Anilda Leão - a poeta múltipla

Anilda Leão - foto: O Nordeste
Anilda Leão Moliterno (Maceió AL, 15 de julho de 1923 - Maceió AL, 6 de janeiro de 2012) escritora, jornalista, atriz, cantora e militante feministaEra filha de Joaquim de Barros Leão e Georgina de Barros Leão. Seu pai, um comerciante respeitado em Maceió, além de líder da sua categoria, elegeu-se deputado e foi indicado prefeito da capital durante o governo de Arnon de Mello.
Foi no Colégio Imaculada Conceição que Anilda estudou o curso primário. Iniciou o ginásio no Liceu Alagoano, depois transferiu-se para a Escola Técnica Federal de Alagoas, na década de 40, onde formou-se em Ciências Contábeis. Sonhava em ser médica, mas seu pai não permitiu. Também estudou música, declamação, oratória, dicção, canto oral e lírico no então Conservatório Alagoano de Música.
Seu primeiro poema foi publicado quando ainda tinha 13 anos. A temática era criança abandonada. Foi colaboradora das revistas Caetés e Mocidade, assim como do Jornal de Alagoas e Gazeta de Alagoas.
Em 1950, em um evento organizado pela Federação Alagoana pelo Progresso Feminino, em que se apresentou como cantora, passou a participar ativamente da instituição. Em junho de 1963, representando a Federação, participou do Congresso Mundial de Mulheres, em Moscou. No ano de 1990 torna-se presidenta da instituição.
Aos 30 anos de idade, em 1953, casou-se com o arquiteto e escritor Carlos Moliterno, que era desquitado quando ainda não existia o divórcio. O casamento chocou a sociedade alagoana. Da relação que durou por 45 anos, tiveram dois filhos: Luciana e Carlos Alberto.
Em 1961, incentivada por Carlos Moliterno, publicou o livro de poemas Chão de Pedras. No ano de 1973 conquistou o Prêmio Graciliano Ramos da Academia Alagoana de Letras com a coletânea de contos Riacho Seco, período em que começa a investir em sua carreira de atriz.
Como atriz, atuou nos seriados Lampião e Maria Bonita e Órfãos da Terra (1970), e nos filmes Bye bye Brasil, Memórias do Cárcere (1984) e Deus é brasileiro (2002), além de “Tana’s Take“, de Almir Guilhermino e outras produções locais. No teatro interpretou papeis destacados nas peças Bossa Nordeste e Onde canta o sabiá.
Produtiva e agitada, desempenhava vários papéis ao mesmo tempo, sem abandonar a poesia, os contos, as crônicas e a a elaboração de artigos para jornais. Sempre rompendo as barreiras da sua época, Anilda ousava e escrevia sobre temas considerados tabus, como virgindade, homossexualismo e prostituição.
O historiador Geraldo Majella lembra que em outubro de 1978, ainda em plena Ditadura Militar, Anilda Leão era diretora do Departamento de Assuntos Culturais — órgão vinculado à Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Alagoas, o equivalente, hoje, ao cargo de secretário de Cultura —, quando foi procurada pelo jornal Boca do Povo para ouvi-la sobre a mobilização que se iniciava sobre a Anistia. Anilda, como sempre, não vacilou:

“A luta pela democracia em uma nação jamais atingirá seu objetivo se não contar com a participação de todos os setores da sociedade, destacando a classe trabalhadora. Nessa questão eu vejo a importância da anistia ampla, geral e irrestrita para todos os presos políticos, que lutaram justamente para que o país se torne democrático. Todos os crimes políticos cometidos no país durante o período de arbítrio deverão ser apurados e julgados, para que posteriormente sejam punidos os responsáveis.”

Anilda Leão recebeu as Comendas Mário Guimarães (pela Câmara Municipal de Maceió); Nise da Silveira (pelo Governo do Estado de Alagoas); Graciliano Ramos (pela Câmara Municipal de Maceió); a Ordem do Mérito dos Palmares (pelo Governo do Estado); e a Comenda Teotônio Vilela, pela Fundação Teotônio Vilela. Também recebeu o Diploma do Mérito Cultural, da União Brasileira dos Escritores.
Faleceu, aos 88 anos, na noite de 6 de janeiro de 2012, em Maceió. Estava internada no Hospital Arthur Ramos tratando de uma fratura no fêmur provocada por uma queda.
Na ocasião, o escritor Benedito Ramos assim se referiu a ela: "Anilda Leão é, possivelmente, a única criatura no mundo que sempre determinou a idade que desejava ter. Sua disposição para encarar desafios é sua principal característica. A escritora e poetisa sempre viveu intensamente tudo o que fez".
Em sua homenagem, uma via do Conjunto Antares, em Maceió, passou a ser denominada Rua Escritora Anilda Leão Moliterno.
:: Fonte: História de Alagoas (acessado em 29.4.2016).
VERBETE. ABC das Alagoas. Anilda Leão Neves Moliterno(acessado em 29.4.2016).



“Que seria de nós sem a esperança? O sol nasce todos os dias para nos ajudar a viver e nós não temos o direito de nos voltar para o escuro se temos ao dispor tanta claridade.”
- Anilda Leão, em "Eu em trânsito". Maceió: Gráfica Graciliano Ramos, 2003.


Anilda Leão Moliterno - foto O Nordeste
OBRA DE ANILDA LEÃO
Poesia
:: Chão de pedras[prefácio Antônio Saturnino Mendonça Neto]. Maceió: Caetés, 1961.
:: Chuvas de verãoMaceió: DAC/SEC, 1974.
:: Poemas marcados. Maceió: Sergasa, 1978.
:: Círculo mágico e outros nem tanto. Maceió: Sergasa, 1993.

