукавый,
И жало мудрыя змеи
В уста замершие мои
Вложил десницею кровавой.
И он мне грудь рассек мечом,
И сердце трепетное вынул,
И угль, пылающий огнем,
Во грудь отверстую водвинул.
Как труп в пустыне я лежал,
И бога глас ко мне воззвал:

(1826)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). A dama de espadas: prosa e poemas. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.

§

ÁRION
Muitos singrávamos: havia 
quem retesasse a vela e quem 
remasse enérgico também. 
Calado em meio à calmaria, 
o hábil piloto estava à frente, 
firme ao timão, da nau pesada. 
E eu lhes cantava sem de nada 
cuidar quando a tormenta brada, 
traga a equipagem de repente 
e rasga as ondas sem repouso. 
Só eu, cantor misterioso, 
salvo que fui pela rajada, 
estou na praia e canto um hino, 
sob um rochedo, ao sol a pino,
secando a clâmide molhada.

(1827)
.

АРИОН
Нас было много на челне;
Иные парус напрягали,
Другие дружно упирали
В глубь мощны веслы. В тишине
На руль склонись, наш кормщик умный
В молчанье правил грузный челн;
А я - беспечной веры полн,-
Пловцам я пел... Вдруг лоно волн
Измял с налету вихорь шумный...
Погиб и кормщик и пловец! -
Лишь я, таинственный певец,
На берег выброшен грозою,
Я гимны прежние пою
И ризу влажную мою
Сушу на солнце под скалою.

(1827)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). A dama de espadas: prosa e poemas. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.

§

MENSAGEM À SIBÉRIA
Fundo nos veios da Sibéria,
tende paciência e brio: jamais
é vão sofrer pena severa
quando são altos os ideais.
     
Constante irmã da desventura,
logo a esperança propicia
júbilo e ardor na furna escura;
há de chegar o ansiado dia:
     
hão de alcançar-vos amizade
e amor, rompendo a tranca atroz,
como, através de muro ou grade,
chega-vos livre a minha voz.
     
Vereis, sem peso de  correntes,
ante as masmorras arrasadas,
a liberdade – e irmãos contentes
devolverão vossas espadas.

(1827)
.

"Во глубине сибирских руд" (В Сибирь).

Во глубине сибирских руд 
Храните гордое терпенье, 
Не пропадет ваш скорбный труд 
И дум высокое стремленье. 
     
Несчастью верная сестра, 
Надежда в мрачном подземелье 
Разбудит бодрость и веселье, 
Придет желанная пора: 
     
Любовь и дружество до вас 
Дойдут сквозь мрачные затворы, 
Как в ваши каторжные норы 
Доходит мой свободный глас. 
     
Оковы тяжкие падут, 
Темницы рухнут - и свобода 
Вас примет радостно у входа, 
И братья меч вам отдадут.

(1827)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). A dama de espadas: prosa e poemas. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.

§

Aleksander Púchkin
DOM INÚTIL...
Dom inútil, dom fortuito,
por que a vida me foi dada?
E o destino, com que intuito
a condena a um fim: o nada?

Que poder hostil, do pó,
suscitou minha alma ardente
e lhe deu paixão, mas só
dúvida à minha mente?

Sigo a esmo de ermo peito,
mente ociosa e, sem saída,
pesaroso, eu me sujeito
ao maçante som da vida.

26 de maio de 1828 –
data em que Púchkin fez 29 anos
.

26 МАЯ 1828
Дар напрасный, дар случайный,
Жизнь, зачем ты мне дана?
Иль зачем судьбою тайной
Ты на казнь осуждена?

Кто меня враждебной властью
Из ничтожества воззвал,
Душу мне наполнил страстью,
Ум сомненьем взволновал?..

Цели нет передо мною:
Сердце пусто, празден ум,
И томит меня тоскою
Однозвучный жизни шум.
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). A dama de espadas: prosa e poemas. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.

§

CORVOS*
Corvo junto a corvo pousa, 
corvo e corvo puxam prosa: 
“Onde encontraremos nosso 
alimento para o almoço?” 

Corvo a corvo então responde: 
“Ei-lo, corvo, já sei onde — 
lá debaixo do salgueiro, 
jaz no prado um cavaleiro. 

Quanto a quem, por que razão, 
o matou, só seu falcão, 
seu corcel e noiva têm 
isso claro — mais ninguém.

O falcão sumiu no céu. 
Quem fez mal monta o corcel. 
E eis que a noiva aguarda o noivo,
não o morto, mas o novo”.

(1828)
.

Ворон к ворону летит,
Ворон ворону кричит:
Ворон! где б нам отобедать?
Как бы нам о том проведать?

Ворон ворону в ответ:
Знаю, будет нам обед;
В чистом поле под ракитой
Богатырь лежит убитый.

Кем убит и отчего,
Знает сокол лишь его,
Да кобылка вороная,
Да хозяйка молодая.

Сокол в рощу улетел,
На кобылку недруг сел,
А хозяйка ждет мило́го
Не убитого, живого.

(1828)
* Segundo foi apontado por Edwin Morgan, poeta escocês e tradutor, que transpôs poemas de Púchkin para o inglês e o escocês, este poema é paráfrase de uma balada escocesa. A balada vem transcrita a seguir, seguida de tradução por Nelson Ascher:
.

OS DOIS CORVOS 
Sozinho eu caminhava quando, 
Ouvi dois corvos conversando: 
Um disse ao outro “em que lugar 
Havemos hoje de almoçar?”

“Vi um cavaleiro há pouco ao lado 
Do velho açude — assassinado — 
Mas sabem disso e onde repousa 
Só seu falcão, seu cão e a esposa.

“Seu falcão voa atrás de um bando 
De aves, seu cão está caçando,
A esposa tem outro em seu leito:
Podemos, pois, comer direito.

Hás de pousar no seu pescoço;
Comerei olho azul no almoço;
Tomando-lhe uma mecha loira,
Faremos nosso ninho agora.

“Malgrado o unânime lamento,
Ninguém saberá dele – o vento
Vai soprar sobre a descarnada
E alva nudez de sua ossada.”
.

THE TWA CORBIES 
(Scottish Version)
As I was walking all alane  
I heard twa corbies making a mane:  
The tane unto the tither did say,  
'Whar sall we gang and dine the day?'  

 '—In behint yon auld fail dyke        
I wot there lies a new-slain knight;  
And naebody kens that he lies there  
But his hawk, his hound, and his lady fair.  
'His hound is to the hunting gane,  
His hawk to fetch the wild-fowl hame,  
His lady 's ta'en anither mate,  
So we may mak our dinner sweet.  
'Ye'll sit on his white hause-bane,  
And I'll pike out his bonny blue e'en:  
Wi' ae lock o' his gowden hair  
We'll theek our nest when it grows bare.  
'Mony a one for him maks mane,  
But nane sall ken whar he is gane:  
O'er his white banes, when they are bare,  
The wind sall blaw for evermair.'
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). A dama de espadas: prosa e poemas. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.

