Anna Akhmátova - linguagem e mitopoética

Anna Akhmátova, por Natan Altman (1914)
Anna Akhmátova (Ana Andréevna Gorenko), nasceu em 1889, na Ucrânia, (em Bolchói Fontán, um elegante subúrbio de Odessa), terceira de cinco filhos. Em 1890 a família mudou se para Pávlovsk (então Tsárkoie Seló), perto de Petersburgo, e passava os verões no Mar Negro. No Verão de 1903, Anna conheceu o jovem poeta Nicolai Gumilióv. Em 1905, após a separação dos pais de Anna, o pai (Andréi Gorenko, engenheiro naval), mudou se para Petersburgo e a mãe (Ina Gorenko) levou os filhos para Evpatoria, no Mar Negro. No Inverno do mesmo ano, Anna Gorenko começou a escrever poesia, adoptando o nome da avó materna, Akhmátova. Em 1906, Gumilióv publicou um dos seus poemas na ?Sirius?, uma pequena revista literária fundada por ele em Paris. Em 1907, Anna Akhmátova inscreveu se na Faculdade de Direito de Kiev. Transferiu se mais tarde para Petersburgo, onde foi estudar Literatura e História. Em 1910, Gumilióv mostrou a Anna Akhmátova o manuscrito “A arca de cipreste”, (com a qual Anna ficou profundamente comovida e impressionada) uma coletânea de poemas líricos de Innokenti Annenski, estudioso dos clássicos e director do liceu de Tsárkoie Seló. No mesmo ano, Akhmátova e Gumilióv casaram se, perto de Kiev. Nenhum membro da família dela esteve presente. Mais tarde, Akhmátova e Gumilióv instalaram se em Tsárkoie Seló. Poucos meses depois, Gumilióv viajou para a Abissínia (actual Etiópia) numa expedição científica, retornando em 1911. Nesse ano, o casal visitou Paris mais uma vez, onde Akhmátova conheceu Modigliani. De volta a Tsárkoie Seló, Akhmátova e Gumilióv passaram a desfrutar a vida literária. Gumilióv e outros jovens poetas fundavam uma Associação de Poetas, cujos membros, originalmente quinze, decidiram romper com o simbolismo. Em pouco tempo, seis deles – Gumilióv, Akhmátova, Mandelstam, Gorodetski, Narbut e Zenkevich – passavam a se autodenominar acmeístas, termo proposto por Gumilióv. Em 1912, Akhmátova publicou a sua primeira colectânea de poesia “Entardecer”. Viajaram para a Suíça e para a Itália, e em Outubro, nascia o filho do casal, Lev Nicolaievich. Na Primavera de 1913, Gumilióv partiu mais uma vez para África como director duma expedição financiada pela Academia de Ciências. Em 1914, Akhmátova publicou a sua segunda colectânea de poesia “Rosário”. O livro alcançou grande sucesso popular.
Em Agosto eclodia a Primeira Guerra Mundial e Gumilióv alistou se como voluntário e foi mandado para a frente de batalha. Em 1915, morreu em Petersburgo o pai de Akhmátova e esta passou algum tempo num sanatório perto de Helsinque, com tuberculose. No ano seguinte, Akhmátova conheceu o artista Boris Anrep por intermédio de Nicolai Nedobrovo, crítico de arte e amigo de ambos. Muitos dos poemas do terceiro volume de Akhmátova, “Rebanho branco”, são dedicados a Anrep. Akhmátova passou o inverno no Sul, perto de Sebastopol, devido à sua doença. Em Fevereiro de 1917, Akhmátova e Gumilióv separaram-se. Explodia a Revolução e estabelecia se o governo provisório de Kerenski. Akhmátova ficou com uns amigos em Petersburgo (Petrogrado durante a Primeira Guerra e mais tarde renomeada como Leningrado).
Em Outubro Lenin e os bolcheviques tomaram o poder e nesse Inverno Akhmátova publicou o terceiro livro de poemas “Rebanho branco”. No Outono de 1918, Akhmátova casou com Vladímir Chileiko, um assiriologista. Logo depois foram viver para Fontánni Dom (Casa da Fontanka). Foi um tempo de privações, frio e fome.
