Pedro Bloch - entrevistado por Clarice Lispector

Pedro Bloch - foto: ...
“Gosto até de quem não gosta de mim.”

Fui convidada pela doce Miriam Bloch para almoçar na casa agradabilíssima deles, aceitei contente. E entrevisto Pedro, uma das pessoas mais entrevistáveis que conheço.

Clarice Lispector – Pedro, você é uma das pessoas de maior coração que já vi. E acho que em todas as bondades entra uma parte de inteligência, senão a bondade não seria eficaz. Quando você julga os outros de um modo tão compreensivo e tão seu, é por bondade estritamente falando, ou por inteligência de descobrir a verdade?
Pedro Bloch – O que você chama de bondade talvez seja minha sintonia com o mundo. Sou coletivo. Tenho o mundo dentro de mim. Acho que todo ser humano tem uma dimensão universal, única, insubstituível. Por respeito a cada ser humano, em todos os cantos da Terra, e por gostar de gente, gostar de gostar, é que eu encontro em cada indivíduo o reflexo do universo. Desculpe, mas eu gosto até dos que não gostam de mim. Mas gosto dos que gostam.

Clarice Lispector – Você é um grande médico, teatrólogo famoso: falta-lhe alguma coisa para sentir o homem completo que na verdade você é?
Pedro Bloch – Não sei se sou grande médico. Sou teatrólogo famoso, porque a estatística o afirma. Mas não sendo grande em nada, ajo como se o fosse. Quando atendo a um paciente, procuro ser o melhor que posso. Quando escrevo uma peça, acredito que estou fazendo a coisa mais importante do mundo. Completo, não. Completo lembra realizado. Realizado é acabado. Acabado é o que não se renova a cada instante da vida e do mundo. Eu vivo me completando nos outros, mas falta um bocado.

Clarice Lispector – De que modo, Pedro, você reconstruiria o mundo?
Pedro Bloch – Começaria por me reconstruir. O mundo somos todos nós, responsáveis, um a um, um por um, pelo que fizemos do mundo. Só depois de me reconstruir é que eu me sentiria no direito de reconstruir o mundo.

Clarice Lispector – Por Deus, como e onde é que você capta tantas coisas maravilhosas ditas pelas crianças?
Pedro Bloch – E só ter ouvidos de ouvir criança. Confesso a você que tenho a vaidade de ser “o homem das historinhas de crianças”. Elas afinam comigo. Tanto que a diferença de idade nem dói. Por isso é que saíram aquelas coisas como “O cor-de-rosa é um vermelho... mas muito devagar”, “Coitado do trenzinho do Pão de Açúcar... está pensando que é avião.” “O gato morreu... porque o gato saiu do gato e só ficou o corpo do gato.” Aprendo com as crianças tudo que os sábios ainda não sabem.

Clarice Lispector – Você é considerado um papa na reabilitação da voz, dando, inclusive, voz a quem não tem. Como é que você se sente neste trabalho?
Pedro Bloch – No mundo em que vivemos, de conhecimentos tão vastos e informação tão constante, ninguém é papa em nada. Só mesmo o próprio. Como me sinto? Com uma permanente, grande responsabilidade. E é por isso que eu recomeço a cada dia, às cinco da manhã, estudando, duvidando e procurando aprender com quem sabe mais.

Clarice Lispector – Além de foniatra, você tem dado cursos para médicos e técnicos. O que levou você a atividades didáticas? A fraternidade humana? A capacidade de dar de si sem avareza? Pioneirismo?
Pedro Bloch – Ninguém é pioneiro de nada. Houve sempre alguém que fez antes. O problema não é de prioridade. É a gente se encontrar a si mesmo. Eu já disse que a gente só é gente quando a gente é a gente mesmo. Se eu sei... ensino. Se não sei... procuro aprender. Aliás, eu poderia repetir que “eu não ensino... mostro”.

Clarice Lispector – Quantas peças teatrais suas foram levadas ao palco?
Pedro Bloch – Todas. Quase trinta.

Clarice Lispector – E quais foram as representadas no exterior?
– Quase todas. Quase trinta. Tive a alegria de saber que uma peça minha, no mesmo dia, era representada em todos os continentes.

Clarice Lispector – Eu acho que não consegui me realizar como escritora. Você consegue se realizar como teatrólogo?
Pedro Bloch – Se você diz que não conseguiu se realizar como escritora, sendo a maior escritora do continente, então ninguém se realizou em nada.

Clarice Lispector – Que acha você do amor?
Pedro Bloch – Não acho. Amo. Não acho. Achei: Miriam.