Conto
:: Riacho seco. Maceió: EDUFAL, 1980.

Crônica
:: Olhos convexos. Maceió: Sergasa, 1989.

Biografia (memórias)
:: Eu em trânsito. [texto de Orelhas de Enaura Quixabeira Rosa e Silva]. Maceió: Gráfica Graciliano Ramos, 2003.




Anilda Leão - foto: O Nordeste
POEMAS SELECIONADOS DE ANILDA LEÃO

À procura da infância
Procuro ouvir na voz do vento
o eco perdido da minha infância.
E no riso franco das criancinhas
eu vislumbro o meu riso antigo.
Procuro nas ruas desertas e silenciosas,
o canto alegre das cirandas
e as minhas correrias do tempo recuado.
Dentro daquela avenida asfaltada,
onde rolam automóveis de luxo,
eu busco a minha ruazinha feia e pobre.
Procuro ver nas bonecas de hoje,
tão lindas, de tranças sedosas,
a bonequinha de trapo que eu embalei no meus braços.
Procuro encontrar no rosto das neocomungantes 
traços de minha inocência
e a primeira emoção daquela que ficou no tempo.
Procuro descobrir, desesperada,
na face ingênua das crianças
a minha pureza perdida.
Procuro em vão, pois não encontrarei jamais
vestígios da minha infância feliz,
que os anos guardaram no seu abismo.
- Anilda Leão, em "Chão de pedras". Maceió: Caetés, 1961.

§

Origem
Quando a noite desce sobre a terra,
as sombras do mundo inteiro se procuram,
e se encontram e se amam.
Mais tarde, ventres pejados
despejam luzes sobre o corpo do céu.
(Luzes que foram geradas num instante de amor)
...........................................................
E assim nascem as estrelas.
- Anilda Leão, em "Chão de pedras". Maceió: Caetés, 1961.

§

Poema da hora exata
Há de soar para nós, uma hora exata
uma hora feita de silêncios,
onde jamais serão permitidas
as interrogações e os porquês.
Há de cair, numa hora que há de vir,
sobre as nossas almas fatigadas,
esta paz interior, esta calmaria suave,
que não encontraremos nunca dentro do mundo.
Por entre as brumas do desconhecido,
nós abriremos os olhos extáticos,
como se saíssemos de um sonho
e entrássemos na realidade,
numa vida onde todos se entendam,
onde sejamos verdadeiramente irmãos.
Dentro do silêncio da Morte,
é que encontraremos a paz desejada,
numa hora para nós imprevisível,
quando as sombras da noite
caírem sobre as nossas figuras inúteis.
- Anilda Leão, em "Chão de pedras". Maceió: Caetés, 1961.

§

Poema da idade perdida
E pensar que já tive dezoito anos,
que já vivi de sonhos,
que já teci ilusões...
E pensar que já suspirei de amores,
que já sorri despreocupada e feliz
que vibrei com o primeiro beijo...
E pensar que os meus cabelos 
já foram fartos e negros;
que no meu rosto havia reflexos de luz,
e no meu corpo, juventude e pujança...
E pensar que a minha boca
era fresca e sadia,
e a minha voz cristalina e pura...
E pensar que possuí um coração
que se alvoroça à-toa
e batia descompassado só em avistar um vulto querido...
........................................................................
Ah, pensar em tudo isto,
e descobrir agora estes cabelos brancos,
estas rugas morando no meu rosto,
este cansaço me alquebrando o corpo,
esta voz que já nem reconheço mais,
e este coração cansado e sofrido!
Ah, pensar em tudo isto

e não poder voltar atrás!...
- Anilda Leão, em "Chão de pedras". Maceió: Caetés, 1961.

§

Poema da minha idade
Eu carrego dentro de mim,
o peso de uma idade morta,
de uma idade sem definições e sem porquês.
Na minha face extinta,
marcada pelo tempo,
eu trago impressos os instantes envelhecidos,
os momentos mortos,
das coisas belas que me deslumbraram na vida.
Eu trago no meu corpo já sem formas,
vestígios da minha adolescência perdida,
Quando eu era dona dos caminhos,
soberana do tempo e dos astros.
Nos meus olhos já sem brilho,
se reflete o cansaço das viagens longas,
de roteiros intermináveis
e sem pouso certo.
E as pegadas que vou deixando ficar pelo caminho,
vão marcando os dias, as horas, os minutos,
dos momentos que vivi no meu passado,
dentro da minha infância longínqua,

quando eu sabia conversar com as estrelas...
- Anilda Leão, em "Chão de pedras". Maceió: Caetés, 1961.

§

Poema das horas mortas
Esta noite eu conversei tristezas
e ouvi as horas mortas pisando de leve,
para não perturbar meu pranto.
Senti minh'alma desgarrar-se
e seguir outros rumos,
palmilhar caminhos estranhos,
em busca do meu sorriso
que se perdera no abismo da noite.
Esta noite eu conversei tristezas,
e teci saudades,
e magoei meus olhos,

lembrando coisas que já estavam mortas!
- Anilda Leão, em "Chão de pedras". Maceió: Caetés, 1961.

§

Poema das horas perdidas
Eu vivo nesse momento a tristeza
Das horas perdidas,
Das horas mortas,
Das horas inúteis,
Horas que deixamos passar sem serem vividas.
Há tanta vida lá fora e nós dois tão distantes,
Tão dolorosamente afastados.
Por que matamos sem piedade tudo o que há de belo
Dentro de nós? Por que?
Há uma infinidade de horas entre a hora presente.
E ainda agora trago nas minhas mãos,
Na minha boca, no meu corpo,
A sensação da nossa última carícia.
Eu vivo neste momento a tristeza
Das nossas horas inúteis.
Horas estéreis. Melancolicamente vazias.
- Anilda Leão, em "Chão de pedras". Maceió: Caetés, 1961.