Em 1919, com o início da guerra civil, os bolcheviques perseguiam os opositores do novo regime soviético. No ano seguinte, Akhmátova empregou se como bibliotecária no Instituto de Agronomia. Em 1921 separou se de Chileiko. Nesta altura, a guerra civil tinha terminado, mas a inquietação social continuava. Em 1921 morria Aleksandr Blok, o principal poeta simbolista. E no mesmo ano, Gumilióv foi executado sob a acusação de ter tomado parte numa conspiração contra o novo regime. Akhmátova publicou nesse ano “Capim”, o seu quarto livro de poemas.
E em 1922, “Anno Domini MCMXXI”, o quinto livro de poemas. Maiakóvski, o principal poeta futurista, denunciou publicamente a poesia de Akhmátova ao passo que Chukovski, numa conferência intitulada ?Duas Rússias?, confrontou a poesia futurista de Maiakóvski com a poesia pré revolucionária de Akhmátova. Embora ele visse um lugar para ambos na literatura russa, as autoridades pensavam cada vez mais de modo diferente. Em 1924 morreu Lenin e emergiu Stalin, que veio a solidificar o seu poder no final da década. Nesse verão, Akhmátova retomou a amizade com Óssip Mandelstam e conheceu Nadejda Mandelstam. Na Primavera de 1925, Nadejda Mandelstam e Akhmátova, ambas com tuberculose, ficaram juntas numa clínica em Tsárkoie Seló. Trinta e dois dos poemas de Akhmátova apareceram numa antologia (os últimos publicados na União Soviética até 1940, embora os seus livros anteriores tenham continuado a ser reimpressos por refugiados políticos). Em 1926, Akhmátova passou a morar no apartamento de Nicolai Punin, historiador e crítico de arte, na Casa da Fontanka. Lá moravam também a esposa dele, Ana Arens, médica, e a filha do casal, Irina. Akhmátova iniciava então o seu estudo crítico de Púchkin.
Entre 1929 e 1933, uma resistência camponesa foi castigada com execuções, deportações e privações deliberadas. Morreram milhões de pessoas. Entretando, em 1930, Maiakóvski suicidou se. E em 1932, foi criada a Criação da União dos Escritores Soviéticos, sob rígido controle do Partido Comunista. Em Maio de 1934, Óssip Mandelstam foi preso e a sua família foi para o exílio em Cherdyn. Akhmátova arrecadava dinheiro para eles entre os amigos. Em Dezembro era assassinado Serguéi Kirov, oficial do Partido. Foram feitas prisões em massa, entre elas a do jovem Lev Gumilióv, que acabou sendo libertado. O terror intensificou se. Em 1935, Punin e Lev Gumilióv foram presos e soltos em seguida. Em 1936, Akhmátova publicou o ensaio “O Adolfo de Benjamin Constant e a 'Criação’ de Púchkin” e visitou os Mandelstams em Vorôniej. No auge do terror, em 1937, milhões de pessoas foram detidas e enviadas para campos de concentração. E em Março de 1938, Lev Gumilióv foi preso mais uma vez, ficando detido em Leningrado e solto dezassete meses mais tarde. Em Maio, Mandelstam foi novamente preso e morreu, em Dezembro do mesmo ano, num campo de concentração. Em 1935 apareceu o ciclo poético Réquiem, que se estendeu até ao ano de 1940. Em 1939, Marina Tzvietáieva, que emigrara para Paris em 1922, voltou para a União Soviética. E Akhmátova e Tzvietáieva encontraram se pela primeira vez em 1940. A proibição da poesia de Akhmátova, em vigor desde 1925, foi suspensa. No verão desse ano, Akhmátova publicava “De seis livros” uma selecção dos primeiros livros e alguns poemas novos. No Outono, a antologia foi recolhida das livrarias e as vendas proibidas. Em Outubro, Akhmátova sofreu o seu primeiro ataque cardíaco. Em Junho de 1941 a Alemanha invadiu a União Soviética e em Agosto, Tzvietáieva suicidou se, após o fuzilamento do marido e da prisão da filha num campo de concentração.
