Lucinda Persona - travessias poéticas

Lucinda Persona - foto: acervo da autora
Pedaço do tempo
E por último
(depois de todos)
este momento
tão sem forma e tom
De passagem
como o vento
que não vejo por dentro
que não vejo por fora
este momento
tão alheio à vida e à morte
Assemelha- se ao pólen
Solto na floresta
este momento
pedaço do tempo
profundamente escondido
em todo lugar

Que trabalho
não posso apanhá-lo
com palavra alguma.

- Lucinda Persona, em "Tempo comum". Rio de Janeiro: 7Letras, 2009.


Lucinda Nogueira Persona (escritora, bióloga e professora), nasceu em Arapongas, PR, em 11 de março de 1947. Vive em Cuiabá, MT. É formada em Biologia pela UFMT e mestre em Histologia e Embriologia pela UFRJ. Professora aposentada pela Universidade Federal de Mato Grosso, atualmente leciona na Universidade de Cuiabá. Já publicou os livros de poesia Por imenso gosto (1995) – Prêmio especial no Concurso Cecília Meireles (1997) da UBE; Ser cotidiano (1998); Sopa escaldante (2001) – Prêmio Cecília Meireles (2002) da UBE e Leito de Acaso (2004). É autora de contos e crônicas, Colabora com jornais e revistas mato-grossenses escrevendo resenhas, crônicas e contos. Sua escrita (poesia e ficção) tem sido objeto de vários estudos especializados. Ocupa a cadeira nº 4 da Academia Mato-grossense de Letras.
:: Fonte: Editora 7Letras / REBRA (acessado em 22.1.2016).


"Vejo-me apenas como aprendiz nessa escola colossal da vida, alguém que se interessa por tudo no mundo, que sonha bastante, que enfrenta dificuldades, que se sente melhor e vive espiritualmente melhor realizando a escrita, esta difícil e complexa tarefa."
 - Lucinda Persona, em "Entrevista a Lorenzo Falcão". in: Tyrannus Melancholicus, 2015.


PRÊMIOS
1993 - Prêmio Literário Primeiro lugar em Crônicas, Fundação de Cultura e Turismo de Mato Grosso.
1988 - Prêmio Literário Autor Mato-grossense-Poesia, Fundação de Cultura e Turismo de Mato Grosso.

1997 - Prêmio Especial do Júri - concurso Cecília Meireles da União Brasileira de Escritores – UBE, pela obra "Por imenso gosto".
2002 - Prêmio Cecília Meireles da União Brasileira de Escritores – UBE, pela obra "Sopa escaldante".



CONDECORAÇÕES E HOMENAGENS
2006 - Título de Cidadã Cuiabana, Câmara Municipal de Cuiabá - Estado de Mato Grosso.
2010 - Medalha 40 anos UFMT - Educação e cidadania. Universidade Federal de Mato Grosso.
2013 - Ordem do Mérito Mato Grosso, no grau de Cavaleiro, do Governo do Estado de Mato Grosso.



Lucinda Persona - foto: acervo da autora
OBRAS DE LUCINDA PERSONA
Poesia
:: Por imenso gosto. São Paulo: Massao Ohno, 1995, 88p.
:: Ser cotidiano. Rio de Janeiro: 7Letras, 1998, 60p.

:: Sopa escaldante. [capa Marcos de Moraes]. Rio de Janeiro: 7Letras, 2001, 92p.
:: Leito de acaso. [capa Silvia Vieira, ilustração 'As bailarinas', de Helena Dal´Maso]. Rio de Janeiro: 7Letras, 2004,
84p.
:: Tempo comum. Rio de Janeiro: 7Letras,2009, 72p.

:: Entre uma noite e outra. [prefácio José Castello; capa/ilustração Regina Pena]. Cuiabá: Entrelinhas, 2014.

Infanto-juvenil
:: Ele era de outro mundo.
Cuiabá: Tempo Presente, 1997, 26p.
:: A cidade sem sol.
Rio de Janeiro: Razão Cultural, 2000, 46p.

Antologias (participação)
:: Na margem esquerda do rio: contos de fim de século. (contos).. [organização Juliano Moreno e Mário Cezar Silva Leite]. São Paulo: Via Lettera, 2002.
:: Fragmentos da alma mato-grossense.
(contos e poesia).. [organização Maria Teresa Carrión Carracedo]. Cuiabá: Entrelinhas, 2003.
:: Cada canto tem seu conto. (conto).. [organização Marilu Linz Flygare e Helena Ferreira]. Rio de Janeiro: Sobreletras, 2004.
:: Roteiro da poesia brasileira: anos 90. (poesia).. [seleção e prefácio Paulo Ferraz; direção Edla van Steen].. (Coleção roteiro da poesia brasileira). São Paulo: Global, 2011.