§

Promessas
Eu farei do meu corpo
o arrimo suave para a tua canseira.
Eu darei um pouco da minha tranquilidade,
para amenizar as asperezas da tua vida.
Eu te embalarei nos meus braços
e reclinarei tua fronte cansada
de encontro ao meu peito.
As minhas mãos serão feitas de carícias
e repousarão de leve sobre tua cabeça.
Eu serei para ti, aquela que custou a chegar,
mas que surgiu no momento preciso,
em que procuravas uma sombra amiga,
para repousar o corpo cansado.
Dar-te-ei tudo quanto te foi negado na vida,
se me deres em troca o teu amor,

e as lições que aprendestes do mundo.
- Anilda Leão, em "Chão de pedras". Maceió: Caetés, 1961.

§

Rêve d'amour...
Há pouco eu ouvi num piano qualquer
os acordes suaves do "Rêver d'amour".
Não sei que mãos os dedilharam:
se brancas, se pretas,
se pobres ou ricas.
Foram porém os tons suaves do "Rêve d'amour"
que ouvi assim num soluço, num lamento,
como se tivesse impregnado nas próprias teclas
toda a dor de uma alma apaixonada.
E o piano gemia,
e o piano chorava,
como se escapasse daqueles dedos desconhecidos,
esparramados num piano qualquer,
a alma suave de Listz.
Sim, eu ouvi há pouco o "Rêve d'amour"
muito suave, muito triste, muito vago,

assim como todo sonho de amor...
- Anilda Leão, em "Chão de pedras". Maceió: Caetés, 1961.

§

Súplica
Deixe que eu passe as minhas mãos
pelo teu rosto fatigado,
afugentando para longe
tuas longas noites de vigília.
Deixa que eu mergulhe os meus olhos
dentro dos teus olhos tristes,
para que fique dentro deles,
um pouco de luz, um pouco de alegria.
Deixa que eu acaricie os teus cabelos,
trazendo novamente para eles
o negrume das noites que se perderam.
Deixa que eu beije enternecida
as rugas prematuras do teu rosto,
para que esqueças o que sofreste na vida,
Deixa que eu te ame querido,

para que não sofras nunca mais!
- Anilda Leão, em "Chão de pedras". Maceió: Caetés, 1961.

§


Anilda Leão Moliterno - foto (...)
FORTUNA CRÍTICA DE ANILDA LEÃO
(inclui antologias participação)
ALVES, Ivia Iracema; BRANDÃO, Izael. Retratos à margem: antologia  de escritoras das Alagoas e Bahia (1900-1950). Maceió: EDUFAL, 2002.
AYRES, Francisco Rogers Cavalcanti. Balé folclórico de Alagoas : 37 anos de história e os processos criativos na espetacularidade folclórica alagoana. (Dissertação Mestrado em Artes Cênicas). Universidade Federal de Alagoas, 2014.
BARROS, Francisco Reinaldo Amorim de.(org). ABC das Alagoas - Dicionário biobibliográfico, histórico e geográfico de Alagoas. Tomo I (A-F).  Vol. 62-A. Brasília: Edições do Senado Federal, 2005. Disponível no link. (acessado em 29.4.2016).
BRANDAO, Izabel de Fatima de Oliveira. Anilda Leão, o feminismo e o IGHAL. Jornal Tribuna, Maceió, 1999.
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico de escritoras brasileiras: 1711-2001. São Paulo: Escrituras, 2002.
GAZETA. Uma brava mulher, exemplo de vida e luta. in: Gazeta de Alagoas - caderno Opinião, 10 de jan de 2012. Disponível no link. (acessado em 29.4.2016).
GUIMARÃES, Benilda Melo; LIMA, Carlito; BOMFIM, Edilma.(org). O Conto das Alagoas. 1ª ed., Maceió: Bagaço, 2007.
Anilda Leão no filme 'Calabouço', de Joaquim Alves
(foto Benvau Martins Fon)
GUIMARÃES, Benilda Melo; LIMA, Carlito; BOMFIM, Edilma.(org). A Poesia das Alagoas. 1ª ed., Maceió: Bagaço, 2007.
GUIMARÃES, Benilda Melo. A identidade feminina nos contos " A virgem" Marina, pura e humilde" de Anilda Leão. (Monografia de Especialização em Literatura Brasileira e Língua Portuguesa). Centro Universitário Cesmac, 2009.
LEÃO, Anilda. Eu, polêmica? [Entrevista concedida à Janayna Ávila]. Gazeta de Alagoas. Maceió, 28 out. 2007. Caderno B, p. B-1, B-2, B-3, B-5 e B-7. 
MAIA, Ricardo. Anilda na contramão da modernidade: Uma leitura crítica do livro Eu em Trânsito, de Anilda Leão. In: Portal Escritores, 2012. Disponível no link. (acessado em 29.4.2016).
MAJELLA, Geraldo de.. Anilda Leão e o livro perdido. in: MajellaBlog, 4 de março de 2012. Disponível no link. (acessado em 29.4.2016).
MORAES, Maria Heloisa Melo de (org.). Poesia Alagoana hoje: ensaios. Maceió: EDUFAL, 2007.
NOGUEIRA, Ricardo. Presa Anilda Leão como comunista. in: Gazeta de Alagoas, 3 de mar de 2012. Disponível no link. (acessado em 29.4.2016).
RAMALHO, Joaquim; GOMES, Jurandir (direção). Almanaque de Alagoas. Maceió, 1952.
ROCHA, Jose Maria Tenório. Anilda Leão, em obra multifacetada. O Jornal de Maceió, Maceió- Al, p. 1-4, 2003.
SANTANA, Ana Lúcia Rodrigues de.. A representação estética da miséria humana: algumas reflexões sobre o conto Submundo, de Anilda Leão Moliterno. (Monografia de Especialização em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira). Universidade Cidade de São Paulo, UNICID, 2001.
SANTOS, Silvana Maria de Barros. A relação entre introspecção e a solidão como representantes sociais e afetivos na crônica "Os olhos convexos" de Anilda Leão e na história da civilização. A relação entre a introspecção e a solidão como representantes sociais e afetivos na crônica "Os olhos convexos" de Anilda Leão e na história da civilização., Maceió/ Al, p. 23 - 30, 12 maio 2008.
SILVA, Enaura Quixabeira Rosa e.; BOMFIM, ‎Edilma Acioli (org.). Dicionário mulheres de Alagoas ontem e hoje. Maceio: EDUFAL, 2007, 456p.
VILELA, Arriete. Anilda Leão: intensa e autêntica. in: Gazeta de Alagoas, caderno Saber, edição 3 de março de 2012. Disponível no link. (acessado em 29.4.2016).