Em Setembro, Akhmátova fez um pronunciamento no rádio dirigido às mulheres de Leningrado, então sitiada, encorajando as. Em Outubro, por determinação do Comité Central do Partido Comunista de Leningrado, Akhmátova foi expulsa para Moscovo. Akhmátova tomou então o seu próprio rumo e foi para Tachkent, uma cidade no Usbequistão. Conseguiu uma casa para morar e recebeu a permissão para que Nadejda Mandelstam e a mãe morassem na mesma casa. De 1942 a 1944, Akhmátova fez leituras de poemas em hospitais. Contraiu tifo e, depois de curada, tentou voltar para Leningrado. Em 1943, foi publicado em Tachkent, “Poemas selectos”, uma edição rigorosamente censurada. No ano seguinte, Akhmátova voou de Tachkent para Moscovo, onde fez um recital de poesias no auditório do Museu Politécnico. A ovação do público, de pé, fê la temer possíveis represálias políticas.
Mais tarde, foi para Leninegrado. Em 1945, vitória sobre a Alemanha. Lev Gumilióv, que fora libertado do exílio para lutar na guerra, juntou se a Akhmátova na Casa da Fontanka. No Outono, Akhmátova encontrou se com Isaiah Berlin, primeiro secretário da embaixada britânica em Moscovo. A visita, uma longa e estimulante troca de ideias, teve repercussões... Depois da segunda visita de Berlin, em 5 de janeiro de 1946, Akhmátova, que estava sendo vigiada desde o seu regresso a Leningrado, percebeu no seu quarto, a presença de microfones. Em 1946 foi publicado em Moscovo, igualmente censurado, “Poemas selectos”. O Comité Central do Partido Comunista censurou a revista Zvezda (Estrela) e fechou a revista “Leningrado” por terem publicado os trabalhos de Akhmátova e de Mikhail Zoshchenko. O decreto expurgando Akhmátova e Zoshchenko por ?envenenar as mentes da juventude soviética? foi redigido por Andréi Jdanov, o ?cão de guarda? cultural de Stalin. Decretos similares, atingindo o cinema e a música, seguiram se a esse. Akhmátova publicou ainda nesse ano, ?Poemas 1909 1945?. Punin foi preso em 30 de Setembro de 1949 e a 6 de Novembro, Lev Gumilióv foi mais uma vez detido, ficando preso até 1956. Para Akhmátova, a causa da prisão estaria no seu encontro com Berlin em 1945. Em 1950, Akhmátova publicou “Em louvor da paz”, um ciclo de poemas propagandísticos, na esperança de ajudar o filho. Rogou que fossem omitidos das suas obras completas. Em 1952, forçada a deixar a Casa da Fontanka, Akhmátova mudou se para um apartamento em Krasnaia Konitsa com membros da família Punin. No ano seguinte, Punin morreu num campo de prisioneiros na Sibéria. Em Março, morreu Stalin. Em Maio de 1955, Akhmátova recebeu uma pequena “dacha” em Komarovo, um vilarejo perto de Leninegrado. 
Em Fevereiro de 1956, o “discurso secreto” de Kruchóv sobre Stalin, no XX Congresso do Partido, inaugurou um descongelamento geral e uma “reabilitação” de intelectuais em desgraça. Lev Gumilióv foi libertado.
Em Outubro, as insurreições na Hungria e na Polónia punham um fim à tendência liberalizante. Em 1958, foi publicado (severamente censurado) “Poemas” de Akhmátova, obra que também continha traduções de várias línguas orientais. Boris Pasternak foi forçado a recusar o Prémio Nobel pelo romance “Doutor Jivago”. Em 1960 morreu Pasternak. Em 1961, foi publicado mais um livro censurado de Akhmátova, ?Poemas 1909 1960?. Em 1963, foi publicado ?Réquiem? na cidade de Munique. Em 1964, Akhmátova foi agraciada com um prémio literário italiano e no mesmo ano viajou para Taormina. Em 1965, Akhmátova foi a Inglaterra receber o título "honoris causa” da Universidade de Oxford. Reviu velhos amigos que tinham emigrado para Londres, Paris e Estados Unidos. Publicou “O vôo do tempo”, uma colectânea já menos censurada.
Em 1966, Akhmátova morreu numa casa de convalescência perto de Moscovo e foi enterrada em Komarovo.
Fonte: Editora Truca