Dissertação mestrado
PERSONA, Lucinda Nogueira. O ciclo do epitélio do tatu peludo euphractus sexcinctus flavimanus (desmarest, 1804) - (dasypodidae, edentata).. (Dissertação Mestrado em Histologia e Embriologia). Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, 1981.

Textos em jornais de notícias/revistas 
PERSONA, Lucinda Nogueira. Difícil também é fotografar o futuro. (crônica). in: DC ilustrado, Cuiabá MT, 13.11.2014. Disponível no link. (acessado em 5.2.2016).
________. Damascos, folha de alface, vertiginosa, minha janela. Lado7, Rio de Janeiro, RJ, p. 65 - 70, 31 out. 2012.
________. Marta e os cantos para atravessar um dia. Diário de Cuiabá, Cuiabá, MT, p. E5 - E5, 11 mar. 2012.
________. A poesia que vem do cerrado. Folha do Estado, Cuiabá, p. 3 - 3, 19 dez. 2011.

________. Bem-vindo o tempo para outros tempos. Diário de Cuiabá, Cuiabá, MT, p. E3 - E3, 5 dez. 2011.
________. Uma visão enternecida do cotidiano. Revista Letras Mil www.revistaletrasmil.com, Cuiabá, MT, 31 jul. 2011.
________. Uma poesia nas dimensões do coração. Diário de Cuiabá, Cuiabá, MT, p. E7 - E7, 29 maio 2011.
________. Ribamar: para viver, lembrar e escrever. Diário de Cuiabá, Cuiabá, p. E3 - E3, 6 dez. 2010.
________. Visões e travessuras de menino. Folha do Estado, Cuiabá, p. 4 - 4, 30 maio 2010.
________. O universo realista de Luciene Carvalho. Folha do Estado, Cuiabá/MT, p. 2A - 2A, 20 jul. 2008.
________. Cocco: a gênese da pureza. Folha do Estado, Cuiabá/ MT, p. 2A - 2A, 22 jun. 2008.
________. Visões da realidade. Diário de Cuiabá, Cuiabá, MT, p. E3 - E3, 29 ago. 2006.
________. Tricô. RDM Revista de Mato Grosso, Cuiabá-MT, v. 111, p. 42 - 42, 17 jul. 2005.
________. Passageiros. RDM Revista de Mato Grosso, Cuiabá-MT, v. 103, p. 42 - 42, 22 maio 2005.
________. Biquínis. RDM Revista de Mato Grosso, Cuiabá-MT, v. 95, p. 38 - 38, 20 mar. 2005.
________. Carta para Emerson. RDM Revista de Mato Grosso, Cuiabá- MT, v. 90, p. 42 - 42, 6 fev. 2005.
________. As coisas despercebidas. Diário de Cuiabá, Cuiabá, MT, p. D1 - D1, 10 jan. 2005.
________. Roubos. RDM Revista de Mato Grosso, Cuiabá-MT, v. 83, p. 34 - 34, 21 nov. 2004.
________. Qual é o seu sonho?. RDM Revista de Mato Grosso, Cuiabá-MT, v. 68, p. 38 - 38, 8 ago. 2004.
________. Uma nova mulher. RDM Revista de Mato Grosso, Cuiabá-MT, v. 58, p. 34 - 34, 30 maio 2004.
________. Morte natural. RDM Revista de Mato Grosso, Cuiabá-MT, v. 54, p. 34 - 34, 2 maio 2004.
Lucinda Persona - foto: Stéfanie Medeiros/ Olhar Conceito
________. Até parece de mentira. RDM Revista de Mato Grosso, Cuiabá-MT,, v. 45, p. 34 - 34, 29 fev. 2004.
________. O segredo. RDM Revista de Mato Grosso, Cuiabá-MT, v. 39, p. 34 - 34, 21 dez. 2003.
________. Três sombras na noite. RDM Revista de Mato Grosso, Cuiabá-MT,  v. 32, p. 34 - 34, 2 nov. 2003.
________. Silêncio. RDM - Revista de Mato Grosso, Cuiabá-MT, v. 28, p. 34 - 34, 5 out. 2003.
________. Quarto de hotel entre os Alpes. Os restos mortais do Cerrado.. Poesia Sempre, Rio de Janeiro, p. 91 - 92, 31 ago. 2001.
________. Morte no lago. A Gazeta, Cuiabá-MT, v. 1, p. 3E - 3E, 12 jul. 2001.
________. Pesadelo. A Gazeta, Cuiabá-MT, v. 1, p. 3E - 3E, 21 jun. 2001.
________. Dia para viver. A Gazeta, Cuiabá-MT, p. 3E - 3E, 28 fev. 2001.