Anilda Leão Moliterno - foto (...)
OUTRAS FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
:: Antônio Miranda
:: Gotas de Poesia e Outras Essências
:: Wikipédia (es)
:: Wikiwand (inglês)


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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Anilda Leão - a poeta múltipla. Templo Cultural Delfos, abril/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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Flora Figueiredo - a poética da vivência

Flora Figueiredo - foto: escritasblog

Flora Maria Loureiro Figueiredo é natural de São Paulo, nascida em 1951. Poeta, cronista, tradutora, compositora, foi vice-presidente da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, membro da Women Association of Journalists and Writers, correspondente do Centre International d´Études Poétiques, na Bélgica, de cujo acervo constam suas obras. Durante três anos foi responsável pela última página da Revista Cláudia. Finalista do Prêmio Jabuti em 2000 na categoria Poesia, é membro da União Brasileira de escritores (UBE). A autora publicou as obras poéticas: Florescência (também lançado em Portugal), Limão Rosa, Amor a Céu Aberto, Estações, O Trem que Traz a Noite, Chão de Vento e participou de várias Antologias. Seus livros foram adotados pelas redes públicas de ensino. Tem trabalhos nas áreas publicitária e musical, com parceiros como Ivan Lins, Natan Marques, maestro Aylton Escobar e vários outros.
:: Fonte: Editora Novo Século (acessado em 27.4.2016).


PRÊMIOS
:: Concurso Veia Poética, pela Editora Vertente e Revista Escrita, 1981.
:: III Concurso Mackenzie de Poesia, 1982.
:: I Concurso Vinícius de Moraes de Poesia, 1983.


OBRA DE FLORA FIGUEIREDO
Flora Figueiredo - foto: Dani Gurgel
Poesia
:: FlorescênciaRio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987; São Paulo: Editora Novo Século, 2010.  
:: Calçada de verãoRio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989; São Paulo: Editora Novo Século, 2010. 
:: Amor a céu aberto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992; São Paulo: Editora Novo Século, 2010.
:: EstaçõesRio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995; São Paulo: Editora Novo Século, 2010.
:: O trem que traz a noiteRio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000; São Paulo: Editora Novo Século, 2010.
:: Chão de vento. São Paulo: Geração Editorial, 2005; 2ª ed., 2006. 
:: Limão Rosa. São Paulo: Editora Novo Século, 2009.

Infanto-juvenil
:: Marita Pirulita. São Paulo: Novo Século Criança, 2013.
:: Dom. São Paulo: Novo Século Criança, 2013.

Antologias (participação)
:: Veia poética. São Paulo: Editora Vertente e Revista Escrita, 1981.
:: Antologia poética Vinícius de Moraes.
:: No voo da palavra.
:: Os pastores de Virgílio. [organização Álvaro Alves de Faria]. São Paulo:  Escrituras Editora, 2009.



POEMAS ESCOLHIDOS DE FLORA FIGUEIREDO
Flora Figueiredo - foto: Dani Gurgel (2009)

A meus filhos
Estou aqui ao lado, 
à margem de seu caminho, 
vendo você passar. 
Quero que vá sozinho 
mas me mantenho por perto. 
Se o rumo é certo, 
me aprumo e aplaudo; 
se é via tortuosa, 
jogo-lhe aos pés uma rosa 
pra que desviando dela 
você chegue a outro lugar; 
se a sombra é fria, 
mando-lhe um beijo quente; 
se o chão queima do sol nascente, 
estendo-lhe a poesia 
para que o possa atenuar, 
se não houver alimento, 
peço ao vento 
sementes que lhe tragam vida. 
Para a sede, 
roubo do céu a lágrima caída da madrugada. 
Mas se você não precisar de nada, 
ainda assim eu estarei vigiando, 
escondida talvez atrás de um querubim. 
Abençoarei sua vida e sua estrada, 
mesmo que já esteja transformada 
na forma clara e casta de um jasmim. 
- Flora Figueiredo, em "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

§

Alma
Acho que os sentimentos têm células, 
pois as sinto remexer, 
intensas libélulas 
a se fundir e a se desprender. 

Alimentam-se de lágrimas e risos, 
sempre crescem. 
A cada instante que vivo, 
mais então se expandem, 
mais amadurecem. 