OBRA EM PORTUGUÊS DE ANNA AKHMÁTOVA
Anna Akhmatova, por Saryan Martiros (1946)
Livros
:: Réquiem: Ana Akhmátova. [tradução de Aurora F. Bernardini e Hadasa Cytrynowicz]. Edição bilíngue. São Paulo: Art Editora, 1991.
:: Prosas escolhidas e poema sem herói. Anna Akhmátova. [tradução Filipe Guerra e Nina Guerra]. Lisboa: Relogio D'água, 2001.
:: Poemas. Anna Akhmatova. [seleção, tradução e notas de Joaquim Manuel Magalhaes e Vadim Dmitriev]. Lisboa: Relógio D´água, 2003.
:: Anna: a voz da Rússia: vida e obra de Anna Akhmátova. [autor, tradutor Lauro Machado Coelho]. São Paulo: Algol Editora, 2008.
:: Anna Akhmátova: antologia poética. [seleção, tradução, apresentação e notas Lauro Machado Coelho]. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2009.

Antologias (participação)

:: Poesia russa moderna. [tradução de Augusto de Campos; Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman]. 6ª ed., revisada e ampliada. Coleção Signos. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001.
:: Poesia da recusa. [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.
:: Poemas russos. [organização Mariana Pithon e Nathalia Campos; vários tradutores]. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2011.



Anna Akhmatova, por Olga Kardovskaya (1914)
POEMAS  SELECIONADOS DA POETA ANNA AKHMÁTOVA (EDIÇÃO BILÍNGUE)

Asa

Eu vivo como um cuco no relógio.
Não invejo os pássaros livres.
Se me dão corda, canto.

Só aos inimigos

Se deseja
Tanto.

1911

.

Я живу, как кукушка в часах,
Не завидую птицам в лесах.
Заведут - и кукую.

Знаешь, долю такую

Лишь врагу
Пожелать я могу.

1911

- Anna Akhmátova (А́нна Ахма́това), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§


Torci os dedos sob a manta escura...

Torci os dedos sob a manta escura...
"Por que tão pálida?" ele indaga.
– Porque eu o fiz beber tanta amargura
Que o deixei bêbado de mágoa 

Como esquecer? Ele saiu sem reação,

A boca retorcida, em agonia...
Desci correndo, sem tocar no corrimão, 
E o encontrei no portão, quando saía.

"É tudo brincadeira, por favor,

Não parta, eu morro se você se for.
E ele, com um sorriso frio, isento,
Me disse apenas: "Não fique ao relento"

1911

.

Сжала руки под тёмной вуалью...

Сжала руки под тёмной вуалью...
"Отчего ты сегодня бледна?"
- Оттого, что я терпкой печалью
Напоила его допьяна.

Как забуду? Он вышел, шатаясь,

Искривился мучительно рот...
Я сбежала, перил не касаясь,
Я бежала за ним до ворот.

Задыхаясь, я крикнула: "Шутка

Всё, что было. Уйдешь, я умру."
Улыбнулся спокойно и жутко
И сказал мне: "Не стой на ветру".

1911

- Anna Akhmátova (А́нна Ахма́това), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§


Cleópatra

                                                                            Os palácios de Alexandria
                                                                            Cobriram-se de sombras suaves.
                                                                                                            PÚSCHKIN

Ela já beijara os lábios de Antônio, sem vida,

E chorava, de joelhos, ante Augusto, vencida…
E os servos a traíram. Sob a águia de Roma
As trombetas ressoam. E o crepúsculo assoma.

E chega o último escravo de sua beleza,

Alto e solene, num sussurro, ele pondera:
“Vão te levar para ele… em triunfo… como presa…”
Mas a curva do colo do cisne não se altera.

Amanhã acorrentarão seus filhos. Pouco lhe resta:

Brincar com este rapaz até perder a mente
E, de piedade, a víbora negra – último gesto –
Depor no peito moreno com a mão indiferente.

1940

.

Клеопатра

Александрийские чертоги
Покрыла сладостная тень.
Пушкин

Уже целовала Антония мертвые губы,

Уже на коленях пред Августом слезы лила...
И предали слуги. Грохочут победные трубы
Под римским орлом, и вечерняя стелется мгла.

И входит последний плененный ее красотою,

Высокий и статный, и шепчет в смятении он:
«Тебя — как рабыню... в триумфе пошлет пред собою...»
Но шеи лебяжьей все так же спокоен наклон.

А завтра детей закуют. О, как мало осталось

Ей дела на свете — еще с мужиком пошутить
И черную змейку, как будто прощальную жалость,
На смуглую грудь равнодушной рукой положить.

1940

- Anna Akhmátova (А́нна Ахма́това), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§


Lendo Hamlet

Anna Akhmatova, por Yuri Annenkov (1921)
O cemitério. Inflete um rio anil
À direita, no vazio do terreno.
Tu me disseste:
“Vai para um convento!
Ou se queres desposa um imbecil…”
Estas coisas só um príncipe diz,
Discurso que se grava na memória 
Por séculos a fio e que se desliza
Manto de zibelina pelas costas.