Entrevistas com Lucinda Nogueira Persona
BOTELHO, Míriam. O ser cotidiano de Lucinda Persona. [entrevista]. Diário de Cuiabá, Cuiabá, MT, p. C1 - C1, 17 dez. 1998.

ENTREVISTA. Lucinda Persona. in: Tyrannus Melancholicus, 28 de novembro de 2010. Disponível no link. (acessado em 22.1.2016).
FALCÃO, Lorenzo. Novos versos de Lucinda. [entrevista]. Diário de Cuiabá, Cuiabá, MT, p. E1 - E1, 27 set. 2009.

FALCÃO, Lorenzo. Entre uma noite e outra, esta entrevista. in: Tyrannus Melancholicus, 2015. Disponível no link. (acessado em 22.1.2016).
 
Lucinda Persona - foto: Tyrannus Melancholicus

POEMAS SELECIONADOS DE LUCINDA PERSONA

Aquele súbito vento
Aquele súbito vento
entrou nas casas
Desfolhou jornais
derrubou estátuas e bateu portas
Quebrou santos de barro
fez cantar os alumínios
Bonecas rodopiaram
Gatos fugiram arrepiados
em direção ao ponto de partida
Fantasmas se toparam
em exageros de horror
Mulheres e meninos inermes
flutuaram nos quintais
(os homens, ao longe, escaparam
cada qual no seu trabalho)
com o vento veio
a irreprimível poeira
Soterrou os livros
dominou o ar
e outras lacunas
Tudo perdeu contorno e sentido
A vida mudou de lugar. 

- Lucinda Persona, em "Por imenso gosto". São Paulo: Massao Ohno, 1995.


Calabouço
Vida
lavrada na ata cotidiana
síntese do sentimento
das realidades perdidas
(e amadas inutilmente)

Estou agora como gosto de estar
entre meus objetos e os escombros
do silêncio noturno.Aqui, nesta sala
Neste universo como princípio e fim
onde nada se transforma
de uma hora para outra
e qualquer visita é improvável

Não faz tempo (eu que estou no imenso calabouço de uma noite)
Tive uma assombração de sol
Fui a cozinha e vi mamões maduros
Adormecidos numa fruteira.
Os mamões tem sementes negras
sementes negras e úmidas
em seu calabouço
e que amanhã poderão estar livres
dar novos mamoeiros
eu, não
           e o mundo é assim.

- Lucinda Persona, em "Sopa escaldante". Rio de Janeiro: 7Letras, 2001.


Damascos
Pode ser muita coisa
e não ser nada

É difícil à mãe de família
fazer pouco das atividades
de toda a vida

Não apenas a fome
É uma necessidade infindável
enquanto se vive

Uma lágrima bem desenvolvida
ameaça os damascos
(são lindos)
 

- Lucinda Persona, em “Entre uma noite e outra”. Cuiabá: Entrelinhas, 2015.  

 
Lucinda Persona - foto: acervo da autora
Em hora crepuscular
Ela (mulher velada)
olha para os confins
da rua suburbana
Aos poucos
os elementos de sua rotina
perdem contorno e contraste
Quando Ele ainda
é um ponto
dançando no horizonte
das coisas habituais
Ela já se aquece
    tem sido completa
    no seu reino simplificado
Ele (homem de transparências)
vem devagar pelo meio-fio
Ela
não se furta ao sonho diário
de vê-lo crescer
e Ele cresce
dentro dos olhos pássaros dela

e dentro do que nela é tépido. 
- Lucinda Persona, em "Por imenso gosto". São Paulo: Massao Ohno, 1995, p. 41.


