Elisa Lucinda - a lira multipla

Elisa Lucinda - foto: Acervo Lucinda
"A nossa única revolução é educacional. Essa é que vai mudar tudo"
- Elisa Lucinda


Elisa Lucinda Campos Gomes (jornalista, poeta, escritora, professora, atriz, letrista e cantora), nasceu em 2 de fevereiro de 1958, em Vitória, no Espírito Santo. No início dos anos de 1970, em sua cidade natal, Vitória, fez o curso de interpretação teatral da poesia com Maria Filina.
Cursou Comunicação Social na Universidade Federal do Espírito Santo, formando-se em Jornalismo na década de 1980.
Foi professora primária e universitária.
Elisa Lucinda - foto: Acervo Lucinda
Em 1986, transferiu-se para o Rio de Janeiro, ingressando na CAL (Casa de Artes de Laranjeiras), onde cursou interpretação teatral. No ano seguinte, trabalhou no filme "Referência", de Ricardo Branco.
Em 1989, no Teatro Villa-Lobos, atuou no musical "Rosa - Um musical brasileiro", de Domingos de Oliveira e Joaquim Assis. Neste mesmo ano, participou da novela "Kananga do Japão", de Tizuka Yamazaki, na TV Manchete do Rio de Janeiro. Ainda neste ano, ganhou o" Prêmio de Atriz Revelação" no "Festival de Cinema Brasileiro", "Troféu Candango", em Brasília.
Em 1990, atuou na minissérie "A escrava Anastácia", dirigida por Henrique Martins, na TV Manchete de São Paulo. Neste mesmo ano, ganhou o "Prêmio de Melhor Atriz" no "Rio Cine Festival". No ano seguinte, participou da peça "Bukowski - Bicho solto no mundo", adaptação de Domingos de Oliveira e Taciana Studart. Ainda em 1991, escreveu com Walney Costa  a peça "60 e over",  direção Maurício Abud, cujo elenco contou com Felipe Camargo e Vera Barreto.
Em 1992 participou do filme italiano, rodado no Brasil, "Butterfly", de Toni Cervi. Neste mesmo ano, escreveu a peça "A lua que menstrua", com direção de Ana Kfouri, com textos de Elisa Lucinda, Clarice Lispector e Adélia Prado. No ano seguinte, escreveu a peça "Deus", que estava sendo ensaiada com Grande Otelo no papel principal e não chegou a ser encenada, em decorrência da morte do ator.
Em 1993, lançou o livro de poemas "Aviso da lua que menstrua". Em 1994, lança pela Massao Ohno Editor, o livro "O semelhante", que transformou em espetáculo e percorreu várias capitais brasileiras, e, atuou no filme "A causa secreta", de Sérgio Bianchi.
No ano de 1997, lançou o CD "O semelhante". No disco, interpretou vários de seus poemas e ainda contou com as participações especiais de Miguel Falabela, Mauro Salles, Paulo José, Zezé Polessa, Juliano Gomes e Leandro Braga.
No ano de 1999, sua composição "Alma-te boca" foi incluída no disco "Estrada", Bete Calligaris, lançado pelo selo Geléia Geral.
Em 2000, atuou ao lado de Zezé Polessa, Kakau Gomes, Sheila Mattos e Tuca Andrada, no musical "Crioula", de Stella Miranda. O musical, que estreou no Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, contou a vida de Elza Soares. Participou, ao lado de João Ubaldo Ribeiro, Marco Lucchesi e Anibal Bragança, do Seminário "A Cara do Livro - Poética do texto e produção musical", realizado em outubro deste mesmo ano no Teatro da UFF, em Niterói. No ano seguinte, lançou o disco "Euteamo e suas estréias", que contou com a participação de Marília Pêra interpretando "LilithBalangandã" e "Saga de amor e sorte". Ainda em 2001, Kátia Rocha interpretou "Central Park", parceria de ambas incluída no disco, "Brasileira", e no qual a faixa-título foi de sua autoria em parceria com Leandro Braga, atuando como vocalista em algumas faixas do disco.
No ano de 2002 apresentou o show "Pare de falar mal da rotina", no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Neste mesmo ano, ao lado de Chico Buarque, Abel Silva, Antônio Cícero, Paulinho Lima, Ana Terra, Alcione, Leila Coelho Frota, Adélia Prado, Afonso Romano de Sant'Anna, Ritchie, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Gabriel, O Pensador, José Carlos Capinam e Murilo Antunes, entre outros, num total de 149 pessoas, participou do álbum com quatro CDs em homenagem ao poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. O álbum intitulado "Reunião - O Brasil dizendo Drummond" foi lançado pelo selo Luz da Cidade. Ainda em 2002 escreveu a peça "Te pego às nove - uma tragicomédia da espera".
Elisa Lucinda - foto: Acervo Lucinda
Em 2003 apresentou o espetáculo "A língua do amor" no Ballroom e participou como atriz na novela "Mulheres apaixonada", da Rede Globo e a ainda da da segunda trilha sonora desta mesma novela, na qual interpretou "Alguém como tu" (antigo sucesso do cantor Dick Farney). Apresentou o espetáculo "Parem de falar mal da rotina" na Casa do Riso, no Leblon, no Rio de Janeiro. Sua composição "Amor, cuidado", em parceria com Wagner Tiso, foi gravada em coro por um rol de artistas que incluiu Chico Buarque, Wagner Tiso e Luiz Melodia, entre outros, em favor da campanha contra a AIDS no Brasil.
Em 2004 apresentou o espetáculo "Parem de falar mal da rotina", um monólogo em castelhano, no Teatro do Acesso do "Fórum Barcelona 2004", com grande participação da platéia. Apresentou na TVE, do Rio de Janeiro, um especial sobre a cidade de Vitória, no qual contou detalhes de sua vida. Neste mesmo ano, ao lado do Farofa Carioca, Eletrosamba, Da Gama (Cidade Negra) e Torquato Mariano, apresentou-se com o grupo capixaba Maninal, no Ballroom, no Rio de Janeiro. Fez participação especial no disco da cantora capixaba Kátia Rocha, no qual interpretou em dueto a faixa "Espírito santinho", parceria com Leandro Braga. Em novembro deste mesmo ano, apresentou, ao lado de Tony Garrido, o lançamento do Selo Sesc-Rio em show no Canecão, que reuniu Ney Matogrosso e Pedro Luís e A Parede, Luana Cozzetti, André Gabeh, Vander Lee, Carlos Malta, Paulo Moura, Eliana Printes, Jussara Silveira, Preta Gil, Luciana Mello, entre outros. Ainda em 2004 sua parceria com Augusto Martins "No meio da banda", deu título ao disco do cantor.
No ano de 2005 escreveu e dirigiu o espetáculo poético "Amor, essa palavra de luxo", apresentado pelo atores Nando Rodrigues e Geovana Pires no Conjunto Cultural da Caixa - Camarote das Artes, no Rio de Janeiro. Neste mesmo ano sua composição "Coisa mais linda mais cheia de graça" (c/ Moacyr Luz) foi incluída no disco "A sedução carioca do poeta brasileiro", de Moacyr Luz e grupo Água de Moringa. Ainda em 2005 Ana Carolina e Seu Jorge apresentaram-se em São Paulo. Os dois artistas interpretaram no espetáculo sucessos de suas respectivas carreiras, além duas composições, que musicaram em parceria: "Só de sacanagem" e "Alfredo é Gisele", ambas com letras de Elisa Lucinda. O show foi gravado ao vivo para lançamento no DVD "Ana e Jorge".
Em 2006 apresentou-se como cantora ao lado do cantor e compositor Marcos Lima no Centro Cultural Carioca. Neste mesmo ano trabalhou como atriz na novela "Páginas da vida", de Manoel Carlos, na Rede Globo.
Convidada pela OIT (Organização Internacional do Trabalho), Elisa e sua equipe criaram um projeto de humanização da polícia e educação contra a exploração sexual da criança e do adolescente, o “Palavra de Polícia e outras Armas”. Com este projeto esteve também em Madrid e Lisboa no final do ano de 2010. Ao retornar, lançou na Livraria Cultura em São Paulo seu livro “Parem de Falar Mal da Rotina”, o décimo segundo de sua obra, fruto do espetáculo de mesmo nome visto por mais de 1 milhão de pessoas e que em 2011 completou 9 anos de estrada. Premiado como melhor espetáculo no troféu “Raça Negra 2010”, o espetáculo ainda poderá ser visto em 2011 em países africanos de língua portuguesa no projeto “Minha Pátria, Minha Língua” em parceria com o Itamaraty. 
Elisa Lucinda - foto: Agência Brasil/EBC
Indicada em 2010 para o “Prêmio Cláudia” categoria Cultura, Elisa vem fazendo um trabalho de capacitação dos professores de Escola Pública junto à Secretarias de Educação. As oficinas de capacitação pretendem levar a poesia para a sala de aula de modo vivo e construtor da cidadania. 
Múltipla, também está envolvida com um programa de poesia para a MultiRio e com as filmagens do longa “A Última Estação” - que foi gravado no Brasil e no Líbano.
É fundadora da Casa Poema, espaço no Rio de Janeiro onde, junto à sua equipe, mantém a Escola Lucinda de Poesia Viva onde ensina a dizer poemas de um modo coloquial e sincero. Ali também são realizados saraus e encontros com escritores, oficinas para empresas e capacitação para professores. Atualmente a Casa Poema coordena um curso de Poesia falada para policiais – “Palavra de polícia – outras armas”
:: Fonte: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira/ Casa da Poesia (acessado em 13.6.2015).