1909

.

Читая Гамлета

У кладбища направо пылил пустырь,
А за ним голубела река.
Ты сказал мне: "Ну что ж, иди в монастырь
Или замуж за дурака..."
Принцы только такое всегда говорят,
Но я эту запомнила речь, –
Пусть струится она сто веков подряд
Горностаевой мантией с плеч.

1909

- Anna Akhmátova (А́нна Ахма́това). 'Dístico'. {tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman}. no livro "Poesia russa moderna". [tradução de Augusto de Campos; Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman]. 6ª ed., revisada e ampliada. Coleção Signos. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001.

§


Do ciclo os mistérios do ofício

Não me importa o exército das odes, 
Nem o jogo torneado da elegia.
Nos versos, tudo é fora de propósito.
Não como entre as pessoas, - me dizia. 

Saibam vocês, o verso, é do monturo

Que eles se alenta, sem vexame disso,
Como um dente-de-leão pegado ao muro,
Anserina, bardana, erva-de-lixo. 

Grito de zanga, um travo de alcatrão,

Um bolor misterioso que esverdinha... 
E eis o verso, furor e mansidão,
Para alegria de vocês e minha.

1940

.

Цикл Тайны Ремесла

Мне ни к чему одические рати 
И прелесть элегических затей. 
По мне, в стихах всё быть должно некстати, 
Не так, как у людей.
Когда б вы знали, из какого сора 
Растут стихи, не ведая стыда, 
Как жёлтый одуванчик у забора, 
Как лопухи и лебеда.
Сердитый окрик, дёгтя запах свежий, 
Таинственная плесень на стене... 
И стих уже звучит, задорен, нежен, 
На радость вам и мне.

1940

- Anna Akhmátova (А́нна Ахма́това). 'Dístico'. {tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman}. no livro "Poesia russa moderna". [tradução de Augusto de Campos; Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman]. 6ª ed., revisada e ampliada. Coleção Signos. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001.

§


Dístico

Que outros me louvem – seu louvor é cinzas.
Que me reproves – teu rancor, alvíssaras.

1931

.

Двустишие

От других мне хвала — что зола.
От тебя и хула — похвала.

1931

- Anna Akhmátova (А́нна Ахма́това). 'Dístico'. {tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman}. no livro "Poesia russa moderna". [tradução de Augusto de Campos; Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman]. 6ª ed., revisada e ampliada. Coleção Signos. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001.

§


Eu visitei o poeta

Para Aleksandr Blok

Eu visitei o poeta 

ao meio-dia em ponto. Domingo.
Quietude no amplo quarto
e, fora das janelas, o frio
e um sol cor de amoras silvestres,
envolto em névoa hirsuta e azulada...
Com que olhar aguçado o taciturno
anfitrião olhava para mim!
Tinha olhos daquele tipo
de que a gente nunca se esquece;
melhor seria, cuidadosa,
eu não devolver seu olhar.
Mas me lembrarei sempre da conversa,
o meio dia nevoento, domingo,
naquela casa alta e cinzenta,
junto aos portões do Nevá para o mar.

janeiro de 1914

.

"Я пришла к поэту в гости..."

Александру Блоку

Я пришла к поэту в гости.

Ровно полдень. Воскресенье.
Тихо в комнате просторной,
А за окнами мороз.
И малиновое солнце
Над лохматым сизым дымом...
Как хозяин молчаливый
Ясно смотрит на меня.
У него глаза такие,
Что запомнить каждый должен,
Мне же лучше, осторожной,
В них и вовсе не глядеть.
Но запомнится беседа,
Дымный полдень, воскресенье,
В доме сером и высоком
У морских ворот Невы.

Январь 1914

- Anna Akhmátova (Анна Ахматова). "Eu visitei o poeta | Я пришла к поэту в гости".. [tradução Lauro Machado Coelho]. no livro "Poemas russos". [organização Mariana Pithon e Nathalia Campos]. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2011, p. 63.