Seu núcleo me pede pulsações 
e quando me perco pelas emoções, 
ele se avoluma e me maltrata. 
Chega a ser tão grande seu efeito, 
que rompe o peito,sangra 
e se dilata. 

Ah minhas células emotivas! 
Quero-as em mim 
coladas e cativas 
fazendo-me viver intensamente. 
Eu as batizo com o nome de "alma" 
e as responsabilizo a viver eternamente 
ainda quando o coração se acalma 
e põe-se a dormir 
irreversivelmente.
- Flora Figueiredo, em "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

§

Amanhecência
Quero ficar só, 
para respirar a estrela. 
Deixar a noite escorrer a mágoa, 
dissolvê-la em enxurrada. 
Não deixar nada a comprimir o peito. 
Quero a madrugada de tal jeito, 
que a alma possa flanar sem pouso certo 
e sugar o primeiro brilho esperto 
de uma gota. 
Beijar a pétala rota 
pelo mau jeito de um espinho, 
degludir devagarinho 
o mel do espasmo nascente. 
Quero o orgasmo 
do pólen, da semente; 
eu quero o sumo. 
Para recompor a vida, 
pra renascer o afeto, 
pra retomar o rumo. 
- Flora Figueiredo, em "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. 

§

Arquitetura
Solidão é quando se sente o próprio hálito, 
se se descobre pálido olhando o vão do dedo. 
Estar só é morrer de medo do silêncio, 
amassar o lenço na palma da mão. 
É quando a noção da vida se desloca, 
sai do meio da rua, quer a toca, 
onde o espaço menor não deixa sobra. 
Solidão é o canteiro de obras da emoção: 
nele se guardam materiais preciosos, 
os pontiagudos, os tortos, os porosos, 
que, se devidamente combinados, 
serão perfeitamente aproveitados 
como estrutura de uma nova construção. 
- Flora Figueiredo, em "Amor a céu aberto". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

§

Beijos
Procure embaixo de sua saudade, 
um beijo meu. 
Em algum instante da despedida 
ele se perdeu, 
mergulhado, talvez, 
numa lágrima perdida. 
Não possui nada de especial: 
a dose de açúcar 
que no beijo é natural, 
a umidade das várias emoções. 
Com uma certa tendência 
a contravenções, 
é melhor que seja procurado 
em lugares proibidos, 
onde ele pense jamais ser encontrado. 
Carrega de um lado 
uma meia-tristeza conquistada 
nos desatinos de uma noite, 
daquelas em que a lua vem quebrada; 
do outro lado, um sorriso 
de quem sabe como chupar estrelas. 
Sobraram-lhe sequelas e aderências 
das muitas experiências 
de quem já foi bolinar o paraíso. 
Se for capaz de encontrá-lo, 
devolva prontamente, 
pois é evidente a falta que ele faz.
- Flora Figueiredo, em "Amor a céu aberto". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

§

Bom-senso
Hoje não vou,
que é dia ruim de decisão:
o ninho apareceu cheio de ovos,
o vaso me presenteou com botões novos,
a lua fez alongamentos verdes  sobre o mar.
Dia de emoção não é dia de ir.
Quem sabe amanhã amanhece chovendo
e eu fico matemática.
- Flora Figueiredo, em "Chão de vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006.

§


Brancos
Perdoa coração este momento 
de introspecção. 
Sinto teu aperto, 
teu descompasso, 
tua pressão. 
Peço-te perdão 
por mais este instante oprimido, 
por todo impulso contido, 
cada decepção que te causei: 

as grandes cenas que não fotografei, 
os beijos que retive, 
as risadas que contive, 
as brigas que não briguei, 
os poemas que não escrevi, 
os falsos que respeitei, 
as auroras que não vi, 
os porres que não permiti, 
o amigo que não percebi, 
o amante que não amei. 

Perdoa coração por este abuso, 
mas me recuso a recuar novamente. 
É que sempre se morre um pouquinho 
a cada emoção que não se sente. 
Não vale entrar na vida de mansinho; 
tem-se que vibrar intensamente, 

ainda que te custe uma palpitação.
- Flora Figueiredo, em "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. 

§

Caixa de costura
Venho costurando minha vida 
com linhas de saudade. 
Procuro equilibrar-lhes a cor 
para que o resultado final não seja triste. 
Por vezes, é o cinza que insiste; 
por vezes, impera o marrom. 
Ainda bem que tem saudade bonita; 
mudo o tom, amarro fitas, 
busco a outra ponta do novelo; 
intercalo a trama em amarelo. 
A saudade é assim mesmo, 
tecelã do tempo. 
Quando menos se espera, 
arremata o momento,leva embora, 
deixa a porta encostada, o cadarço de fora, 
e nunca avisa a hora de voltar. 
Ainda hei de costurar com verde florescente 
e, se a saudade chegar autoritariamente, 
vai se sentir enfraquecida. 
Enquanto procuro a cor, 
vou costurando a vida, 
sem saber qual vai ser o resultado. 
Caso ele não fique combinado, 
dou um nó, encosto agulha, guardo a linha, 
que essa culpa roxa não é minha. 

É uma artimanha branca do passado.
- Flora Figueiredo, em "O trem que traz a noite". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. 