Espelho seu
"Quero ser minha para poder ser sua
Quero nunca mais partir
Pra longe de mim.
Vem, alivia, adianta, adivinha
Quero ser sua pra poder ser minha..."
- Elisa Lucinda, em "Euteamo e suas estréias". Rio de Janeiro: Editora Record, 1999.


PRÊMIOS
:: Prêmio de atriz revelação, no Festival de Cinema Brasileiro", "Troféu Candango", em Brasília, 1989.
:: Prêmio de melhor atriz, no Rio Cine Festival, 1990.
:: Prêmio altamente recomendável, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ, pelo livro 'A menina transparente', 2000.
:: Título de Cidadã Niteroiense, concedido pela Câmara de Vereadores de Niterói, 2007.
:: Prêmio Mulher Cidadã 'Bertha Lutz', concedido pelo Senado Federal, 2009.
:: Troféu 'Raça Negra 2010', na categoria Teatro, para o espetáculo “Parem de falar mal da rotina”, 2010.


Elisa Lucinda - foto: Eraldo Platz/Arquivo Raça Brasil
OBRA LITERÁRIA DE ELISA LUCINDA
Poesia
:: Aviso da lua que menstrua[prefácio Grande Otelo]. Rio de Janeiro: Edição da autora, 1993.
:: Sósia dos sonhosRio de Janeiro: Edição da autora; Velha Lapa, 1994, 40p.
:: O semelhante. São Paulo: Massao Ohno Editor, 1994. 227p.; Rio de Janeiro: Editora Record, 1998, 228p.
:: Euteamo e suas estréias. Rio de Janeiro: Editora Record, 1999, 240p.
:: Fúria da beleza. [prefácio Nélida Piñon]. Rio de Janeiro: Editora Record, 2006, 274p.

Contos
:: Contos de vista. Rio de Janeiro: Editora Global, 2014, 127p.

Romance
:: Fernando Pessoa, o cavaleiro de nada. Rio de Janeiro: Editora Record, 2014, 416p.

Infantil
Elisa Lucinda - foto: Acervo Lucinda
:: A menina transparenteRio de Janeiro: Salamandra, 2000, 28p.; Coleção Amigo Oculto. Rio de Janeiro: Galera Record, 2010, 24p.
:: O órfão famoso Coleção Amigo Oculto. Rio de Janeiro: Editora Record, 2002, 36p.
:: Lili, a rainha das escolhas Coleção Amigo Oculto. Rio de Janeiro: Editora Record, 2002, 36p. 
:: O menino inesperado[ilustrações Graça Lima].  Coleção Amigo Oculto. Rio de Janeiro: Editora Record, 2002, 36p.
:: A dona da festa. [poesia]. Coleção Amigo Oculto. Rio de Janeiro: Galera Record, 2011.