§  

O ANTCHAR *
It is a poison-tree that pierced to the inmost 
Weeps only tears of poison. 
             Coleridge 
.
No solo em brasa do lugar 
mais desolado, seco, adverso, 
qual sentinela atroz, o anichar 
se ergue sozinho no universo. 

A sede elementar dos ermos, 
que o fez num dia de ira, imbuiu, 
tanto seus ramos verde-enfermos 
quanto a raiz, de seiva hostil. 

Sua casca, sob o sol, a exsuda 
viscosa e, assim que ele declina, 
essa peçonha se transmuda 
em goma espessa e cristalina. 

Nada o visita — ave nem tigre — 
exceto, às vezes, a tormenta 
que paira escura antes que migre 
de lá veloz e pestilenta.

Se a nuvem ao vagar lhe molha 
a densa copa, a chuva priva 
com seu veneno em cada folha 
e chega ao solo já nociva.

Um homem, com olhar de mando, 
enviou, porém, outro ao antchar 
e o homem servil se foi, voltando 
com sua resina ao clarear. 

Também trazia um ramo cheio 
de folhas murchas, e um riacho 
de suor gelado, quando veio, 
jorrava por seu rosto abaixo.

Mal viera, o escravo esmoreceu, 
caiu na tenda e sobre a esteira 
jazeu, morrendo aos pés do seu 
rei, que ninguém jamais vencera. 

E este, com setas obedientes 
que repassara na resina, 
levou às terras de outras gentes 
conflagração, morte e ruína. 

(1828)
.

АНЧАР*
В пустыне чахлой и скупой,
На почве, зноем раскаленной,
Анчар, как грозный часовой,
Стоит — один во всей вселенной.

Природа жаждущих степей
Его в день гнева породила,
И зелень мертвую ветвей
И корни ядом напоила.

Яд каплет сквозь его кору,
К полудню растопясь от зною,
И застывает ввечеру
Густой прозрачною смолою.

К нему и птица не летит,
И тигр нейдет: лишь вихорь черный
На древо смерти набежит —
И мчится прочь, уже тлетворный.

И если туча оросит,
Блуждая, лист его дремучий,
С его ветвей, уж ядовит,
Стекает дождь в песок горючий.

Но человека человек
Послал к анчару властным взглядом,
И тот послушно в путь потек
И к утру возвратился с ядом.

Принес он смертную смолу
Да ветвь с увядшими листами,
И пот по бледному челу
Струился хладными ручьями;

Принес — и ослабел и лег
Под сводом шалаша на лыки,
И умер бедный раб у ног
Непобедимого владыки.

А царь тем ядом напитал
Свои послушливые стрелы
И с ними гибель разослал
К соседям в чуждые пределы.

(1828)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). A dama de espadas: prosa e poemas. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.
* Conforme nota de Púchkin, Antchar é uma árvore venenosa. Antchar é uma árvore do Arquipélago Malaio, trata-se da Antiatiris Taxicaria.
* Древо яда (Примечание Пушкина)

§

Alexander Pushkin, por Orest Kiprensky, (1827)
O CAVALEIRO POBRE 
Noutros tempos existiu 
certo cavaleiro pobre, 
tinha ar pálido e sombrio, 
porém alma audaz e nobre. 

Ele amava uma visão 
intangível para a mente, 
mas que no seu coração 
enraizou-se fundamente. 

Pois rumo a Genebra havia 
visto, junto de uma cruz 
na estrada, a Virgem Maria, 
a mãe santa de Jesus. 

Depois, alma em chamas, não 
olhou mais outra mulher, 
nem falou mais, desde então, 
com nenhuma até morrer. 

Desde então jamais tirou 
a viseira do seu rosto
e um rosário colocou
onde o cachecol é posto.

Pai, Filho e Espírito Santo 
nunca ouviram rezas desse 
paladino que, portanto, 
só causava mesmo espécie. 

Dirigindo, noite e dia, 
tristes olhos ao semblante 
da Santíssima, vertia 
mudamente rios de pranto. 

Fez do sonho a sua lei, 
transbordava amor e, fiel, 
gravou Ave Mater Dei 
com sangue no seu broquel. 

Quando os outros paladinos, 
suas damas nomeando, 
pelos prados palestinos, 
confrontaram tíbios bandos,

Lumen Coelum, Sancta Rosa 
ele proclamava ufano
e sua ameaça irosa
debandava o mulçumano.

De regresso ao seu castelo,
pôs-se em dura reclusão,
triste, amando ainda com zelo,
e morreu sem confissão.

Falecia o cavaleiro
quando o espirito maligno
veio e quis levar ligeiro
a alma dele ao seu domínio:

não jejuara nem rezara
ao Senhor nunca e, além disto,
arrastou a asa à preclara
mãe do próprio Jesus Cristo.

A Puríssima, contudo,
sem deixá-lo ir para o inferno,
fez seu paladino mudo
penetrar no Reino Eterno.

(1829)
.

Путешествуя в Женеву,
На дороге у креста
Видел он Марию деву,
Матерь господа Христа.

С той поры, сгорев душою,
Он на женщин не смотрел,
И до гроба ни с одною
Молвить слова не хотел.

С той поры стальной решетки
Он с лица не подымал
И себе на шею четки
Вместо шарфа привязал.

Несть мольбы Отцу, ни Сыну,
Ни святому Духу ввек
Не случилось паладину,
Странный был он человек.

Проводил он целы ночи
Перед ликом пресвятой,
Устремив к ней скорбны очи,
Тихо слезы лья рекой.

Полон верой и любовью,
Верен набожной мечте,
Ave, Mater Dei* кровью
Написал он на щите.

Между тем как паладины
Ввстречу трепетным врагам
По равнинам Палестины
Мчались, именуя дам,

Lumen coelum, sancta Rosa!**
Восклицал всех громче он,
И гнала его угроза
Мусульман со всех сторон.

Возвратясь в свой замок дальный,
Жил он строго заключен,
Все влюбленный, все печальный,
Без причастья умер он;

Между тем как он кончался,
Дух лукавый подоспел,
Душу рыцаря сбирался
Бес тащить уж в свой предел:

Он-де богу не молился,
Он не ведал-де поста,
Не путем-де волочился
Он за матушкой Христа.

Но пречистая сердечно
Заступилась за него
И впустила в царство вечно
Паладина своего.

* Радуйся, матерь божия (лат.).
** Свет небес, святая роза (лат.).
(1829)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). A dama de espadas: prosa e poemas. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.