Estrelas
Ver (o que outro olho não vê)
acima de todas as coisas
estrelas
pontuais, incendiadas, dançarinas
estrelas
espalhadas como pó de arroz
estrelas
invadindo o terreno das solidões
e dos assuntos necessários
estrelas
multiplicando o valor da noite
num livre jogo de mercado
estrelas
alertando como faróis
estrelas
estrelas
e quanta necessidade eu tenho
de dizer mais.
 
- Lucinda Persona, em "Tempo comum". Rio de Janeiro: 7Letras, 2009.




Figos
O nada é uma grandeza indescritível
dimensão que me fadiga e maravilha.
É como se Deus me perguntasse:
O que vês, filha?
E eu não soubesse responder
com absoluta clareza
como o fez Jeremias
diante de dois cestos de figos.
- Lucinda Persona, em "Leito de acaso". Rio de Janeiro: 7Letras, 2004.



Folhas pardas e vermelhas
galhos e ervas secas
são régios motivos      
que o chão abriga
para passos lentos
e alguma poesia
Para se evocar o escrito florido:
“toda carne é como erva”
e “roubar
o espírito” dizendo:
a carne é rosa branca, amarela,
encarnada
este espinho tão fundo é nada
Não dói.
Mas todo o sangue se vai
nesse morrer repentino.
 

- Lucinda Persona, em "Por imenso gosto". São Paulo: Massao Ohno, 1995, p. 67. 


Homens, formigas
Com patas e mandíbulas
as formigas acumulam terra
na frente de seus ninhos
formando pequenos montes
que um poeta argentino
chamou de “grandes túmulos”.
As formigas se enterram vivas.

Os homens desses lugares
mais calmos e distantes
(como a cidade da minha infância)
ainda fazem covas simples no chão
para enterrar os mortos
demarcando cada local
com pequeno morro de terra socada.
As sepulturas frescas
ficam lá erguidas
ondulando em cad
eias paralelas
formando as mais baixas
montanhas de um continente.

Homens, formigas, grandes comparsas
trabalhando seus mundos subterrâneos

a escuridão de seus destinos.
- Lucinda Persona, em "Ser cotidiano". Rio de Janeiro: 7Letras, 1998, p. 21. 


Língua
Floresce
na pia de aço
um enorme buquê
de couve-flor.

Floresce
é um modo de dizer
com nervos
com saliva
com céu
e com palavra
da minha língua deslumbrada.

A língua que ajuda
a empurrar à digestão
o cotidiano.  

- Lucinda Persona, em "Ser cotidiano". Rio de Janeiro: 7Letras, 1998. 


Modo velho de acordar
De repente
num modo velho de acordar
abro a úmida casca noturna.
Sou folha? Inseto? Passarinho ou gente?
Que dia é hoje? Que horas são?
Onde está o homem que dorme comigo?

No meio das suposições
minhas pálpebras amarfanhadas
são peso e desproporção,
minhas córneas não entendem.
Dói, na penumbra, o reajuste dos meus ossos.
Dói a bexiga que tem rígido horário.
Dói o cotidiano no meu caminho.
 

- Lucinda Persona, em "Ser cotidiano". Rio de Janeiro: 7Letras, 1998. 


Preta como a noite
Tenho o coração sempre aberto
ao que ficou para trás

Era uma galinha
preta como a noite
numa postura de alerta
tomada subitamente
quando
depois das trevas
o poleiro clareou

Disso em diante
tudo se fez segundo o costume
Excluídas as penas
foi conhecido em carne
aquele organismo de cúpulas
que não se rendeu sem luta

Que não se rendeu sem luta.

- Lucinda Persona, em "Entre uma noite e outra. Cuiabá: Entrelinhas, 2014.


Triste
Isto
é dizer que tudo no mundo
é mais ou menos triste
eu compartilho
a melancolia
das coisas comuns e inevitáveis
me fascina
a trilha dos pequenos assuntos.

O infinito é triste (todos já disseram)
e esta síntese mais ainda
mais ainda.

- Lucinda Persona, em "Sopa escaldante". Rio de Janeiro: 7Letras, 2001.


Tuiuiú

Lucinda Persona - foto: acervo da autora
De nossas necessidades
faço histórias, ponderações, estudos
explicação comum de tuiuiú em tenho:
ele passou da conta no crescer

o tuiuiú, quando acorda e abre as asas,
ultrapassa as bordas do amanhecer
deste modo,
o espaço aéreo só comporta um.

O tuiuiú é tão grande, tão grande que
ao levantar vôo
o céu sai de perto.