Comédia poética
:: Parem de falar mal da rotina. (adaptação para livro do espetáculo 'Parem de falar mal da rotina'). São Paulo: Editora Leya Brasil; Lua de Papel, 2010, 202p.

Parceria
:: A poesia do encontro – Elisa Lucinda e Rubem Alves. Campinas SP: Editora Papirus, 2008, 156p.

Antologia
:: 50 Poemas escolhidos pelo autor. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2004, 122p.

Peças de teatro (texto)
:: 60 e over. [em parceria com Walney Costa].. (1991).
:: Te pego às 9 – A tragicomédia da espera. (1992).
:: Deus. (1993).
:: Amor, essa palavra de luxo. (2005).


OBRA MUSICAL DE ELISA LUCINDA
Letrista
Elisa Lucinda - foto: Simone Portellada
:: Alfredo é Gisele (com Seu Jorge e Ana Carolina)
:: Alma-te boca
:: Amor, cuidado (com Wagner Tiso)
:: Brasileira (com Leandro Braga)
:: Central Park (com Kátia Rocha)
:: Coisa mais linda mais cheia de graça (com Moacyr Luz)
:: Espírito Santinho (com Leandro Braga)
:: Lilith Balangandã
:: Meu par (com Tureko)
:: No meio da banda (com Augusto Martins)
:: Saga de amor e sorte
:: Só de sacanagem (com Seu Jorge e Ana Carolina)


DISCOS - POESIA E MÚSICA
CD's de poesia de Elisa Lucinda
:: Semelhante. [participação: Miguel Falabella, Mauro Salles, Paulo José, Zezé Polessa, Juliano Gomes e Leandro Braga]. 27 faixas. Rio de Janeiro: Selo Gravadora Rob Digital, 1997.
:: Euteamo e suas estréias[participação: Irene Ravache, Marília Pera, Marília Gabriela, Alessandra Negrini e Zeca Baleiro]. 43 faixas + bônus. Rio de Janeiro: Selo Gravadora Rob digital, 2002.

CD's de poesia de outro autor
:: Notícias de mim. com poemas da poeta paulista Sandra Falcone. [recitados por Elisa Lucinda e Miguel Falabella; direção e produção de Gerson Steves]. O CD é resultado do espetáculo homônimo com roteiro e direção de Steves.

CD's de Música
:: Estação trem. Criado especialmente para a comemoração dos 150 anos da Ferrovia para a Vale do Rio Doce. O CD é resultado do espetáculo homônimo com roteiro e direção de Steves. Realização de Dakar Produções e Poesia Viva Produções, 2004.
:: Ô danada. Selo CCC – Centro Cultural Carioca, 2007.


ELISA LUCINDA NA TELEVISÃO (ATUAÇÃO/ATRIZ)
Artur Gomes e Elisa Lucinda - foto: César Ferreira
Telenovelas
1989Kananga do Japão …. (Sueli)Escrita por Wilson Aguiar Filho; Direção: Tisuka Yamasaki - TV Manchete.
1995Sangue do meu sangue …. (Beatriz)Texto original: Vicente Sesso; Adaptação: Paulo Figueiredo e Rita Buzzar; Direção geral: Nilton Travesso - SBT.
2003Mulheres apaixonadas …. (Pérola)Escrita por Manoel Carlos; Direção geral: Ricardo Waddington, Rogério Gomes e José Luiz Villamarim - Rede Globo.
2006Páginas da vida …. (Selma)Escrita por Manoel Carlos; Direção geral: Fabrício Mamberti e Jayme Monjardim - Rede Globo.
2009Viver a vida …. (Rita)Escrita por Manoel Carlos; Direção geral: Fabrício Mamberti e Jayme Monjardim - Rede Globo.
2011Insensato coração …. (Vilma)Escrita por Gilberto Braga e Ricardo Linhares; Direção geral: Vinícius Coimbra e Dennis Carvalho - Rede Globo.
2011 Aquele beijo …. (Diva de Sousa)Escrita por Miguel Falabella; Direção geral: Cininha de Paula - Rede Globo.
2012Lado a lado … (Norma). Escrita por Claudia Lage e João Ximenes Braga; Direção geral: Vinícius Coimbra e Dennis Carvalho - Rede Globo.

Mini-séries e episódios especiais
1990 – Escrava Anastácia …. (Ermelinda). Direção: Henrique Martins - TV Manchete.
1997Você decide  (episódio 21: Preconceito. exibido: 25/09/1997). Direção: Herval Rossano - Rede Globo.
1998 - Mulher (episódio: Jogos Proibidos. exibido: 06/05/1998). Direção: Cininha de Paula  Daniel Filho  José Alvarenga Jr. e Mário Márcio Bandarra  - Rede Globo.


ELISA LUCINDA NO CINEMA (ATUAÇÃO/ATRIZ)
Longa-metragem
:: A fábula da bela Palomera. Direção: Ruy Guerra (1987)
:: Barrela. Direção: Marco Antonio Cury (1990)
:: Butterfly. Direção: Toni Cervi (1992).
:: A causa secreta. Direção: Sérgio Bianchi (1994).
:: O testamento do senhor Napumoceno. Direção: Francisco Manso (1997). 
:: Terra de Deus. Direção: Iberê Cavalcante (2000)
:: A morte da mulataDireção: Marcel Cordeiro (2001). 
:: Seja o que Deus quiserDireção: Murilo Salles (2002). 
:: As alegres comadresDireção: Leila Hipólito (2003).
:: Maré, nossa história de amor. Direção: Lúcia Murat (2008)
:: A última estação. Direção: Marcio Curi (2012)

Curta-metragem
:: Referência. Direção: Ricardo Bravo (1988)
:: Maria Macaca. Direção: Lázaro Ribeiro (2015).

Documentário
:: Gregório de MatosDireção: Ana Carolina (2003). 