§

Caleidoscópio
Pela fresta observo a dança das cores 
nos vidros recortados. 
Separam-se, aglutinam-se, 
desenham maravilhas 
Como se bailassem calçando sapatilhas. 
A cada movimento, uma surpresa, 
a mesma flor concebida com destreza, 
em seguida se espalha e se desfaz. 
Por trás de seu processo giratório, 
o caleidoscópio avisa: 
a forma é fugaz e imprecisa 
e o colorido de hoje é provisório.
- Flora Figueiredo, em "O trem que traz a noite". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

§

Catavento
A cada esquina, 
há um cheiro de verão 
que me entontece, 
afaga, 
contamina. 
já não sei mais a direção. 
Que sorte a minha perder o Norte! 
Se os meus pontos cardeais 
fossem definidos, 
não caberia esse amor tão proibido, 
que sofre, goza muito e pede mais. 
- Flora Figueiredo, em "O trem que traz a noite". São Paulo: Editora Novo Século, 2000. 

§

Chuva poética
O céu rasgou-se espada afora 
e verteu lágrimas, 
muitas lágrimas, 
Não sei se eram de tristeza ou indignação. 
Também, não adianta perguntar, 
que ninguém responde. 
Pus minha canequinha do lado de fora da janela, 
ela quase transbordou. 
Estou rica: tenho uma caneca com lágrimas do céu. 
Os vizinhos caçoam: 
quem é que compra um punhado de chuva?
- Flora Figueiredo, em "Chão de vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006. 

§

Círculo vicioso
Pedi ao tempo 
que parasse um momento 
de frente para o mar. 
Que tirasse o tênis, 
a camiseta suada, 
que respirasse fundo 
apenas o segundo suficiente 
pra se poder sonhar. 
Mas o tempo é inclemente. 
Insiste em correr 
arrastando a hora, 
que leva na coleira 
como bichinho de estimação. 

Parece brincadeira! 
Há tantos estamos assim, 
que já não sei agora 
se sou eu que corro atrás do tempo, 

ou se é o tempo que corre atrás de mim.
- Flora Figueiredo, em "O trem que traz a noite". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. 

§

Como nascem as manhãs
O fundo dos olhos da noite 
guarda silêncios. 
Esconde na retina 
a menina que corre descalça em campo aberto. 
Pálpebras cerradas, a noite emudece. 
A menina com medo 
faz um furo no escuro com a ponta do dedo. 
Cai um pingo de luz. 

Amanhece.
- Flora Figueiredo, em "Chão de vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006.

§

Compensação
Faz parte das nossas andanças 
as mudanças que o tempo faz: 
se o mundo já nos olha menos, 
seguramente ele nos ouve mais.
- Flora Figueiredo, em "Amor a céu aberto". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. 

§

Conselho
Nunca chore um insucesso. 
O que pode parecer um abscesso, 
também pode servir de recomeço. 
Agarre o desaponto pelo avesso, 
apare as pontas, corte o excesso. 
Mude a covardia de endereço, 
ponha a escavadeira em retrocesso 
até que o mundo, esse réu confesso, 
lhe devolva seu mel e seu apreço. 
Uma vez retomado esse processo, 
devolva-me o sorriso que mereço. 
- Flora Figueiredo, em "O trem que traz a noite".Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

§

Dois
Dois: 
a procurar nossas fragrâncias 
entre sombras e reentrâncias, 
a percorrer nossos roteiros, 
a nos tornarmos parceiros. 
Dois: 
de repente nos engajamos 
irremediavelmente 
numa conduta lisa e calma, 
engolindo do outro a própria alma 
e nos mixamos. 
Pra que depois 
fundidos e misturados, 
células e sangues consumidos 
rolemos nossos núcleos confundidos 
numa corrente mágica e comum. 
Absorventes, 
antropofágicos, 

um.
- Flora Figueiredo, em "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. 

§

Duplicidade
Eu te pressinto 
correndo a meu lado 
e te admito. 
Gosto do teu sorriso sem conflito, 
tua trança 
que balança frouxa contra o vento. 
Acostumei-me a te levar comigo 
pelos meus sucessos 
e nos contratempos. 
Eu me desculpo pelos meus excessos. 
Há espaço pra nós duas, 
suficiente 
para poder te manter irreverente, 
apoiada 
na minha metade equilibrada. 
Assim me encosto 
na textura sem rugas de teu rosto. 
Se houver um quase nada 
de divergência, 
é melhor prevalecer a tua inconsequência, 
que é nosso lado mais sadio. 
Se por acaso houver um desafio, 
há de vencer-me a ingenuidade 
que evaporou no tempo, 
que decorou nos tons da meia-idade 
Mas, quando um dia confrotarmos 
nossas diferenças, 
quero que se sobreponha 
por sobre minha face mais tristonha 
a tua liberdade mais traquina. 
Eu te dou a mão num gesto de ternura, 
porque te quero sábia, 
porque me quero pura. 
Meio mulher madura, 

meio menina.
- Flora Figueiredo, em "Chão de vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006. 

§

Escapismo
Tristezas podem ficar caladas.
É só não puxar por elas.
Enquanto dormem,
abastecemos a barca de sonhos,
aquietamos o rio das indagações.
Quando a tristeza acordar pálida do pó de seus porões,
é nossa vez de descansar.
O ponteiro do desencontro torna possível navegar.
- Flora Figueiredo, em "Chão de vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006. 

§


Sob a abóboda, uma tonalidade âmbar, 
que entra quieta pelos vitrais. 
Um leve aroma de incenso, 
que os dias de hoje já nem usam mais. 
De joelhos, os fiés contritos; 
em pé, os devotos aflitos; 
sentados, os mais conformados. 
Um grupo discreto murmura confiante 
uma novena: 
a esperança é grande, 
a sorte é pequena, 
só Deus que dá jeito. 
Ave Maria, cabeça baixa, mão no peito, 
talvez um dia. 
A viúva recente, a moça carente, 
o desempregado; 
a mãe alarmada, a sogra injuriada, 
o velho doente; 
uma adolescente que quer namorado. 
No início da esquerda, a imagem parece 
sensibilizada. 
Também, tanta prece... 
Olhos comovidos, gestos suplicante, 
aos pés uma rosa e a serpente pisada. 
Lá na frente, um cristo sofrido pede penitência, 
que o pecado é insistente, 
o corpo é atrevido 
e a gente escorrega por inconsequência. 
Depois do conforto, 
o frasco de água-benta na porta da saída. 