Por fim, Senhor meu, por fim
quando um tuiuiú vai a óbito
(por nesta vida não falta adversidade)
quando um tuiuiú vai a óbito,
as borboletas requisitam guindaste
(pelo menos para as penas - do lado do coração).
 

- Lucinda Persona, em "Sopa escaldante". Rio de Janeiro: 7Letras, 2001.


Uma chama
no início da madrugada
de qualquer dia
nos faz atravessar
a madrugada
como
    pássaros
e chegar
Lá é um feliz
campo de brilhos:
o grande sol
(e esta fala acabará noturna?)

- Lucinda Persona, em "Por imenso gosto". São Paulo: Massao Ohno, 1995, p. 43. 


Um fato de todos os dias
 Viver é descobrir de súbito
que pode ser sempre novo
um fato de todos os dias
(pela vista dos meus olhos)

Não há sol que morra
sem que o declare
a meu modo e maravilha
além da qual, se algo existe,
é menor,
bem menor
Que outros sintam o mesmo, Senhor. 
 

- Lucinda Persona, em "Tempo comum". Rio de Janeiro: 7Letras, 2009.


Um homem triste
Em local desprotegido
caiu a noite.

    Nuvens dilaceradas
    flutuavam distantes
    como lenços perdidos.

Um homem triste
olhando o teto de estrelas
pensou: sou pequeno
terrivelmente pequeno
e mais ainda diminuiu em altura.

Depois, por certo tempo, ele chorou.
Não a quantidade necessária
para cada amargura soterrada
porém o suficiente
para alívio momentâneo.
Quando voltou a olhar o céu
frangalhos de nuvens
                            estrelas

pensava um pouco melhor:
eu sinto outra coisa maior
maior do que qualquer constelação
o que eu sinto é enorme e se estende
em todas as direções

(mas o que é eu não sei).
- Lucinda Persona, em "Sopa escaldante". Rio de Janeiro: 7Letras, 2001.


Vagarosas, sombrias
Vagarosas, sombrias, vão as gôndolas.
Uma atrás da outra. Vejamos como é isso:
procissão confusa, eterno dobrar
de líquidas esquinas.
Os canais as canções o lodo.
Nenhum vento me alcança aonde não vou.
Os gondoleiros, monumentais e monótonos,
na clara demonstração de uma rotina
remando remando
puxando as águas dos alicerces podres.
O que pensa um gondoleiro
(assim grande e silencioso)
enquanto rema com rosto de cera e vazio nos olhos?
Alguém disse que o movimento é eterno.
O meu não-movimento é essa viagem.

De súbito, uma sacada com flores vermelhas.
Sem perda de tempo elas gritam
silenciosas como nunca
o choque interno do seu sangue.

Nada é fixo ou definido.
O que importa é conhecer a fundo
a superfície das máscaras
 
- Lucinda Persona, em "Ser cotidiano". Rio de Janeiro: 7Letras, 1998, p. 38.
 


Vazio

Lucinda Persona - foto: (...)
Na última hora da tarde 
e nenhum sinal de vida ao redor
o homem disse baixinho:
me acho vazio, inteiramente vazio
era uma frase de bíblia
era uma frase de oração
era das ruas tal frase.
Como dissera aos seus botões
(aos botões indiferentes de uma indiferente camisa)
não teve resposta
e a palavra se perdeu
num turbilhão que nem existia.

Um maravilhoso silêncio flutuou 
sobre seus erros mais perdoáveis
estava vazia a casa
vazio estava o bairro
talvez até a cidade
e assim permaneceu o homem
como se estivesse no fim de tudo.

Quando o distante sol se apagou de vez
e a sombra mais escura
tocou seu ombro
ele já pensava o seguinte:
deste vazio eu não morro. 

- Lucinda Persona, em "Sopa escaldante". Rio de Janeiro: 7Letras, 2001, p. 25.


Viver...
Viver é descobrir de súbito
Que pode ser sempre novo
    Um fato de todos os dias
    (pela vista dos meus olhos)

Não há sol que morra
Sem que o declare
A meu modo e maravilha
Além da qual, se algo existe,
    É menor,
    Bem menor
Que outros sintam o mesmo, Senhor.

- Lucinda Persona, em "Tempo comum". Rio de Janeiro: 7Letras, 2009, p. 59.