ELISA LUCINDA NO TEATRO
Atuação e textos
Elisa Lucinda - foto: Acervo Lucinda
:: Rosa, um musical brasileiro. Direção: Domingos de Oliveira (1989).
:: Bukowsky, bicho solto no mundo. Direção e adaptação: Domingos de Oliveira e Taciana Studart (1990).
:: 60 e over. [texto: Elisa Lucinda e Walney Costa]. Direção: Maurício Abud, (1991).
:: A lua que me instrua[Textos: Adélia Prado, Cioran, Clarice Lispector, Elisa Lucinda, Martha Medeiros e Nietzsche]. Direção e roteiro: Ana Kfouri (1992).
:: Crioula (musical).  Texto e direção: Stella Miranda (2000).
:: Antonio. [textos: Elisa Lucinda, Federico García Lorca, Fernando Pessoa e João Cabral de Melo Neto]. Direção: Marcia Abujamra (2002).
:: Pasárgada!. [texto: Manuel Bandeira]. Direção: Adrian Steinway (2005).
:: Parem de falar mal da rotina*Atuação de Elisa Lucinda e Geovana Pires; Supervisão: Amir Haddad; Direção e roteiro: Elisa Lucinda (2008).
:: A natureza do olhar. Atuação de Elisa Lucinda e Geovana Pires; Supervisão: Amir Hadad (2014?). 
:: Te pego às 9 – A tragicomédia da espera. [texto: Elisa Lucinda]. Direção e produção: José Luiz Gobbi (2012).
:: Um recital à Brasileira. [textos: Elisa Lucinda, Adélia Prado, Manoel Alegre, José Régio, Mário Quintana, Bocage, Camões e Fernando Pessoa]. Atuação de Elisa Lucinda e Geovana Pires; Supervisão: Amir Haddad; Realização: Companhia da Outra, Teatro Leblon, 2015.
* 13 anos em cartaz (2004-2015).

Adaptação
:: Charles Baudelaire, minha terrível paixão (Les Deniers Jours de Charles Baudelaire).. [Adaptação Elisa Lucinda]. Direção: Luiz Antonio Pilar; Produção: Lapilar Produções Artísticas, (2003).

Espetáculos poéticos
(monólogos, recitais e pockets shows, onde a música e a poesia se entrelaçam)
:: O semelhante. [texto: Elisa Lucinda]. com Mauro Salles, Irene Ravache. (SP, RJ, Cuba, Portugal, República do cabo Verde e Canadá). 2003.
Elisa Lucinda - foto: Cristina Lacerda
:: Sósias dos sonhos[texto: Elisa Lucinda]. Direção:, no Teatro Rival RJ, 1994. 
:: O semelhante. [texto: Elisa Lucinda]. Direção: Zezé Polessa, 1997.
:: Amor, essa palavra de luxo[texto: Elisa Lucinda]. Direção: Elisa Lucinda, 2005.
:: A hora agá. (RJ)
:: Pode café. (RJ)
:: O mar não tá pra preto(RJ)
:: Há uma na madrugada. (RJ, Lisboa e Porto/Portugal)
:: Coisa de mulher(RJ)
:: Sem telefone mas com fio(MG)
:: Te pego pela palavra.
:: Aviso da lua que menstrua.
:: Dona da frase. (BA, SP e MG)
:: Luz do só.
:: A língua do amor.
:: Capixabaéchique.
:: Euteamo, semelhante.
:: Olhos da cara. (2015).


"A poesia sua reclama a verdade do verbo, que é a expressão do trânsito humano ao largo da tragédia moderna. Há, no entanto, em seus refrãos poéticos, o gosto intenso pela vida. É-lhe prazeroso falar do amor, expondo-se inteira. A ela e a quem ama e deseja. Assim, inclina-se, generosa, diante das contingências do cotidiano, sob que forma ele se apresente: vasos, flores, cheiros, corpo, o gozo, ouro, a umidade das coisas."
- Nelida Piñon, no 'prefácio' ao livro "A fúria da beleza", de Elisa Lucinda. Rio de Janeiro, RJ: Record, 2006.


Elisa Lucinda - foto: Acervo Lucinda
POEMAS ESCOLHIDOS DE ELISA LUCINDA

A fúria da beleza
Estupidamente bela 
a beleza dessa maria-sem-vergonha rosa 
soca meu peito esta manhã! 
Estupendamente funda, 
a beleza, quando é linda demais, 
dá uma imagem feita só de sensações, 
de modo que, apesar de não se ter consciência desse todo, 
naquele instante não nos falta nada. 
É um pá. Um tapa. Um gole. 
Um bote nos paralisa, organiza, 
dispersa, conecta e completa! 
Estonteantemente linda 
a beleza doeu profundo no peito essa manhã. 
Doeu tanto que eu dei de chorar, 
por causa e uma flor comum e misteriosa do caminho. 
Uma delicada flor ordinária, 
brotada da trivialidade do mato, 
nascida do varejo da natureza, 
me deu espanto! 
Me tirou a roupa, o rumo, o prumo 
e me pôs a mesa... 
é a porrada da beleza! 
Eu dei de chorar de uma alegria funda, 
quase tristeza. 

Acontece às vezes e não avisa. 
A coisa estarrece e abre-se um portal. 
É uma dobradura do real, uma dimensão dele, 
uma mágica à queima-roupa sem truque nenhum. 
Porque é real. 
Doeu a flor em mim tanto e com tanta força 
que eu dei de soluçar! 
O esplendor do que eu vi era pancada, 
era baque e era bonito demais! 

Penso, às vezes, que vivo para esse momento 
indefinível, sagrado, material, cósmico, 
quase molecular. 
Posto que é mistério, 
descrevê-lo exato perambula ermo 
dentro da palavra impronunciável. 
Sei que é desta flechada de luz 
que nasce o acontecimento poético. 

Poesia é quando a iluminação zureta, 
bela e furiosa desse espanto 
se transforma em palavra! 
A florzinha distraída 
existindo singela na rua paralelepípeda esta manhã, 
doeu profundo como se passasse do ponto. 
Como aquele ponto do gozo, 
como aquele ápice do prazer 
que a gente pensa que vai até morrer! 
Como aquele máximo indivisível, 
que, de tão bom, é bom de doer, 
aquele momento em que a gente pede pára 
querendo que e não podendo mais querer, 
porque mais do que aquilo 
não se agüenta mais, 
sabe como é? 