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Clarice Lispector – Todos acham – embora sem mover uma palha para isso – que há falta de amor no mundo, amor no seu sentido amplo. A seu ver, é esse ingrediente que faria o mundo se mover em sentido enfim construtivo?
Pedro Bloch – As pessoas chamam de amor ao amor-próprio. Chamam de amor ao sexo. Chamam ao amor de uma porção de coisas que não são amor. Enquanto a humanidade não definir o amor, enquanto não perceber que o amor é algo que independe da posse, do egocentrismo, da planificação, do medo de perder, da necessidade de ser correspondido, o amor não será amor. O que faz o mundo se mover em sentido construtivo é a verdade. Ainda que provisória. Ainda que seja mais caminho que meta. As palavras afogam tudo: o amor, a verdade, o mundo. Enquanto o homem não marcar um encontro sério consigo mesmo, verá o mundo com prisma deformado e construirá um mundo em que a Lua terá prioridade, um mundo de mais Lua que luar.

Clarice Lispector – Por que motivo você não escreve uma espécie de memórias, de diário?
Pedro Bloch – É que eu já reparei que só quando a gente começa a perder a memória é que resolve escrever memórias. Eu ainda a tenho razoável. Quanto ao meu diário, ele estaria vazio de mim e cheio das pessoas que amo. Por isso prefiro escrever sobre elas, e não o meu diário.

Clarice Lispector – Pedro, você me parece expansivo, espontâneo. E, no entanto, é um homem também reservado, voltado para dentro de si, no sentido em que você dá aos outros e pouco pede para si. Como é você de verdade?
Pedro Bloch – Fiz, uma vez, uma receita de viver que acho que me revela. Viver é expandir, é iluminar. Viver é derrubar barreiras entre os homens e o mundo. Compreender. Saber que, muitas vezes, nossa jaula somos nós mesmos, que vivemos polindo as grades em vez de libertar-nos. Procuro descobrir nos outros sua dimensão universal e única. Não podemos viver permanentemente grandes momentos, mas podemos cultivar sua expectativa. A gente só é o que faz aos outros. Somos consequência dessa ação. Talvez a coisa mais importante da vida seja não vencer na vida. Não se realizar. O homem deve viver se realizando. O realizado botou ponto final. Tenho um profundo respeito humano. Um enorme respeito à vida. Acredito nos homens. Até nos vigaristas. Procuro desenvolver um sentido de identificação com o resto da humanidade. Não nado em piscina se tenho mar. Gosto de gostar. Todo mundo é perfeito até prova em contrário. Gosto de fazer. Não fazer... me deixa extenuado. Acredito mais na verdade que na bondade. Acho que a verdade é a quintessência da bondade, a bondade a longo prazo. Tenho defeitos, mas procuro esquecê-los a meu modo. “Saber olvidar lo malo también es tener memoria.”

Clarice Lispector – Você acredita em milagre?
Pedro Bloch – Eu só acredito em milagre. Nada mais miraculosa que a realidade de cada instante. Acredito mais no sobrenatural. O sobrenatural seria o natural mal explicado, se o natural tivesse explicação. Gilberto Amado anotou esta frase minha. Deve ser boa.

Clarice Lispector – Miriam é a sua companheira ideal, são pássaros do mesmo ninho. Em que mais, além do grande amor, essa criatura acompanha você?
Pedro Bloch – Não há mérito em amar a Miriam, porque nela encontro todas as mulheres do mundo. Ela me acompanha em tudo. No trabalho – é minha colaboradora melhor, na reabilitação da voz – na vida, em tudo. Ela é tão despida de egoísmo que chega às raias do desumano. Nunca vi de Miriam um gesto, uma palavra, uma atitude que não fosse para o bem dos outros. Quis casar com ela na mesma hora em que a conheci. Mas, agora que a conheço mais gostaria de tornar a casar todos os dias.

Clarice Lispector – De suas peças, qual levou mais tempo em cartaz?
Pedro Bloch – Muitas levaram “mais tempo”. A recordista, porém, é As mãos de Eurídice. Os pais abstratos vai pelo mesmo caminho... e é a penúltima. Agora termino Orfeu espacial que é a visão do mundo através dos olhos lúcidos e apavorados de uma juventude que ama os astros e os computadores.

Clarice Lispector – Suas peças são arquitetadas ou você as segue mais ou menos ao sabor do que vai acontecendo?
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Pedro Bloch – Minhas peças são primeiro sofridas, depois escritas e depois arquitetadas. A arquitetura vem em último lugar. Eu só escrevo o que vivi, senti e sofri, na própria pele ou transbordando dentro da corrente humana, mesmo quando meus problemas estão superados. Acho que Os pais abstratos reflete o homem de hoje mais do que qualquer peça de protesto. A verdade é sempre o maior protesto.

Clarice Lispector – Você gosta de você?
Pedro Bloch – Eu poderia dizer que gosto de todo mundo... até de mim.


PEDRO BLOCH – Pioneiro da foniatria no Brasil escreveu As mãos de Eurídice, um dos maiores sucessos teatrais brasileiros. Destacam-se também Dona Xepa e Os pais abstratos.

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Fonte: 
- LISPECTOR, Clarice. Clarice Lispector entrevistas. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.


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Página atualizada em 28.10.2016.



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