§

AMEI-TE...
Amei-te – e pode ainda ser que parte
do amor esteja viva na minha alma.
Mas isto, pois em nada hei de magoart-te, 
não deve mais tirar a tua calma.
Sem esperança e mudo em meu quebranto,
morto de ciúme e timidez também,
eu te amei tão sincero e terno quanto
permita Deus que te ame um outro alguém.

(1829)
.

Я вас любил: любовь еще, быть может,
В душе моей угасла не совсем;
Но пусть она вас больше не тревожит;
Я не хочу печалить вас ничем.
Я вас любил безмолвно, безнадежно,
То робостью, то ревностью томим;
Я вас любил так искренно, так нежно,
Как дай вам бог любимой быть другим.

(1829)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). A dama de espadas: prosa e poemas. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 1999; 3ª ed., 2013.

§

Do Evguiéni Oniéguin

Dedicatória

Não penso agradar o mundo fátuo,
Importam-me os amigos, o afeto.
Que prazer me daria, de fato,
Oferecer-te um dom mais seleto,
Mais digno de ti, alma rara,
Da pureza do sonho que anelo,
Perfeito, poesia viva e clara,
Do pensamento altivo e singelo.
Mesmo assim... tua mão não desampara
O rol furta-cor destes capítulos,
Notas tristes, notas humorísticas,
Temas populares, idealistas,
Passatempos, frutos sem mais vínculo
Da insônia, da afoita inspiração,
Dos anos imaturos e murchos,
Da gélida argúcia da razão,
Do coração, doridos rascunhos.
.

Из «Евгения Онегина»
Не мысля гордый свет забавить,
Вниманье дружбы возлюбя,
Хотел бы я тебе представить
Залог достойнее тебя,
Достойнее души прекрасной,
Святой исполненной мечты,
Поэзии живой и ясной,
Высоких дум и простоты;
Но так и быть — рукой пристрастной
Прими собранье пестрых глав,
Полусмешных, полупечальных,
Простонародных, идеальных,
Небрежный плод моих забав,
Бессонниц, легких вдохновений,
Незрелых и увядших лет,
Ума холодных наблюдений
И сердца горестных замет.


Capítulo 3

XXVI

Mais um outro problema já prevejo:
Para manter o honor da pátria vivo,
Terei de traduzir – é o que antevejo! –
A carta de Tatiana. Há um bom motivo:
Da língua russa, pouco ela sabia.
Revistas nossas? Não. Jamais as lia.
E, claudicante, nosso idioma pátrio
Escapava aos tropeços dos seus lábios.
Assim, para escrever, só o francês...
Que fazer! Eu repito uma outra vez:
Até o presente, o altivo idioma russo
Para o amor feminino não teve uso.
Até o presente, a língua nacional
Jamais rendeu-se à prosa-via-postal.
.

XXVI

Ещё предвижу затрудненья:
Родной земли спасая честь,
Я должен буду, без сомненья,
Письмо Татьяны перевесть.
Она по-русски плохо знала,
Журналов наших не читала,
И выражалася с трудом
На языке своём родном,
Итак, писала по-французки...
Что делать! Повторяю вновь:
Доныне дамская любовь
Не изъяснялася по-русски,
Доныне гордый наш язык
К почтовой прозе не привык.
.

Capítulo 8

XLIX

Leitor, sejas quem for, amigo ou
Não, pouco me importa: em tom cordial
Quero despedir-me e também vou
Pedir desculpas. Qual o fim, qual
A meta? Que procuras na incúria
Dos meus versos? Memórias em fúria?
Remanso? Descanso da fadiga?
Quadros vivos? Verbo que fustiga?
Ou somente erros de gramática?
Queira Deus encontres neste opúsculo
Para o devaneio, para o júbilo
Do espírito, algo, alguma tática
De imprensa, entreveros, nada, um grão.
Adeus. Separemo-nos. Perdão.
.

XLIX

Кто б ни был ты, о мой читатель,
Друг, недруг, я хочу с тобой
Расстаться нынче как приятель.
Прости. Чего бы ты за мной
Здесь ни искал в строфах небрежных,
Воспоминаний ли мятежных,
Отдохновенья ль от трудов,
Живых картин, иль острых слов,
Иль грамматических ошибок,
Дай бог, чтоб в этой книжке ты
Для развлеченья, для мечты,
Для сердца, для журнальных сшибок,
Хотя крупицу мог найти.
За сим расстанемся, прости!
.

L
Meu conviva, estranho acompanhante
De andanças, perdoa-me, Ideal
Fiel. E tu, vívido, constante,
Discreto labor, graças ao qual
Tudo o que o poeta mais inveja
Conheci: num mundo que troveja,
Esquecer a vida, nas amenas
Conversas de amigos. Já centenas
De dias voaram desde quando
Tatiana e Oniéguin, visão
De sonho, me surgiram. Então,
Longe, um livro-livre divisando –
Magia! – um romance no cristal
Entrevi: meus olhos viam mal.
.

L
Прости ж и ты, мой спутник странный,
И ты, мой верный идеал,
И ты, живой и постоянный,
Хоть малый труд. Я с вами знал
Всё, что завидно для поэта:
Забвенье жизни в бурях света,
Беседу сладкую друзей.
Промчалось много, много дней
С тех пор, как юная Татьяна
И с ней Онегин в смутном сне
Явилися впервые мне.
И даль свободного романа
Я сквозь магический кристалл
Ещё не ясно различал.
.

LI
E aqueles a quem li, entre amigos,
As primeiras estrofes? Quem há de
Saber deles? “Uns não são mais vivos,
Outros estão longe”, cantou Sáadi.
Sem eles, concluí meu Oniéguin.
E ela, a cuja imagem persegue
O meigo ideal de Tatiana...
A muitos a sorte soberana
Quebrantou. Feliz quem do festim
Da vida partiu mais cedo, sem
Esgotar a taça. Feliz quem
Não leu o romance até o fim
E súbito dele se despede
Assim, como eu do meu Oniéguin.
.

LI
Но те, которым в дружной встрече
Я строфы первые читал...
Иных уж нет, а те далече,
Как Сади некогда сказал.
Без них Онегин дорисован.
А та, с которой образован
Татьяны милый идеал...
О много, много рок отъял!
Блажен, кто праздник жизни рано
Оставил, не допив до дна
Бокала полного вина,
Кто не дочёл её романа
И вдруг умел расстаться с ним,
Как я с Онегиным моим.
- Aleksandr Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин).. {tradução de Boris Schnaiderman e Haroldo de Campos}. em "Dossiê Púchkin". [organizado por Homero Freitas de Andrade] Revista Caderno de Literatura e Cultura Russa – nº 1: publicação bienal do Curso de Língua e Literatura Russa do dlo/fflch da Universidade de São Paulo. São Paulo, Ateliê Editorial, março 2004. p. 185- 189.