Violenta, às vezes, de tão bela, a beleza é! 
- Elisa Lucinda, em "A fúria da beleza". Rio de Janeiro: Record, 2006.


Amanhecimento
De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada...
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.
- Elisa Lucinda, em "O semelhante". Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.


Aviso da lua que menstrua
Moço, cuidado com ela!
Há de se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
Elisa Lucinda - foto (...)
Cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
Às vezes parece erva, parece hera
Cuidado com essa gente que gera
Essa gente que se metamorfoseia
Metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
Mas é outro lugar, aí é que está:
Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
Que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
Transforma fato em elemento
A tudo refoga, ferve, frita
Ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
É que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
É que tô falando na "vera"
Conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
Delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
Ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
Já se alcança a "cidade secreta"
A Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
Cai na condição de ser displicente
Diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
Que a mulher extrai filosofando
Cozinhando, costurando e você chega com mão no bolso
Julgando a arte do almoço: eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
Tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
Então esquece de morder devagar
Esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
Chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
Vaca é sua mãe, de leite.
Vaca e galinha...
Ora, não ofende. enaltece, elogia:
Comparando rainha com rainha
Óvulo, ovo e leite
Pensando que está agredindo
Que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.

Tá citando o princípio do mundo!
- Elisa Lucinda, em "Aviso da lua que menstrua". Rio de Janeiro: Edição da autora, 1993.



Consagração da criatura
         A Juliano

Filho..., igualzinho à minha poesia
você nunca foi meu órgão
A arte é constante e me habita à hora que ela quer
e à hora que eu deixo
Mas não me existe combinada, não há contratos nem despejos
você tem intimidade com meus interiores
com meus departamentos
Você é um argumento contra mim e a meu favor
Me trai porque conhece meu avesso
Me enobrece porque me tornou poderosa
Capaz de prosseguir com essa invenção chamada humanidade
Você é a barbaridade de ter feito a minha barriga crescer
Meu corpo zunir, abrir, escancarar pra você sair
de onde eu nunca pus sequer os pés, as mãos
da casa em que vivo e habito sem nunca ter entrado
porque moro fora de mim.
O que faz de seu édipo eficiência
e de seu abuso, cultura
é essa estrutura feita de mim
sem que eu tenha em ti o mesmo acesso
Por isso a criatura é mais que o criador
e você que saiu por onde entrou

Como ocorre com o poema
tem seu passaporte carimbado para todos os estados
de minha alma, de meu espírito
Você que é onírico, sábio vassalo
Me tiraniza e perde a fala, o fôlego, o faro
Me organiza e ganha o futuro
e ainda segura o jogo duro de viver independente de minha respiração
Espião de meus bastidores
Olhou minhas entranhas enquanto virava ser humano
quieto dentro de mim como as palavras antes de serem poesia
Mas fui apenas uma pensão, uma besteira
ou um hotel cinco estrelas
ou um amniótico colchão.
Hoje saído dessa embalagem, me olhas como miragem
de parecer tão próprio, tão seu
Me olhas como árvore
ziguezagueia e olha para o que fui: passageira semente.
Me olha como gente que já me viu por dentro
vasculhou meu plasma, minhas gavetas
me deixou pasma, coroou minha buceta
e sabe meu segredo
Me olha elegante e vestido
e se sente despido ao saber que o olho de minha coxia
também te viu virar varão.

Deixar de ser óvulo, indefinição, projeto, embrião
e haverá sempre um leite materno
escorrendo pelo seu terno
como mirra, bênção, distração
como birra, alimento, maldição
maior que mim, melhor que mim.
Está pronto e feito, como o meu melhor poema
Nem branco nem preto.
Nem real nem ilusão.
Um grande amuleto da palavra são.
(Da série “Consagração da criatura”)
- Elisa Lucinda, em "O semelhante". Rio de Janeiro: Record, 2006, p. 126-128.


Cor-respondência
Remeta-me 
os dedos 
em vez de cartas de amor 
que nunca escreves 
que nunca recebo. 
Passeiam em mim estas tardes 
que parecem repetir 
o amor bem-feito 
que você tinha mania de fazer comigo. 
Não sei amigo 
se era seu jeito 
ou de propósito 
mas era bom 
sempre bom 
e assanhava as tardes 
Refaça o verso 
que mantinha sempre tesa 
a minha rima 
firme 
confirme 
o ardor dessas jorradas 
de versos que nos bolinaram os dois 
a dois. 

Pense em mim 
e me visite no correio 
de pombos onde a gente se confunde 
Repito: 
Se meta na minha vida 
outra vez meta 
Remeta. 
- Elisa Lucinda, em "O semelhante". Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.


Elisa Lucinda - foto: Arquivo Lapilar
Da chegada do amor 
Sempre quis um amor
que falasse
que soubesse o que sentisse.
Sempre quis uma amor que elaborasse
Que quando dormisse
ressonasse confiança
no sopro do sono
e trouxesse beijo
no clarão da amanhecice.

Sempre quis um amor
que coubesse no que me disse.
Sempre quis uma meninice
entre menino e senhor
uma cachorrice
onde tanto pudesse a sem-vergonhice
do macho
quanto a sabedoria do sabedor.

Sempre quis um amor cujo
BOM DIA!
morasse na eternidade de encadear os tempos:
passado presente futuro
coisa da mesma embocadura
sabor da mesma golada.
Sempre quis um amor de goleadas
cuja rede complexa
do pano de fundo dos seres
não assustasse.
Sempre quis um amor
que não se incomodasse
quando a poesia da cama me levasse.
Sempre quis uma amor
que não se chateasse
diante das diferenças.