Lucinda Persona - foto: Stéfanie Medeiros/ Olhar Conceito
FORTUNA CRÍTICA DE LUCINDA PERSONA
BARRETO, Matheus Jacob. Sobre Lucinda Persona. in: Beleza Conhecimento, 17 de junho de 2014. Disponível no link. (acessado em 22.1.2016).
BOTELHO, Míriam. Todos os sabores de Lucinda. [reportagem]. in: Diário de Cuiabá, edição nº 10001, 9.7.2001. Disponível no link. (acessado em 22.1.2016).
CASTELLO, José. Um novo horizonte no gosto pelas miudezas. O Estado de São Paulo (Caderno 2/Cultura), São Paulo-SP, 27 fev., 2005, p. D5.
CASTELLO, José. O laboratório de Lucinda. O Globo (Prosa & Verso). Rio de Janeiro-RJ, 25 jul., 2009, p. 4.
CLARO, Adenil da Costa. Poesia Mato-grossense de exaltação da terra. (Dissertação Mestrado em Estudos Literários). Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, 2005. 
COCCO, Marta Helena. O imaginário na poesia de Lucinda Persona: sob a tirania da finitude, a pulsão da vida. (Tese Doutorado em Letras). Universidade Federal de Goias, UFGO, 2013.
Lucinda Persona - foto: Tyrannus Melancholicus
COCCO,  Marta  Helena. O Deus Cristão e a Deusa Grega Deméter na poesia de Lucinda Persona. in: Olga Castrillon Mendes; Vera Maquêa. (Org.). Literatura, Tradição, Religiosidades. 1ª ed., Cáceres: Editora Unemat, 2014, v. 1, p. 269-280.
COCCO,  Marta  Helena. O ensino da literatura produzida em Mato Grosso - regionalismo e identidades. Cuiabá: Cathedral Publicações, 2006. v. 1000. 144p.
COCCO,  Marta  Helena. A linguagem como resistência no fazer poético de Lucinda Persona. Revista Ecos (Cáceres), v. 5, p. 17-21, 2007.
COCCO,  Marta  Helena. Um narrador sob o disfarce do tempo em ´Vovô morrerá hoje' de Lucinda Persona. In: Luzia A. Oliva dos Santos. (Org.). Tópicos de Leitura - literatura e contexto. Cuiabá: Ed. da Autora, 2011, v. , p. 113-124.COCCO,  Marta  Helena. Culinária Poética em Lucinda Persona: um banquete de imagens. in: Mário Cezar Silva Leite. (Org.). Mapas da mina: estudos de literatura em Mato Grosso. Cuiabá: Cathedral Publicações, 2005, v., p. 141-156.
COCCO,  Marta  Helena; GOMES, Helen K.S... O arquétipo do velho sábio e a simbologia da concha em "A cidade sem sol' de Lucinda Persona. Profiscientia (Cuiabá), v. vI, p. 11-20, 2011. 
COCCO,  Marta  Helena. Sopa escaldante de Lucinda Persona: para comer com garfo e faca. Folha do estado, Cuiabá, p. 5-A - 5-A, 14 set. 2003.
COCCO,  Marta  Helena. Do cerrado ao coração: fronteiras esfumaçadas na poesia de Lucinda Persona. Caderno de Resumos - IV Seminário de Linguagens – Mestiçagens culturais. UFMT, Cuiabá-MT. 5-7 nov. 2003, p. 92.  
COCCO,  Marta  Helena. A linguagem como resistência no fazer poético de Lucinda Persona. In: X Congresso Internacional da Abralic, 2006, Rio de janeiro. Lugares dos discursos. Rio de janeiro: cd, 2006. v. 1. p. ---.
COCCO, Marta Helena; TURCHI, Maria Zaíra. A poética do cotidiano doméstico, de Lucinda Nogueira Persona, sob a regência de Cronos. in: sbcnet. Disponível no link. (acessado em 22.1.2016).  
COELHO, Nelly Novaes (org). Dicionário crítico de escritoras brasileiras: (1711-2001). São Paulo: Escrituras Editora, 2002.
COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de.(org). Enciclopédia de literatura brasileira. 2ª ed., rev. ampl. atual. e il. [coordenação Graça Coutinho e Rita Moutinho]. São Paulo: Global Editora; Rio de Janeiro, RJ: Fundação Biblioteca Nacional/DNL; Academia Brasileira de Letras. 2001.