§ 

ЗОЛОТО И БУЛАТ
“Всё моё”, — сказало злато;
“Всё моё”, — сказал булат.
“Всё куплю”, — сказало злато;
“Всё возьму”, — сказал булат.

Transliteração:

ZÓLOTO I BULAT
“Vsió moió”, — skazalo zlato;
“Vsió moió”, — skazal bulat.
“Vsió kupliú”, — skazalo zlato;
“Vsió vozmú”, — skazal bulat.

Tradução:

O OURO E O SABRE
“Tudo é meu”, – disse o oiro2
 “Tudo é meu”, – disse o sabre.
“Tudo comprarei”, – disse o oiro;
“Tudo tomarei”, – disse o sabre.
- Aleksandr Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин).. [tradução Homero Freitas de Andrade]. Roman Jakobson Como foi Feita uma Quadra de Púchkin, em "Dossiê Púchkin". [organizado por Homero Freitas de Andrade] Revista Caderno de Literatura e Cultura Russa – nº 1: publicação bienal do Curso de Língua e Literatura Russa do dlo/fflch da Universidade de São Paulo. São Paulo, Ateliê Editorial, março 2004, p. 49-52.

§

A TCHAADÁEV
Amor, glória quieta e esperança
Foram nossa breve ilusão;
Passou dessa quadra a folgança:
Sono, matinal cerração.
Mas arde em nós inda vontade:
Nosso impaciente coração
Da pátria sob autoridade
Fatal ouve a convocação.
Aguardamos com fé estuante
Da hora da liberdade soar,
Tal como aguarda o moço amante
A hora do encontro regular.
Enquanto o ardente coração
Incitam honra e liberdade,
Do íntimo a nobre agitação
Demos à pátria, amigo, e à idade.
Crê, camarada: elevar-se-á
Feliz estrela de almo dia;
Do sono a Rússia acordará
E na aversão da autocracia
Teu nome e o meu escreverá.

(1818)
.

К ЧААДАЕВУ
Любви, надежды, тихой славы
Недолго нежил нас обман,
Исчезли юные забавы,
Как сон, как утренний туман;
Но в нас горит еще желанье,
Под гнетом власти роковой
Нетерпеливою душой
Отчизны внемлем призыванье.
Мы ждем с томленьем упованья
Минуты вольности святой,
Как ждет любовник молодой
Минуты верного свиданья.
Пока свободою горим,
Пока сердца для чести живы,
Мой друг, отчизне посвятим
Души прекрасные порывы!
Товарищ, верь: взойдет она,
Звезда пленительного счастья,
Россия вспрянет ото сна,
И на обломках самовластья
Напишут наши имена!

(1818)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). em "Poesias escolhidas. Aleksandr Púchkin". [seleção e tradução de José Casado]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

§

CANÇÃO BÁQUICA
Que fez calar a alegre voz?
Ressoai, canções licenciosas!
Bem-vindas, moças carinhosas
E esposas tão jovens que amáveis a nós!
As taças enchei sem tardança!
No vinho a espumar,
No fundo, o jogar
Vinde (e ouvi-las soar) cada aliança!
Cada taça se erga, de vez seja finda!
Bem-vindas, ó musas; Razão, sê bem-vinda!
Astro sagrado, arde tu, sol!
Como o lampião empalidece
Ao claro surgir do arrebol,
Assim o saber falso hesita e esvanece
Ante o imortal sol da Razão.
Bem-vindo sê tu, sol; vai-te negridão!

(1825)
.

ВАКХИЧЕСКАЯ ПЕСНЯ
Что смолкнул веселия глас?
Раздайтесь, вакхальны припевы!
Да здравствуют нежные девы
И юные жены, любившие нас!
Полнее стакан наливайте!
На звонкое дно
В густое вино
Заветные кольца бросайте!
Подымем стаканы, содвинем их разом!
Да здравствуют музы, да здравствует разум!
Ты, солнце святое, гори!
Как эта лампада бледнеет
Пред ясным восходом зари,
Так ложная мудрость мерцает и тлеет
Пред солнцем бессмертным ума.
Да здравствует солнце, да скроется тьма!

(1825)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). em "Poesias escolhidas. Aleksandr Púchkin". [seleção e tradução de José Casado]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

§

A CARTA INCINERADA
Adeus, carta de amor, adeus; assim quis ela...
Muito procrastinei, muito à chama da vela
Meu regozijo eu não me decidi a opor!
Basta, o instante chegou: arde, carta de amor.
Minha alma (pronto estou) outro ato não concebe.
As páginas,voraz, o calor já recebe...
Inflamaram-se após instante... e a fumaçar,
sobem, perdem-se com minhas súplicas no ar.
A esvair-se a impressão fiel do anel - sinete
- Ó Providência - , o lacre, em brasa já derrete...
Cada folha se enrola, então cor de carvão.
Era fatal! Na cinza a oculta alma e expressão
Branqueja...O peito meu contrai-se. Cinza amada,
Refrigério infeliz de sorte desgraçada,
Serás sempre sobre este aflito coração.

(1825)
.

СОЖЖЕННОЕ ПИСЬМО
Прощай, письмо любви! прощай: она велела.
Как долго медлил я! как долго не хотела
Рука предать огню все радости мои!..
Но полно, час настал. Гори, письмо любви.
Готов я; ничему душа моя не внемлет.
Уж пламя жадное листы твои приемлет...
Минуту!.. вспыхнули! пылают — легкий дым
Виясь, теряется с молением моим.
Уж перстня верного утратя впечатленье,
Растопленный сургуч кипит... О провиденье!
Свершилось! Темные свернулися листы;
На легком пепле их заветные черты
Белеют... Грудь моя стеснилась. Пепел милый,
Отрада бедная в судьбе моей унылой,
Останься век со мной на горестной груди...

(1825)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). em "Poesias escolhidas. Aleksandr Púchkin". [seleção e tradução de José Casado]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

§

O TU E O VÓS
Ela o vós neutro, sem querer,
Trocou no tu afetuoso;
Fez-me de ventura nascer
Sonhos no espírito amoroso.
Demoro, pensativo, ali:
Não mais fitá-la é-me impensável.
E digo: “Como sois amável!”
Mas penso:”Como quero a ti”.

(1828)
.

ТЫ И ВЫ
Пустое вы сердечным ты
Она, обмолвясь, заменила
И все счастливые мечты
В душе влюбленной возбудила.
Пред ней задумчиво стою,
Свести очей с нее нет силы;
И говорю ей: как вы милы!
И мыслю: как тебя люблю!