Agora, diante da encomenda
metade de mim rasga afoita
o embrulho
e a outra metade é o
futuro de saber o segredo
que enrola o laço,
é observar
o desenho
do invólucro e compará-lo
com a calma da alma
o seu conteúdo.
Contudo
sempre quis um amor
que me coubesse futuro
e me alternasse em menina e adulto
que ora eu fosse o fácil, o sério
e ora um doce mistério
que ora eu fosse medo-asneira
e ora eu fosse brincadeira
ultra-sonografia do furor,
sempre quis um amor
que sem tensa-corrida-de ocorresse.
Sempre quis um amor
que acontecesse
sem esforço
sem medo da inspiração
por ele acabar.
Sempre quis um amor
de abafar,
(não o caso)
mas cuja demora de ocaso
estivesse imensamente
nas nossas mãos.
Sem senãos.
Sempre quis um amor
com definição de quero
sem o lero-lero da falsa sedução.
Eu sempre disse não
à constituição dos séculos
que diz que o "garantido" amor
é a sua negação.
Sempre quis um amor
que gozasse
e que pouco antes
de chegar a esse céu
se anunciasse.

Sempre quis um amor
que vivesse a felicidade
sem reclamar dela ou disso.
Sempre quis um amor não omisso
e que sua estórias me contasse.
Ah, eu sempre quis um amor que amasse.
- Elisa Lucinda, em "Euteamo e suas estréias". Rio de Janeiro: Editora Record, 1999.


Ele
Já começa a beijar o meu pescoço
com sua boca meio gelada meio doce,
já começa a abrir-me seus braços
como se meu namorado fosse,
já começa a beijar a minha mão,
a morder-me devagar os dedos,
já começa a afugentar-me os medos
e dar cetim de pijama aos meus segredos.
Todo ano é assim:
vem ele com seus cajás, suas oferendas, suas quaresmeiras,
vem ele disposto a quebrar meus galhos
e a varrer minhas folhas secas.
Já começa a soprar minha nuca
com sua temperatura de macho,
já começa a acender meu facho
e dar frescor às minhas clareiras.
Já vem ele chegando com sua luz sem fronteiras,
seu discurso sedutor de renovação,
suas palavras coloridas,
e eu estou na sua mão.

Todo ano é assim:
mancomunado com o vento, seu moleque de recados,
esse meu amante sedento alvoroça-me os cabelos,
levanta-me a saia, beija meus pés,
lábios frios e língua quente,
calça minhas meias delicadamente
e muda a seu gosto a moda de minhas gavetas!

É ele agora o dono de meus cadernos, meu verso, minha tela,
meu jogo e minhas varetas.
Parece Deus, posto que está no céu, na terra,
nas inúmeras paisagens,
na nitidez dos dias, no arcabouço da poesia,
dentro e fora dos meus vestidos,
na minha cama, nos meus sentidos.

Todo ano é assim:
já começa a me amar esse atrevido,
meu charmoso cavalheiro, o belo Outono,
meu preferido.
- Elisa Lucinda, em "Fúria da beleza". Rio de Janeiro: Editora Record, 2006.




Elisa Lucinda - foto: Eraldo Platz
Euteamo e suas estréias 
Te amo mais uma vez esta noite
talvez nunca tenha cometido  “euteamo”
assim tantas seguidas vezes, mal cabendo no fato
e no parco dos dias.
Não importa, importa é a alegria límpida
de poder deslocar o  “Eu te amo”
de um único definitivo dia
que parece bastá-lo como juramento
e cuja repetição, parece maculá-lo ou duvidá-lo...
Qual nada!  
Pois que o   euteamo é da dinâmica dos dias
É do melhoramento do amor
É do avanço dele
É verbo de consistência
É conjugação de alquimia
É do departamento das coisas eternas
que se repetem variadas e iguais todos os dias
na fartura das rotações e seus relógios de colmeias
no ciclo das noites e na eternidade das estréias:
O sol se aurora e se põe com exuberância comum e com
novidade diária
e aí dizemos em espanto bom:  Que dia lindo!
E é!  Porque só aquele dia lindo 
é lindo como aquele.
Nossa sede, por mais primitiva, 
é sempre uma
loucura da falta inédita 
até o paraíso da água nova 
no deserto da nova goela.
Ela, a água, 
a transparente obviedade que 
habita nosso corpo 
e nos exige reposição cujo modo é o
prazer.
Vê:  tudo em nós comemora 
o novo milenar de si
todas as horas:
Comer é novidade
Dormir é novidade
Doer é novidade
Sorrir é novidade
Maravilhosa repetitiva verdade que se
expõe em cachos a nosso dispor
variando em sabor e temor e glória
Por isso te amo agora como nunca antes
Porque quando te amei ontem
eu te amava naquele tempo
e sou hoje o gerúndio daquela disposição de verbo
Te amo hoje com você dentro
embora sem você perto
Te amo em viagem
portanto em viragem diferente da que quando
estava perto
Meu certo é alto, forte

Te amo como nunca amei
você longe, meu continente, meu rei
Eu te amo quantas vezes for sentido
e só nesse motivo é que te amarei.
(Da série  “Eternidades Cotidianas”)
- Elisa Lucinda (Brasília, 01 de dezembro de 1994), em "Euteamo e suas estréias". Rio de Janeiro: Editora Record, 1999.


Libação
É do nascedouro da vida a grandeza. É da sua natureza a fartura a proliferação
os cromossomiais encontros, os brotos os processos caules, os processos sementes
os processos troncos, os processos flores, são suas mais finas dores
As conseqüências cachos, as conseqüências leite, as conseqüências folhas
as conseqüências frutos, são suas cores mais belas 
É da substância do átomo
ser partível produtivo ativo e gerador 
Tudo é no seu âmago e início,
patrício da riqueza, solstício da realeza 
É da vocação da vida a beleza
e a nós cabe não diminuí-la, não roê-la 
com nossos minúsculos gestos ratos
nossos fatos apinhados de pequenezas,
cabe a nós enchê-la, cheio que é o seu princípio
Todo vazio é grávido desse benevolente risco
todo presente é guarnecido do estado potencial de futuro
Peço ao ano- novo
aos deuses do calendário
aos orixás das transformações:
nos livrem do infértil da ninharia
nos protejam da vaidade burra da vaidade "minha" desumana sozinha
Nos livrem da ânsia voraz
daquilo que ao nos aumentar nos amesquinha

A vida não tem ensaio
mas tem novas chances
Viva a burilação eterna, a possibilidade: 
o esmeril dos dissabores! 
Abaixo o estéril arrependimento
a duração inútil dos rancores
Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente

e a virgindade dos dias que virão!
- Elisa Lucinda (Rio, 18 de dezembro de 1997), em "Euteamo e suas estréias". Rio de Janeiro: Editora Record, 1999.