Se houver recaída, só fé que sustenta.
- Flora Figueiredo, em "Chão de vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006.

§

Indomável
Sem água morna, 
sem pedra mole, 
nem fogo brando. 
Amor quando chega, 
tem que vir arrebatando, 
virando a mesa, 
rompendo a porta. 
Amor que se preza 
agarra a vida na marra 
e desentorta; 
abraça a hora com força 
e desamassa. 
Vem certo de ficar, vai indo embora; 
vem pensando em partir, mas vai ficando. 
Sempre confundindo, é certo-errando 
que deixa tudo fora do lugar. 
... e quanto mais o peito resistir, 

o tanto mais vai explodir de muito amar.
- Flora Figueiredo, em "Chão de vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006. 

§

Gangorra
Eu namoro a noite,
você apaga a lua;
eu perfumo o lençol,
você dorme na rua;
eu aprumo a estrela,
você a entorta;
eu colho a maçã,
você traz a lagarta;
eu rego o ipê,
você parte o galho;
eu tempero com sal,
você talha o molho;
eu lavo o cristal,
você trinca a ponta;
eu adoço com mel,
você passa do ponto;
eu beijo na boca,
você faz de conta.
- Flora Figueiredo, em "Chão de vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006. 

§


Segure o beijo antes que acabe, 
que o amor desabe, 
que a aurora canse. 
A vida tem nuances não entendidas. 
Adere esse momento no teu peito e goza. 
Aspira fundo o âmago da rosa 
antes que ele se desloque, 
desapareça, 
desencante. 
Antes que a flor desaconteça, 
bebe o cerne quente desse instante.
- Flora Figueiredo, em "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. 

§

Líquido
Teu beijo é tanto 
é tamanho 
que nele me dispo, 
me banho, 
me adoço. 
Deixo no pescoço 
uma gota ativa 
pra te manter molhado 
enquanto posso. 
Essa umidade me conserva viva.
- Flora Figueiredo, em "Calçada de verão". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

§

Lunar
A lua aconteceu hoje rasgada, 
pois brigou com um trovão 
da madrugada. 
Não gostou do seu clarão. 
Sentiu-se ultrajada. 
Recolheu seu pedaço ferido 
e o manteve escondido 
daqueles que se amavam sob seu encanto. 
Assim incompleta, 
a lua amoitou-se numa nuvem preta 
e choveu em pranto.
- Flora Figueiredo, em "O trem que traz a noite". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. 

§

Melódico
Canto aos quatro cantos, 
aos quatro ventos. 
Desnudo as pautas do tempo 
em claves, bemóis e sustenidos. 
Hei de fazer chegar aos seus ouvidos 
uma rima de amor em tom maior. 
Quando o mundo cantá-la já de cor, 
eu trago a flauta 
que põe ternura nessa nota que ainda falta 

pra perpetuar o nosso amor na partitura.
- Flora Figueiredo, em "Chão de vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006. 

§


Estou perdidamente emaranhada
em seus fios de delícias e doçuras.
Já não encontro o começo da meada,
não sei nem mesmo
se há uma ponta de saída,
ou se a loucura
vai num ritmo crescente
até subjugar a minha vida.
Não importa.
Quero seus nós de seda
cada vez mais cegos e apertados
a me costurar nas malhas e nos pêlos.
Enquanto você me amarra,
permanece atado
na própria trama redonda do novelo
- Flora Figueiredo, em "Amor a céu aberto". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. 

§

O outono
Meio-tom. 
Bom termo entre os excessos, 
equilibrado confesso, 
pondero entre extremos. 
Outono, 
coleciono trechos de poesia 
tirados de cores e de brisas, 
do peito da tarde que se descamisa 
em seu desfecho. 
Da maturidade deixo a fruta 
que se queda pronta sobre a terra 
quando minha temporada já se encerra 
e cede vez à estação substituta. 
- Flora Figueiredo, em "Estações". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.

§


Origami
Dobra que dobra,
redobra.
Põe de pé,
puxa as pontas.
Não fica perfeito,
mas faz de conta;
um pouco torto,
mas ninguém vê.
Não faz mal:
é só um pedaço morto
de folha de jornal.
Ficou de lado,
meio largado
na gaveta.
Ao voltar,
as letras de papel terão voado.
Palavra mal guardada

acaba se tornando borboleta.
- Flora Figueiredo, em "Chão de vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006. 

§

Pátria amada
Sinto a paz entortar 
e a segurança tremer 
em desassossego, 
como num espasmo celular. 
Procuro então minha criança, 
para ver se ela ressona 
sua infância 
como quem não está ainda sabendo 
que o ar da tarde está ventando 
e que o sol amigo anda chovendo. 
Vejo meus sonhos debruçados 
na varanda, 
a esperança aguardando, 
iminente. 
A bola, 
a bala, 
a lavanda. 
Medos dobrados, 
tambores guardados, 
a lua lactente da noite, 
brilhando. 
Até como, meu Deus, até quando?
- Flora Figueiredo, em "Calçada de verão". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

§

Pé-de-vento
passou.
Sei que era ele
porque transformou
minha integridade
em pó de estrela.
E assoprou tanto,
que me fez perdê-la
completamente.
Se ele regressar num repente,
vou tentar detê-lo
para recuperar um fragmento
de claridade.
Pé-de-vento.
Há de voltar.
Levou meu brilho,
mas deixou saudade.
- Flora Figueiredo, em "Amor a céu aberto". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. 