(1828)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). em "Poesias escolhidas. Aleksandr Púchkin". [seleção e tradução de José Casado]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

§

Aleksander Púchkin
MANHÃ DE INVERNO
Há frio e sol: que manhã linda!
Tu, meu primor, dormes ainda.
É tempo, ó bela, de acordar.
Desvenda o olhar que o torpor cerra,
Encara a aurora sobre a terra
Qual fosses novo astro polar!

À noite, neve e tempestade
Houve e, no céu, névoa, verdade?
A mancha lívida do luar
Nos nimbos era amarelada.
Tristonha estavas e sentada;
E ora... à janela vem olhar:

Ao claro azul do céu que esplende,
Tapete raro que se estende,
A neve jaz a fulgurar;
O bosque, só, sobressai, preto;
Verdeja, sob a geada, o abeto;
Sob gelo, eis a água a lucilar.

Faz-se ambarino o quarto inteiro.
Vem estalido prazenteiro
Do recém-aceso fogão.
Meditar perto dele é grato.
Mas dize: queres que, neste ato,
A poldra parda atrele, não?

A deslizar na neve, amada,
Dar-nos-emos à galopada
Do equino e sua agitação.
Iremos ver os nus e imensos
Campos, faz pouco inda tão densos,
E a praia de minha afeição.

(1829)
.

ЗИМНЕЕ УТРО
Мороз и солнце; день чудесный!
Еще ты дремлешь, друг прелестный —
Пора, красавица, проснись:
Открой сомкнуты негой взоры
Навстречу северной Авроры,
Звездою севера явись!

Вечор, ты помнишь, вьюга злилась,
На мутном небе мгла носилась;
Луна, как бледное пятно,
Сквозь тучи мрачные желтела,
И ты печальная сидела —
А нынче... погляди в окно:

Под голубыми небесами
Великолепными коврами,
Блестя на солнце, снег лежит;
Прозрачный лес один чернеет,
И ель сквозь иней зеленеет,
И речка подо льдом блестит.

Вся комната янтарным блеском
Озарена. Веселым треском
Трещит затопленная печь.
Приятно думать у лежанки.
Но знаешь: не велеть ли в санки
Кобылку бурую запречь?

(1829)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). em "Poesias escolhidas. Aleksandr Púchkin". [seleção e tradução de José Casado]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

§

PRESSÁGIOS
Eu ia vê-la, e profusão
De alegres sonhos me nascia;
À mão direita a lua então,
Ardente, a marcha me seguia.

Eu já voltava, a profusão
Era diversa: eu suspirava...
À mão esquerda a lua então,
Tristonha, a marcha me observava.

Aos surtos da imaginação,
Poetas, na calma, assim nos damos;
Assim, da crendice os reclamos
Convêm ao nosso coração.

(1829)
.

ПРИМЕТЫ
Я ехал к вам: живые сны
За мной вились толпой игривой,
И месяц с правой стороны
Сопровождал мой бег ретивый.

Я ехал прочь: иные сны…
Душе влюбленной грустно было,
И месяц с левой стороны
Сопровождал меня уныло.

Мечтанью вечному в тиши
Так предаемся мы, поэты;
Так суеверные приметы
Согласны с чувствами души.

(1829)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). em "Poesias escolhidas. Aleksandr Púchkin". [seleção e tradução de José Casado]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

§

A UM POETA
Não estimes, poeta, o amor da turbamulta.
Passará o eco do exaltado louvor;
Ouve o rir da alma fria e a máxima de estulta,
Mas permanece firme e calmo e superior.

És rei: por livre estrada (a ser nenhum consulta)
Vai ao fim que a razão livre te faz propor;
Frutos a aperfeiçoar da idéia amada, exulta,
Sem prêmios exigir por proezas de valor.

Acha-os em ti. És teu supremo tribunal;
Julga tua criação do modo mais cabal.
Contente dela estás, autocrítico atuante?

Estás? Deves deixar que a chusma a ataque então,
Cuspa no altar de sobre o qual vem teu clarão
E a trípode te abale com pueril desplante.

(1830)
.

ПОЭТУ
Поэт! не дорожи любовию народной.
Восторженных похвал пройдет минутный шум;
Услышишь суд глупца и смех толпы холодной,
Но ты останься тверд, спокоен и угрюм.

Ты царь: живи один. Дорогою свободной
Иди, куда влечет тебя свободный ум,
Усовершенствуя плоды любимых дум,
Не требуя наград за подвиг благородный.

Они в самом тебе. Ты сам свой высший суд;
Всех строже оценить умеешь ты свой труд.
Ты им доволен ли, взыскательный художник?

Доволен? Так пускай толпа его бранит
И плюет на алтарь, где твой огонь горит,
И в детской резвости колеблет твой треножник.

(1830)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). em "Poesias escolhidas. Aleksandr Púchkin". [seleção e tradução de José Casado]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

§

ELEGIA
Dos anos loucos a alegria extinta,
Ressaca vaga, faz que eu mal me sinta.
Mas, como o vinho, é o remorso meu
Que mais forte ficou, se envelheceu.
É triste minha estrada. E me anuncia
O mar ruim do porvir dor e agonia.

Mas não desejo, amigos meus, morrer;
Quero ser para pensar e sofrer.
E sei que há gozos para mim guardados
Entre aflições, desgostos e cuidados:
Inda a concórdia poderei cantar,
Sobre prantos fingidos triunfar,
E talvez com sorrir de despedida
Brilhe o amor no sol-pôr de minha vida.

(1830)
.

ЭЛЕГИЯ
Безумных лет угасшее веселье
Мне тяжело, как смутное похмелье.
Но, как вино — печаль минувших дней
В моей душе чем старе, тем сильней.
Мой путь уныл. Сулит мне труд и горе
Грядущего волнуемое море.

Но не хочу, о други, умирать;
Я жить хочу, чтоб мыслить и страдать;
И ведаю, мне будут наслажденья
Меж горестей, забот и треволненья:
Порой опять гармонией упьюсь,
Над вымыслом слезами обольюсь,
И может быть — на мой закат печальный
Блеснет любовь улыбкою прощальной.

(1830)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). em "Poesias escolhidas. Aleksandr Púchkin". [seleção e tradução de José Casado]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

§

VERSOS COMPOSTOS DURANTE UMA NOITE DE INSÔNIA
Tudo é sono e escuridão;
Não há luz, nem meu ser dorme.
Perto de mim, uniforme,
Só o som do carrilhão,
Da parca o senil gaguejo,
Da noite dormente o adejo,
Da vida de rato a ação...
por que me inquietas, então?
Que expressas, ruído aborrido?
Repreensão? Ou gemido por todo meu dia vão?
O que de mim ora exiges?
Convocas-me?
A logo predizes?
Gostaria de captar
Teu sentido, e o hei de achar.