Elisa Lucinda - foto :Manuela Scarpa/Rio News
Lilith Balangandã
Ponho o lenço do pescoço na cabeça 
Molho os cabelos com calma 
uma mulher é uma espécie de alma com enfeite 
Chega diante do espelho 
adorna-se como uma árvore de natal 
nem é natal 
mas ela vai dar bola 
Às vezes não varre o quintal 
mas pinta as maçãs 
blushes ruges 
Às vezes não costura 
mas realça cortinas 
cílios rímel lápis 
Às vezes não conserta as portas 
mas pinta as bordas das janelas 
pálpebras delineador sombra 
Mulher é uma Eva encantada 
de espalhar-se por fora 
em paraíso 
batom cintura tesão juízo 
pulseiras brincos balangandãs 
são seus sonhos de fachada 
que repetem de dentro 
que rondam a porta da casa 
Invento de princesa 

Durante todas as primaveras 
um cardume de cinderelas 

ainda insiste dentro dela. 
- Elisa Lucinda, em "Euteamo e suas estréias". Rio de Janeiro: Editora Record, 1999.


O poema do semelhante
O Deus da parecença 
que nos costura em igualdade 
que nos papel-carboniza 
em sentimento 
que nos pluraliza 
que nos banaliza 
por baixo e por dentro, 
foi este Deus que deu 
destino aos meus versos, 

Foi Ele quem arrancou deles 
a roupa de indivíduo 
e deu-lhes outra de indivíduo 
ainda maior, embora mais justa. 

Me assusta e acalma 
ser portadora de várias almas 
de um só som comum eco 
ser reverberante 
espelho, semelhante 
ser a boca 
ser a dona da palavra sem dono 
de tanto dono que tem. 

Esse Deus sabe que alguém é apenas 
o singular da palavra multidão 
É mundão 
todo mundo beija 
todo mundo almeja 
todo mundo deseja 
todo mundo chora 
alguns por dentro 
alguns por fora 
alguém sempre chega 
alguém sempre demora. 

O Deus que cuida do 
não-desperdício dos poetas 
deu-me essa festa 
de similitude 
bateu-me no peito do meu amigo 
encostou-me a ele 
em atitude de verso beijo e umbigos, 
extirpou de mim o exclusivo: 
a solidão da bravura 
a solidão do medo 
a solidão da usura 
a solidão da coragem 
a solidão da bobagem 
a solidão da virtude 
a solidão da viagem 
a solidão do erro 
a solidão do sexo 
a solidão do zelo 
a solidão do nexo. 

O Deus soprador de carmas 
deu de eu ser parecida 
Aparecida 
santa 
puta 
criança 
deu de me fazer 
diferente 
pra que eu provasse 
da alegria 
de ser igual a toda gente 

Esse Deus deu coletivo 
ao meu particular 
sem eu nem reclamar 
Foi Ele, o Deus da par-essência 
O Deus da essência par. 

Não fosse a inteligência 
da semelhança 
seria só o meu amor 
seria só a minha dor 
bobinha e sem bonança 

seria sozinha minha esperança.
- Elisa Lucinda, em "O semelhante". Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.


Vaidade
À tarde que me seduz, 
o parado sonso do vento
nas árvores, estátuas de verde
prateadas por um só fio filete de luz,
rendida estou e
sou dela refém.
Transito em seu planeta.
Levito parada feita a paisagem.
É que eu também dela sou paisagem,
e faço agora, de cabeça,
versos que só escrevi depois.

Há muitos anos a tarde me sequestra, ora pois!
Há inúmeras cigarras esta orquestra me detém e liberta!
Sob seu sovado me leva,
sou seu pão.

O que ninguém sabia até então,
nem eu, 
é que este pão,
o famoso gostoso pão da tarde,
o das tardes frias,
o das tardes quietas,
o das tardes quentes e
o das tardes inquietas,
é feito da carne do trigo do olhar do poeta.
- Elisa Lucinda, em "A fúria da beleza". Rio de Janeiro: Record, 2006.