§


Aprendi a viver com simplicidade, com juízo,

a olhar o céu, a fazer minhas orações,
a passear sozinha até a noite,
até ter esgotado esta angústia inútil.
Enquanto no penhasco murmuram as bardanas
e declina o alaranjado cacho da sorveira,
componho versos bem alegres
sobre a vida caduca, caduca e belíssima.
Volto para casa. Vem lamber a minha mão
o gato peludo, que ronrona docemente,
e um fogo resplandecente brilha
no topo da serraria, à beira do lago.
Só de vez em quando o silêncio é interrompido
pelo grito da cegonha pousando no telhado.
Se vieres bater à minha porta,
é bem possível que eu sequer te ouça.

1912

.

Я научилась просто, мудро жить

Смотреть на небо и молиться богу, 
И долго перед вечером бродить, , 
Чтоб утомить ненужную тревогу.
Когда шуршат в овраге лопухи 
И никнет гроздь рябины жёлто-красной, 
Слагаю я весёлые стихи 
О жизни тленной, тленной и прекрасной.
Я возвращаюсь. Лижет мне ладонь 
Пушистый кот, мурлыкает умильней, 
И яркий загорается огонь 
На башенке озёрной лесопильни.
Лишь изредка прорезывает тишь 
Крик аиста, слетевшего на крышу. 
в дверь И если мою ты постучишь, 
Мне кажется, я даже не услышу.

1912

- Anna Akhmátova (А́нна Ахма́това), no livro "Anna Akhmátova: antologia poética". [seleção, tradução, apresentação e notas Lauro Machado Coelho]. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2009.

§


Música

Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.
.

Музыка

В ней что-то чудотворное горит,
И на глазах ее края гранятся.
Она одна со мною говорит,
Когда другие подойти боятся.
Когда последний друг отвел глаза,
Она была со мной в моей могиле
И пела словно первая гроза
Иль будто все цветы заговорили.
- Anna Akhmátova (Анна Ахматова), no livro "Anna: a voz da Rússia: vida e obra de Anna Akhmátova". [autor e tradutor Lauro Machado Coelho]. São Paulo: Algol Editora, 2008.

§


O veredicto
E a pétrea palavra caiu
sobre o meu peito ainda vivo.
Pouco importa: estava pronta.
Dou um jeito de aguentar.

Hoje, tenho muito o que fazer:
devo matar a memória até o fim.
Minha alma vai ter de virar pedra.
Terei de reaprender a viver.

Senão... o ardente ruído do verão
é como uma festa debaixo da janela.
Há muito tempo eu esperava
por este dia brilhante, esta casa vazia.

Casa Fontán, 22/6/1939
.

Приговор
И упало каменное слово
На мою еще живую грудь.
Ничего, ведь я была готова,
Справлюсь с этим как-нибудь.

У меня сегодня много дела:
Надо память до конца убить,
Надо чтоб душа окаменела,
Надо снова научиться жить.

А не то... Горячий шелест лета,
Словно праздник за моим окном.
Я давно предчувствовала этот
Светлый день и опустелый дом.
- Anna Akhmátova (А́нна Ахма́това),  do poema “Réquiem”, no livro "Anna Akhmátova: antologia poética". [seleção, tradução, apresentação e notas Lauro Machado Coelho]. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2009.

§

Tantas vezes maldizia
Este céu e esta terra,
As mãos do moinho com musgo
Agitando-se pesadas!
No anexo está um morto,
Hirto e grisalho, num banco,
Como há três anos atrás.
Os ratos roem os livros,
Para a esquerda verga a chama
Da vela de estearina.
E canta e canta odioso
O guizo de Níjni-Novgorod
Uma singela canção
Da minha aldeia amarga.
E pintadas vivamente
Erguem-se rectas as dálias
Pelo carreiro de prata
Com corações e absinto.
Foi assim: a reclusão
Tornou-se segunda pátria,
Mas da primeira não ouso
Nem nas preces recordar.

Julho de 1915
.

Столько раз я проклинала
Это небо, эту землю,
Этой мельницы замшелой
Тяжко машущие руки!
А во флигеле покойник,
Прям и сед, лежит на лавке,
Как тому назад три года.
Так же мыши книги точат,
Так же влево пламя клонит
Стеариновая свечка.
И поет, поет постылый
Бубенец нижегородский
Незатейливую песню
О моем веселье горьком.
А раскрашенные ярко
Прямо стали георгины
Вдоль серебряной дорожки,
Где улитки и полынь.
Так случилось: заточенье
Стало родиной второю,
А о первой я не смею
И в молитве вспоминать.