FLORES, Hilda Agnes Hübner (org). Dicionário de mulheres. Porto Alegre: Nova Dimensão, 1999. 576p.; 2ª ed., Florianópolis: Editora Mulheres, 2011. 800 p.: il. 
Lucinda Persona - foto: Stéfanie Medeiros/ Olhar Conceito
FORTES, Adalgisa Gonçalves. A metapoesia de Sophia Andresen e Lucinda Persona: aproximações literárias. (Dissertação Mestrado em Estudos de Linguagem). Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, 2006. Disponível no link - e - link. (acessado em 22.1.2016).
MEDEIROS, Stéfanie. Lucinda Persona: Conheça a nova imortal da AML que tomará posse nesta terça-feira. in: Olhar Direto, 30.9.2014. Disponível no link. (acessado em 21.1.2016).
MELLO, Wanda Cecilia Correa de.. De autores e autoria: um recorte acerca da construção do campo literário em Mato Grosso. (Dissertação Mestrado em Estudos de Linguagem). Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, 2006.
MORAES, Renato Cardoso de.. Poesia em tela: Lucinda Persona. (Dissertação Mestrado em Estudos de Linguagem). Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, 2010. Disponível no link. (acessado em 22.1.2016). 
NADAF, Yasmin Jamil. Discurso de recepção à acadêmica Lucinda Nogueira Persona, na Sessão de sua posse na Academia Mato-Grossense de Letras, em 30/9/2014. Revista da Academia Mato-Grossense de Letras, v. 1, p. 91-100, 2015.
NAVEIRA, Raquel. A cidade sem sol, de Lucinda Nogueira Persona. Correio do Estado, Caderno B. Campo Grande, MS, 13 mai. 2000, p. 7.
REIS, Célia Maria Domingues da Rocha; MORAES, Renato Cardoso de.. A forma óbvia: poesia e pintura em Lucinda Persona. Texto Poético, v. 13, p. 1-9, 2012. Disponível no link - link. (acessado em 22.1.2016).
REIS, Célia Maria Domingues da Rocha. Uma poesia chamada Persona. Revista Ecos (Cáceres), Cáceres/MT, v. 2, p. 20-36, 2004. Disponível no link. (acessado em 22.1.2016).

ROLON, Renata Beatriz B.. No fundo do mato virgem nasceu uma literatura: história e análise de obras direcionadas para crianças e jovens em Mato Grosso. (Tese Doutorado em Letras). Universidade de São Paulo, USP, 2014.
SILVA, Veranildes. Lucinda Nogueira Persona: imaginário poético. (Dissertação Mestrado em Estudos de Linguagem). Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, 2009. Disponível no link. (acessado em 22.1.2016).
SILVA, Veranildes. A significação dos espaços na poesia de Lucinda Nogueira Persona. (Monografia Graduação em Letras). Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, 2003.
VIEIRA, Luiz Fernando. O alinhavo poético na simplicidade de Lucinda Persona. in: Gazeta Digital, 7 de outubro de 2009. Disponível no link. (acessado em 22.1.2016).
WALKER, Marli Terezinha. Ruptura e continuidade em três séculos de poesia feminina em Mato Grosso. (Tese Doutorado em Literatura e Práticas Sociais).  Universidade de Brasília, UnB, 2013. Disponível no link. (acessado em 22.1.2016). 

Lucinda Persona - foto: Stéfanie Medeiros/ Olhar Conceito

Rumorosa cascata
de uma nuvem de verão
que se enterra
no jardim
Desta clara torrente
bebem as raízes
minhocas errantes se desnudam
de sua melhor vestidura
Interminável chuva
de lâminas tão finas
sobre pedras
as pedras recusando
a sua posteridade
de torrões de açúcar.

 - Lucinda Persona, em "Por imenso gosto". São Paulo: Massao Ohno, 1995.



Lucinda Persona - foto: acervo da autora
EDITORAS
:: 7Letras
:: Entrelinhas Editora


"A cidade é o que é
Eu sou o que sou
Mas às vezes parece
Que somos iguais
de tanto estarmos sós
dentro de nós mesmas"
- Lucinda Persona, em "Tempo comum". Rio de Janeiro: 7Letras, 2009.



OUTRAS FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
:: Academia Mato-Grossense de Letras - Lucinda Persona
:: Antonio Miranda
:: Revista Biografia
:: Rebra - Rede de Escritoras Brasileiras



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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Lucinda Nogueira Persona - travessias poéticas. Templo Cultural Delfos, janeiro/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 5.2.2016.



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