(1830)
.

СТИХИ, СОЧИНЕННЫЕ НОЧЬЮ ВО ВРЕМЯ БЕССОННИЦЫ
Мне не спится, нет огня;
Всюду мрак и сон докучный.
Ход часов лишь однозвучный
Раздается близ меня,
Парки бабье лепетанье,
Спящей ночи трепетанье,
Жизни мышья беготня...
Что тревожишь ты меня?
Что ты значишь, скучный шепот?
Укоризна, или ропот
Мной утраченного дня?
От меня чего ты хочешь?
Ты зовешь или пророчишь?
Я понять тебя хочу,
Смысла я в тебе ищу...

(1830)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). em "Poesias escolhidas. Aleksandr Púchkin". [seleção e tradução de José Casado]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

§

Aleksander Púchkin
Quando esse esbelto corpo teu
Entre meus braços aprisiono,
E às expressões deste amor meu,
Arrebatado, me abandono,
Das mãos prementes, sem um som,
O talhe airoso, sem detença,
Livras e me respondes com
Sorriso de funda descrença.
Lembrando com aplicação
Das mutações minha a história,
Pões-te a escutar-me, merencória,
Sem simpatia ou atenção.
Maldigo as proezas astuciosas
De minha juventude atroz
E as entrevistas amorosas
Nos jardins, nas noites sem voz.
Maldigo do oaristo os cicios,
Dos versos os encantos magos,
Das virgens simples os afagos,
O pranto e os queixumes tardios.

(1830)
.

Когда в объятия мои
Твой стройный стан я заключаю,
И речи нежные любви
Тебе с восторгом расточаю,
Безмолвна, от стесненных рук
Освобождая стан свой гибкой,
Ты отвечаешь, милый друг,
Мне недоверчивой улыбкой;
Прилежно в памяти храня
Измен печальные преданья,
Ты без участья и вниманья
Уныло слушаешь меня...
Кляну коварные старанья
Преступной юности моей
И встреч условных ожиданья
В садах, в безмолвии ночей.
Кляну речей любовный шопот,
[Стихов таинственный напев],
И [ласки] легковерных дев,
И слезы их, и поздний ропот.

(1830)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). em "Poesias escolhidas. Aleksandr Púchkin". [seleção e tradução de José Casado]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

§

O ECO
Se na floresta fera urrar,
Se guampa ouvir-se ou trovão soar,
Se moça além morro cantar,
A cada som
Tens ricochete no ermo ar,
Súbito e bom.

Atenção prestas ao fragor,
De onda e procela ao estridor,
Aos gritos de um e outro pastor,
O eco a atender;
Não há fugir... Poeta, cantor,
Tal é teu ser.

(1831)
.

ЭХО
Ревет ли зверь в лесу глухом,
Трубит ли рог, гремит ли гром,
Поет ли дева за холмом -
         На всякой звук
Свой отклик в воздухе пустом
         Родишь ты вдруг. 

Ты внемлешь грохоту громов
И гласу бури и валов,
И крику сельских пастухов -
         И шлешь ответ;
Тебе ж нет отзыва... Таков
         И ты, поэт! 

(1831)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). em "Poesias escolhidas. Aleksandr Púchkin". [seleção e tradução de José Casado]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

§

Exegu monumentum.
Horácio (livro III, ode XXX)

Um momento ergui a mim, obra extra-humana.
Sua vereda o mato não há de ocultar.
Eleva-se bem mais sua cúpula ufana
Do que o alexandrino pilar.*

Todo não morrerei: a alma que pus na lira
As cinzas vencerá, da morte há de escapar;
Fama no orbe terei que sob a lua gira
Enquanto um poeta restar.

Ouvirá sobre mim toda a Rússia grandiosa,
Nela fará o meu nome a cada língua jus:
O finês, o calmuco estépico, a orgulhosa
Que herdou o eslavo, e a do tungus.

E o povo me amará durante longa idade,
Pois nobres propensões com a lira espertei,
Pois num tempo cruel cantei a Liberdade
E pelos caídos roguei.

Ao chamado maior, sê, Musa, obediente,
Sem ofensas temer, sem pedir galardão;
Elogio e calúnia acolhe, indiferente,
Nem dês ao paspalho atenção.

(1836)
.

Exegi monumentum
Я памятник себе воздвиг нерукотворный,
К нему не зарастет народная тропа,
Вознесся выше он главою непокорной
       Александрийского столпа.

Нет, весь я не умру - душа в заветной лире
Мой прах переживет и тленья убежит -
И славен буду я, доколь в подлунном мире
       Жив будет хоть один пиит.

Слух обо мне пройдет по всей Руси великой,
И назовет меня всяк сущий в ней язык,
И гордый внук славян, и финн, и ныне дикой
       Тунгус, и друг степей калмык.

И долго буду тем любезен я народу,
Что чувства добрые я лирой пробуждал,
Что в мой жестокий век восславил я Свободу
       И милость к падшим призывал.

Веленью божию, о муза, будь послушна,
Обиды не страшась, не требуя венца,
Хвалу и клевету приемли равнодушно
       И не оспоривай глупца.

(1836)
- Aleksander Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин). em "Poesias escolhidas. Aleksandr Púchkin". [seleção e tradução de José Casado]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.
* “Do que alexandrino pilar, ou mais precisamente”, “do que a coluna alexandrina”. Referência à coluna de granito vermelho escuro que o czar Nicolai I fez inaugurar, no dia 30 de agosto de 1834, em honra de seu pai, o czar Alexandr I, que governava a Rússia em 1812 quando Napoleão Bonaparte a invadiu e foi dela expulso graças a resistência combinada do povo e do exército russo. O monumento, em cujo topo acha-se um anjo segurando numa das mãos uma cruz, escultura que se deve a Bóris Orlóvski, tem 47,5m de altura e se localiza no Largo do Paço, em São Petesburgo. O projeto foi do arquiteto Auguste Montferrand, as composições em relevo, de bronze, do pedestal foram executadas por Svintsov, Leppe e Balin tomando por base desenhos de Montferrand e de Giovanni Batista Scotti. Púchkin presenciara os trabalhos de instalação do monumento, mas não assistiu à inauguração, que se deu em meio a desfile de tropas ao som de música militar. (N. T.)

§

Na estepe do mundo, triste e infinita,
Brotaram em mistério três nascentes:
A da juventude, célere e rebelde,
Ferve, corre, mareja e cintila.
A de Castália, fonte de inspiração,
Mata a sede ao desterrado na estepe.
A última – a fria, do olvido – mata
Ânsias do coração, mais doce e estreme.

(1827)
.