Июль 1915
- Anna Akhmátova (А́нна Ахма́това), no livro "Anna Akhmatova: Poemas". [seleção, tradução e notas de Joaquim Manuel Magalhaes e Vadim Dmitriev]. Lisboa: Relógio D'Água, 2003, p. 27.


Anna Akhmatova, em desenho de Modigliani

FORTUNA CRÍTICA DE ANNA AKHMÁTOVA
ANDRADE, Homero Freitas de.. Anna de Todas as Rússias. Aproximações Europa de Leste. Em Língua Portuguesa, Lisboa, v. 28, p. 122-125, 1989.
CARVALHO, Maria do Socorro. A última rosa: a guerra permanente de Anna Akhmátova. Revista Garrafa (PPGL/UFRJ), v. 24 - 1, p. S/N-s/n, 2011.
Anna Akhmatova, por Kuzma Petrov-Vodkin (1922)
CRUZ, Antonio Donizeti da.. Mito e linguagem em Anna Akhmátova. In: Simpósio Nacional de Ciências Humanas - Universidade e Sociedade, 2006, Marechal Cândido Rondon. Programação e Resumos do Simpósio Nacional de Ciências Humanas - Universidade e Sociedade. Marechal Cândido Rondon - PR: Líder, 2006. v. 1. p. 68-68.
FILME. "The Anna Akhmatova File" (1989), filme de Semion Aranovich (1934 - 1995). in: Revista Modo de Usar, 23.1.2011. Disponível no link. (acessado em 23.6.2016).
GURGEL, Rodrigo. Anna Akhmátova e o jugo da utopia. in: Rodrigo Gurgel - Literatura e Escrita Criativa, 29.10.2011. Disponível no link. (acessado em 23.6.2016).
JOVANOVIC, Vojislav Aleksandar.. Uma voz emocionada (A delicada poesia de Anna Akhmátova, vítima e testemunha de meio século de História da URSS).. Veja, S. Paulo, p. 103 - 104, 4 dez. 1991.
KEMPINSKA, Olga Donata Guerizoli. A tradução do efeito humorístico. Itinerários, Araraquara, n. 38, p.47-58, jan./jun. 2014. Disponível no link. (acessado em 23.6.2016).
KEMPINSKA, Olga Donata Guerizoli. O ritmo e o gênero. in: Remate de Males, Campinas-SP, (34.1): pp. 113-126, Jan./Jun. 2014. Disponível no link. (acessado em 23.6.2016).
MORAES, Milene. "Anna Akhmátova: a poesia como resistência". In: III Colóquio Mulheres em Letras/I Encontro Nacional Mulheres em Letras, 2011. Anais do I Encontro Nacional Mulheres em Letras, 2011.
PARISOT, Christian. Modigliani. biografia. [tradução de Julia da Rosa Simões]. Série Biografias L&PM, 2006.
PILATI, Alexandre. A voz de todas as Rússias. in: Especial, Caderno C - Correio Braziliense, 13 de dezembro de 2008. Disponível no link. (acessado em 26.6.2016).
SOARES, Sonia Branco. A Bachiana Brasileira de Anna Akhmátova. [tradução e artigo Sonia Branco Soares]. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2014.


Nikolai Gumilev, Lev Gumilev and Anna Akhmatova (1913)

O último brinde
Bebo à casa arruinada,
às dores de minha vida,
à solidão lado a lado
e à ti também eu bebo –

            aos lábios que me mentiram,

            ao frio mortal nos olhos,
             ao mundo rude e brutal
             e a Deus que não nos salvou.
.

Последний тост
Я пью за разорённый дом,
За злую жизнь мою,
За одиночество вдвоём,
И за тебя я пью,—

За ложь меня предавших губ,
За мертвый холод глаз,
За то, что мир жесток и груб,
За то, что Бог не спас.
- Anna Akhmátova (А́нна Ахма́това), no livro "Anna Akhmátova: antologia poética". [seleção, tradução, apresentação e notas Lauro Machado Coelho]. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2009.



Anna Akhmatova, por Zinaida Serebriakova (1922)
OUTRAS FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
:: Literatura Russa
:: Ponto Virgulina - Revista de Tradução Literária
:: Rodrigo Gurgel - Literatura e Escrita Criativa


NA REDE
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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Anna Akhmátova - linguagem e mitopoética. Templo Cultural Delfos, junho/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 14.6.2018.




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