Elisa Lucinda - foto: Acervo Lucinda
FORTUNA CRÍTICA DE ELISA LUCINDA
[Estudos acadêmicos - teses, dissertações, ensaios, artigos e livros]
ALBIN, Ricardo Cravo. Dicionário Houaiss Ilustrado Música Popular Brasileira. [Criação e supervisão geral Ricardo Cravo Albin]. Rio de Janeiro: Instituto Antônio Houaiss, Instituto Cultural Cravo Albin e Editora Paracatu, 2006.
AMARAL, Euclides. Alguns Aspectos da MPB. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2008. 2ª ed., Esteio Editora, 2010; 3ª ed., EAS Editora, 2014.
CARVALHO, Leticia Queiroz de.. A palavra refletida: a metapoesia em Elisa Lucinda. In: Bravos companheiros e fantasmas - I Seminário sobre o autor capixaba, Vitória - ES, 2004.
Elisa Lucinda - foto: (...)
CAVALCANTI, Robson Barbosa. Elisa Lucinda: a poesia viva. (Monografia Graduação em Letras). Universidade Castelo Branco, UCB/RJ, 2004.
COSTA, Tatiana . Almeida Nunes da . De Palco Aberto: Elisa Lucinda e o movimento da 'Poesia Falada'. In: Enearte Rio, 2012, Rio de Janeiro. Enearte Rio, 2012.
DACORSO, Stetina Trani de Meneses e.. Arte Contemporânea: A mulher nos poemas de Elisa Lucinha. Estudos de Psicanálise, v. 29, p. 133-138, 2006. Disponível no link. (acessado em 13.6.2015).
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FAUSTINO, Oswaldo. Palavra é poder. [Dialogo com Elisa Lucinda]. Raça Brasil. Disponível no link. (acessado em 13.6.2015).
FERES, Beatriz dos Santos. Elisa Lucinda e Graça Lima: a qualificação implícita na semiose verbo-visual de livros ilustrados para crianças. Linguagem em (Re)vista, v. 15-16, p. 150-166, 2014.
HOTT, Fernanda de Souza. Morrendo Durante a Vida: Sylvia Plath e Elisa Lucinda. In: Lino Machado; Paulo Roberto Sodré, Reinaldo Santos Neves. (Org.). Bravos Companheiros e Fantasmas 3: Estudos críticos sobre o autor capixaba. 1ª ed., Vitória: GM Gráfica e Editora, 2008, v. 3, p. 189-194.
HOTT, Fernanda de Souza. Morrendo Durante a Vida - Elisa Lucinda e Sylvia Plath. In: III Seminário Sobre o autor Capixaba, 2009, Vitória. Bravos Companheiros e Fantasmas 3: Estudos críticos sobre o autor capixaba.. Vitória: EDUFES, 2008. v. 3.
MARTINS, Leda. A fina lâmina da palavra. O eixo e a roda: v. 15, 2007. Disponível no link. (acessado em 13.06.2015).
MORAES, Maria Fernanda. Elisa Lucinda passeia entre o real e a ficção. [entrevista]. Saraiva conteúdo, 14.05.2014. Disponível no link. (acessado em 13.6.2015).
NASCIMENTO, Tássia do.. Vozes afro-femininas: a construção de novos chãos simbólicos. (Dissertação Mestrado em Estudos Literários). Universidade Estadual de Londrina, UEL, 2010.
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SANTANA, Patricia Maria dos Santos. A mulher em busca da sua totalidade: um estudo do poema Aviso da lua que menstrua de Elisa Lucinda. Desenredos, v. v, p. 2-13, 2013. Disponível no link. (acessado em 13.6.2015).
SANTANA, Patricia Maria dos Santos. A poesia combatendo estereótipos: uma análise de Mulata Exportação de Elisa Lucinda. Revista e-scrita: revista do curso de Letras da UNIABEU, v. 2, p. 205-218, 2011.
SCALABRIN, Leandro Gaspar. Parem de falar mal da rotina, de Elisa Lucinda. In: ROSING, Tania; BURLAMAQUE, Fabiane; RETTENMAIER, Miguel.. (Org.). Pré-jornada: caderno de leitura -2011. Passo Fundo: Ed. UPF, 2011, v. 1, p. 31-34.
Elisa Lucinda - foto: Joaquim Dantas
SILVA, Assunção de Maria Sousa e.. Imagens femininas na escrita pós-moderna de Elisa Lucinda uma leitura de O semelhante". (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, 2002.
SILVA, Assunção de Maria Sousa e.. Negra em cena! Uma leitura do poema mulata exportação de Elisa Lucinda. In: II Seminário de Pós Graduação e V Simpósio de Produção Científica da UESPI, 2004, Teresina. Anais 2004, 2004. p. 59-69.
SILVA, Marciano Lopes e.. Lilith Balangandã: feminismo e negritude na poesia de Elisa Lucinda. In: Anais do II Congresso Nacional de Linguagens em Interação. Maringá - PR: Editora do Departamento de Letras, 2008. p. 656-667.
SOUSA, Douglas Rodrigues de.. A construção da identidade da mulher negra na poesia de Elisa Lucinda. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura; [Anais do] V Seminário Internacional Mulher e Literatura. Brasília-DF: Universidade de Brasília, 2011. v. 1. Disponível no link. (acessado em 14.6.2015).


AMIZADES POÉTICAS
Elisa Lucinda  e Rubem Alves - foto: Renato Testa


Manoel de Barros e Elisa Lucinda - foto: Acervo Lucinda


Elisa Lucinda e Geovana Pires - divulgação da peça 'A natureza do olhar'
foto: (...)

Elisa Lucinda e Paulo José - foto: (...)

A esse papo indo-lente
Quando me perguntam depois de
"Ó que lindos olhos"...
Esses olhos são seus?"
Me sinto como se perguntassem
se o sol é rei mesmo
ou uma espécie de lâmpada de mil
Me sinto constrangida como se tivesse
sido possível a alguém alguma vez
confundir lata de goiabada com fruta de pé.
me sinto velha virada há milênios
Aniversariada por várias civilizações e nada esqueci.
Me sinto madura madeira escaldada
pra lá destas idades do agora.
Sou dos longínquos tempos de goiabeiras
mangueiras, formigas cabeçudas
tanajuras de umidade, baratas cascudas
e canaviais nos quintais
Sou ainda mais
na magia do que havia nesses anais,
sou do tempo em que era bom
nascer com olhos de esmeralda
e a artista a ser cumprimentada
era a mãe-natureza
pela proeza de olhos ser olhos
e lente ser lente.
Sou do tempo em que eu era
toda realeza
e com certeza não se compravam olhos
em shoppings, meus deus.
Sou do tempo em que meus olhos
Só podiam ser meus.
- Elisa Lucinda


CASA DO POEMA - ESCOLA LUCINDA DA POESIA VIVA
Elisa Lucinda na entrada da Casa Poema -
foto: acervo Lucinda
Elisa Lucinda, fundou em 1998 a Escola Lucinda de Poesia Viva, onde teve a oportunidade de destacar a humanidade da poesia, através de seu método único de ensinar a falar poemas de maneira natural, dando personalidade às palavras.
Em 2010, Elisa Lucinda e a atriz Geovana Pires fundam a Casa Poema, lar da poesia no Rio de Janeiro. Aqui, utilizando o método desenvolvido por Elisa, a poesia é utilizada como ferramenta para o desenvolvimento da cidadania, autoestima, eloquência, desinibição, memorização, erudição, criatividade e autoconhecimento.
A Casa Poema oferece a toda a comunidade o seu Curso Livre de Poesia Falada e também promove Oficinas e Saraus. Além disso, por meio de parcerias importantes como, por exemplo, com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e com a Fundação Ford, desenvolve projetos sociais que viabilizam a ampliação do raio de atuação. São eles o “Versos de Liberdade” e o “Palavra de Polícia – Outras Armas”, que promovem um trabalho pioneiro junto a educadores, policiais civis e militares, sócio-educadores e internos do sistema penitenciário em todo o Brasil.
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** Página atualizada em 13.6.2015.



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