В степи мирской, печальной и безбрежной,
Таинственно пробились три ключа:
Ключ юности, ключ быстрый и мятежный,
Кипит, бежит, сверкая и журча.
Кастальский ключ волною вдохновенья
В степи мирской изгнанников поит.
Последний ключ — холодный ключ забвенья,
Он слаще всех жар сердца утолит.

(1827)
- Aleksandr Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин), no livro "O Cavaleiro de Bronze e Outros poemas". [selecção, tradução Nina Guerra e Filipe Guerra]. Lisboa: Assírio & Alvim. Lisboa, 1999.

§

Jaz nos outeiros da Geórgia o véu da noite;
Ante mim o ruidoso Aragva.
Estou triste e leve; desta mágoa é clara a fonte;
Cheia de ti é minha mágoa.
De ti, só de ti... Não me tortura o quebranto,
Nada inquieta este pesar,
Meu coração outra vez arde e ama tanto
Porque não sabe não amar.

(1829)
.

На холмах Грузии лежит ночная мгла;
Шумит Арагва предо мною.
Мне грустно и легко; печаль моя светла;
Печаль моя полна тобою,
Тобой, одной тобой... Унынья моего
Ничто не мучит, не тревожит,
И сердце вновь горит и любит — оттого,
Что не любить оно не может.

(1829)
- Aleksandr Púchkin (Алекса́ндр Пу́шкин), no livro "O Cavaleiro de Bronze e Outros poemas". [selecção, tradução Nina Guerra e Filipe Guerra]. Lisboa: Assírio & Alvim. Lisboa, 1999.

§
Púchkin e Gonzaga. 
Da Sanfoninha ao Violão 
Boris Schnaiderman


Uma tradução de Aleksandr Púchkin: de um poema de Tomás Antonio Gonzaga

Aleksander Púchkin - Ivan Aivazovsky. 1880.
С ПОРТУГАЛЬСКОГО *
Там звезда зари взошла,
Пышно роза процвела.
Это время нас, бывало,
Друг ко другу призывало.

На постеле пуховой
Дева сонной рукой
Отирала сонны очи,
Удаляя грезы ночи.

И являлася она
У дверей иль у окна
Ранней звёздочки светлее,
Розы утренней свежее.

Лишь её завижу я,
Мнилось, легче вкруг меня
Воздух утренний струился;
Я вольнее становился.

Меж овец деревни всей
Я красавицы моей
Знал любимую овечку
Я водил её на речку.

На тенистые брега,
На зелёные луга;
Я поил её, лелеял,
Перед ней цветы я сеял.

Дева издали ко мне
Приближалась в тишине,
Я, прекрасную встречая,
Пел, гитарою бряцая:

«Девы, радости моей,
Нет! На свете нет милей!
Кто посмеет под луною
Спорить в счастии со мною?

Не завидую царям,
Не завидую богам,
Как увижу очи томны,
Тонки стан и косы темны».

Так певал бы вало ей,
И красавицы моей
Сердце песнью любовалось;
Но блаженство миновалось.

Где ж красавица моя!
Одинокий плачу я
Заменили песни нежны
Стон и слёзы безнадежны.
.

Lira LXXI**

A estas horas
Eu procurava
Os meus Amores;
Tinham-me inveja
Os mais Pastores.

A porta abria,
Inda esfregando
Os olhos belos,
Sem flor, nem fita,
Nos seus cabelos.

Ah! que assim mesmo
Sem compostura,
É mais formosa,
Que a estrela d'alva,
Que a fresca rosa.

Mal eu a via,
Um ar mais leve,
(Que doce efeito!)
Já respirava
Meu terno peito.

Do cerco apenas
Soltava o gado,
Eu lhe amimava
Aquela ovelha
Que mais amava.

Dava-lhe sempre
No rio, e fonte,
No prado, e selva,
Água mais clara,
Mais branda relva.

No colo a punha;
Então brincando
A mim a unia;
Mil coisas ternas
Aqui dizia.

Marília vendo,
Que eu só com ela
É que falava,
Ria-se a furto,
E disfarçava.

Desta maneira
Nos castos peitos,
De dia em dia
A nossa chama
Mais se acendia.

Ah! quantas vezes,
No chão sentado,
Eu lhes lavrava
As finas rocas,
Em que fiava!

Da mesma sorte
Que à sua amada,
Que está no ninho,
Fronteiro canta
O passarinho;

Na quente sesta,
Dela defronte,
Eu me entretinha
Movendo o ferro
Da sanfoninha.

Ela por dar-me
De ouvir o gosto,
Mais se chegava;
Então vaidoso
Assim cantava:

"Não há Pastora,
"Que chegar possa
"À minha Bela,
"Nem quem me iguale
"Também na estrela;

"Se amor concede
"Que eu me recline
"No branco peito,
"Eu não invejo
"De Jove o feito;

"Ornam seu peito
"As sãs virtudes,
"Que nos namoram;
"No seu semblante
"As Graças moram."

Assim vivia...
Hoje em suspiros
O canto mudo;
Assim, Marília,
Se acaba tudo.
- Boris Schnaiderman – Púchkin e Gonzaga. Da Sanfoninha ao Violão, em "Dossiê Púchkin", [organizado por Homero Freitas de Andrade]. Revista Caderno de Literatura e Cultura Russa – nº 1: publicação bienal do Curso de Língua e Literatura Russa do dlo/fflch da Universidade de São Paulo. São Paulo, Ateliê Editorial, março 2004. p. 69-76.
* Aleksandr Púchkin, Obras Completas em 10 volumes, Moscou, Academia de Ciências, 1956-1958; vol. II, p. 298.  A lira traduzida é a de número LXXI e, segundo alguns estudos russos, ele se teria baseado na tradução, em prosa francesa, de E. de Monglave e P. Chalas Marilie – chants élégiaques de Gonzaga traduits du portugais par E. de Monglave et P. Chalas, Paris, C. L. I. Panckoucke, éditeurs, 1825.
** Tomás António Gonzaga, p. 127, vol. I, da edição crítica de M. Rodrigues Lapa (Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1957). Em outras edições, a numeração é diferente.

Pushkin, no Mar Negro., por I.K. Aivazovsky. (detalhe) 1887.
FORTUNA CRÍTICA DE ALEKSANDR PÚCHKIN
ALMEIDA, Giuliana Teixeira de.. Púchkin como o Deus da Literatura Russa e Dostoiévski como seu Profeta: uma análise do discurso proferido por Dostoiévski no festival Púchkin. RUS Revista de Literatura e Cultura Russa, v. 1, p. 59-68, 2012.
ALMEIDA, Paula Costa Vaz de.. O Meu Puchkin de Marina Tsvetaieva: tradução e apresentação. (Dissertação Mestrado em Literatura e Cultura Russa). Universidade de São Paulo, USP, 2008.

BARROS, Luciana Oliveira de.. A dança das máscaras em Boris Godunov. Tragédia, comédia e o vício do despotismo. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, 2007.

BARROS, Luciana Oliveira de.. A.S. Puchkin e as trincheiras do nacionalismo. Revista Garrafa (PPGL/UFRJ. Online), v. 17, p. 3-10, 2008.
BARROS, Luciana Oliveira de.. O gran finale de Puchkin. Genialidade ou obediência à censura?. Revista Garrafa (PPGL/UFRJ. Online), v. 14, p. 18-28, 2007.
BERNARDINI, Aurora Fornoni; Púchkin, A. . 6. Eugênio Oneguin. resenha para o caderno Sabático de O Estado de S. Paulo, 7/6/10. O Estado de S. Paulo, v. VI, p. 7-8, 2010.
BERNARDINI, Aurora Fornoni. Púchkin e o começo da literatura russa. Caderno de Literatura e Cultura Russa, São Paulo, p. 31-40, 2004.
BERNARDINI, Aurora Fornoni. Exéquias de uma época - Artigo sobre o livro A Casa de Puchkin, de Andréi Bitov. Folha de São Paulo, São Paulo-SP, p. 4, 1998.
BEZERRA, Paulo Azevedo. Ira moral e transformação em Púchkin, o grande. Jornalistas da Web, v. 1, p. 3, 1999.
BOTTMANN, Denise. púchkin no brasil, I. Disponível no link. (acessado em 9.8.2016).
BOTTMANN, Denise. púchkin no brasil, II. Disponível no link. (acessado em 9.8.2016).
BOTTMANN, Denise. Traduções de Aleksandr Púchkin no Brasil. Revista Belas Infiéis, v. 3, p. 241-247, 2014.
BUGROVA, Olga. Alexander Pushkin: poeta que criou a língua russa, não uma escola literária. in: Agencia de notícias e rádio Sputnik, 6 de junho de 2013. Disponível no link. (acessado em 28.8.2016).
Aleksandr Púchkin
ROSAS, Cecília. A literatura e seus variados fins domésticos: tradução e comentário de quatro contos de Púchkin. (Dissertação Mestrado em Literatura e Cultura Russa). Universidade de São Paulo, USP, 2009.
DELGADO, Yolanda. Púchkin, o mais russo dos poetas. in: Gazeta Russa, 10 de fevereiro de 2012. Disponível no link. (acessado em 28.8.2016).
DOSSIÊ Púchkin [organização Homero Freitas de Andrade]. Caderno de Literatura e Cultura Russa ( Curso de Língua e Literatura Russa do dlo/fflch da Universidade de São Paulo) · n. 1 · São Paulo: Ateliê Editorial, março 2004. Disponível no link. (acessado em 9.8.2016).
FERNANDES, Terezinha Fátima Tagé Dias.. Na obra de Púchkin, um exemplo de força e serenidade do espírito. Jornal A Tribuna, Santos - SP, p. 3, 27 jun. 1999.
FRANCISCO JÚNIOR, Mário Ramos. A Rússia na sala de espelhos: Púchkin, Akhmátova, Blok, Tarkóvski. Cadernos de pesquisa Kinoruss, v. 2, p. 147-152, 2012.
MACHADO, Lino. Três versões de um mesmo Púchkin. Revista USP, Sâo Paulo, v. 11, p. 122-126, 1991.
MARTINELLI, Leonardo. Pequenas Tragédias: Textos de Púchkin ganham tradução inédita, feitas a partir do russo. Gazeta Mercantil, São Paulo, 6 nov. 2006.
NAZARIO, Helena Sprindys. O herói ambivalente no romance histórico de A. S. Puchkin, "A fila do capitão". (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade de São Paulo, USP, 1975.
NAZARIO, Helena Sprindys. A Filha do Capitão (De A.S.Puchkin) e O Jogo das Epigrafes.. São Paulo: Editora Perspectiva, 1981. 
NAZARIO, Helena Sprindys. A Recusa da Norma Em Puchkin.. Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.267, p. 6-7, 1987.
OLIVEIRA, Anelito Pereira de.. "A dama de espadas" revive Aleksandr Púchkin. O Tempo, Belo Horizonte, v. 1, p. 3, 1999.
OLIVEIRA, Deise de.. Similaridade entre dois poetas: tradução e Comentário da Prosa de Akhmátova Sobre Púchkin. (Tese Doutorando em Literatura e Cultura Russa). Universidade de São Paulo, USP, 2015. 
VÁSSINA, Elena; CORREIA, A.. Aleksandr Púchkin. Ebguêni Oniêguin - Um Romance em Versos. LIvro, v. 4, p. 408-413, 2014.
VITORINO, Fabrício Yuri de Souza. "O Contemporâneo": a vertente jornalística de Púchkin na primeira metade do século XIX. (Dissertação Mestrado em Literatura e Cultura Russa). Universidade de São Paulo, USP, 2015.

ICONOGRAFIA
Natalia e Púchkin

V.Gau. N.N.Pushkina. 1842 Watercolor. Russian Pushkin Museum

Duelo entre Onegin e Lensky - ilustrado por Ilya Yefimovich Repin

Nicholas I, Natalia and Pushkin

Monument to Alexander Pushkin and Natalia Goncharova on the Arbat.
Sculptors AN Burganov and IA Burganov.

"Aleksandr Púchkin (1799-1837), nascido no mesmo ano que Garrett em Portugal, não é apenas, na sua curta vida atribulada e na sua criatividade assombrosa, a entrada triunfal do Romantismo na Rússia, após anos em que "antigos" e "modernos" lutavam pela supremacia: é não só, ainda hoje, o maior poeta da Rússia, como também a personalidade de quem decorre toda a literatura russa moderna, à qual abriu todos os caminhos que ela veio a trilhar, e de quem as artes vieram a inspirar-se profusamente na Rússia, para a magnificante floração estética da segunda metade do século XIX, que colocou o país na vanguarda da cultura ocidental."
- Jorge de Sena, em "Contos de Aleksandr Púchkin". [tradução e notas Nina Guerra e Filipe Guerra]. Lisboa: Relógio d'Água, 2003.


Alexander Pushkin
OUTRAS FONTES DE PEQUISA
:: Alexander Pushkin (russo/inglês)
:: Collection of poems by Alexandr Pushkin
:: Alexander Sergeyevich Pushkin - PoemHunter 
:: Jorge de Sena/Letras UFRJ - Puchkin

© Obra em domínio público

© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske em colaboração com José Alexandre da Silva

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Trabalhos sobre o autor:
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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Aleksandr Púchkin - o poeta lírico. Templo Cultural Delfos, agosto/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 29.8.2016.




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