§

Perplexidade
Sempre pensei que quando a gente envelhecesse, 
o tempo por fim se condoesse 
e parasse de vez de pregar peças. 
Agora vem você desavisadamente, 
colocar minha oração em desalinho, 
desafiar-me a retidão posta à avessas. 
Por isso peço aos anjos novamente, 

que dêem licença para eu errar mais um pouquinho.
- Flora Figueiredo, em "Chão de vento". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. 

§

Perseverança
Sofro pela espera longa e infundada, 
pela flecha que saiu sem dar em nada, 
pelo remo que quebrou sem navegar, 
pela rocha que tombou, partiu-se ao meio 
e brotou pedras onde eu quis colher centeio, 
pela manhã que amanheceu sem se deitar. 

Escuto a cotovia que insinua 

que o cravo morreu, mas a terra continua. 

Bendigo o chão por cada grão e me comovo. 


Parto de novo.
- Flora Figueiredo, em "Chão de vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006. 

§

Pés
Conheço minhas pegadas, de tanto ir e vir. 
Às vezes pisam fundo 
como carregassem o peso do mundo; 
às vezes ficam amassadas 
sob o descuido das outras pegadas. 
Sobre elas, a lua nova desdobra sua saia 
em cena de nudez no chão da praia. 
Só perco meus passos na maré cheia: 
essa mania do mar de tirar seus sapatos sobre a areia. 
Conheço bem minhas pegadas. 
Sou capaz de identificá-la em qualquer lugar. 

Se ao menos eu soubesse aonde vão me levar...
- Flora Figueiredo, em "Chão de Vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006. 

§

Primavera
Esse acorde doce me faz lembrar 
um beijo roubado à mesa do jantar 
num momento de mel que a Primavera trouxe. 
Faço um poema. 
Bordado de flores e de afetos 
e de segredos mais que indiscretos. 

Você é a musa, eu sou o tema.
- Flora Figueiredo, em "O trem que traz a noite". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. 

§

Reciclagem
Das marés revoltas, faço melodias 
que se reviram soltas no meu carrossel 

Com noites perdidas, empino papagaios 

pra afastar os raios com dedos de papel 

das pétalas caídas, faço artesanato 

pra adoçar o pranto da próxima partida. 

Com amores cansados, preparo cobertas 

às horas desertas de um tempo passado.
- Flora Figueiredo, em Limão Rosa". São Paulo: Editora Novo Século, 2009. 

§

Retrospectiva
Porque a vida é feita de proibições, 
eu não compus todas as canções, 
não percebi a brisa suspirar, 
eu esqueci cantigas de ninar, 
dei chances demais à voz dos credos, 
não rompi de vez todos os medos, 
roubei do tempo um tanto de carinho, 
não vi a flor amar o passarinho, 
perdi o trem na curva da vertente 
e não deixei o mel melar completamente. 

Porque a vida é feita de proibições, 
larguei o fio, soltaram-se os balões, 
deixei que o pião revirasse sozinho, 
mandei que o zangão se zangasse baixinho, 
desprezei a bruma que baixou o véu, 
permiti à palavra dormir no papel, 
evitei o desvio que atravessa a estrada, 

Não quis o desafio da ronda embriagada, 
não li o poema do poeta maldito 
e não tive o dilema do beijo infinito. 

Porque ainda há tempo para o encantamento, 
quebre-se o vidro do sermão absoluto, 
rompa-se a teia, reveja-se o estatuto, 

que a primavera quer amar o chão de vento.
- Flora Figueiredo, em "Chão de vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006. 

§

Subida
Quando o dia acorda atravessado, 
escalo uma montanha. 
É meu próprio caminho em direção ao sol. 
Mochila nas costas, carrego o principal; 
não levo nem perguntas, nem respostas. 
Ponho um ramo de sonhos 
que vou plantando pelo caminho, 
a flauta encantada 
pra seduzir passarinho, 
a estrela companheira 
que brilha o tempo inteiro 
e mantém a trilha luminosa; 
um frasco de água benta, 
uma reza certeira; 
um arco-iris à prova de nada. 
Devagarzinho, sem pressionar o tempo, 
chego ao meu destino. 
Respiro fundo, abro os braços, 
canto um hino de sagração ao mundo 
— e agradeço —
por ter descoberto de repente 
por onde se começa o recomeço. 
- Flora Figueiredo, em "O trem que traz a noite". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. 

§

Trajeto
Pressenti você por onde andei: 
nas páginas da história que reli, 
nos respingos da lua que bebi, 
em meio às contas dos rosários que rezei. 

Bem que eu tentei mudar de assunto: 
alterei o roteiro da viagem, 
colhi alfazemas na paisagem, 
dedilhei valsas, decorei poemas. 
Você veio junto. 

Apostei no vento que chegou de fora 
e levou meu passado embora 
numa lufada larga e radical. 
Mas quando chego ao destino, 
ouço saudades na frase de um violino 

e percebo seu beijo em meu porto final.
- Flora Figueiredo, em "O trem que traz a noite". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. 

§

Tratado manso de loucura
Como amo a paz de estar comigo! 
Essa fusão de alma-umbigo, 
esse roteiro quente do meu sangue. 
Eu que conheço cada palmo dos meus passos, 
que me retenho e me disponho. 
Faço dos versos meu avesso, 
dos adversos, meu passado, 
das alegrias, meu recomeço. 
Deito liquefeita e, de repente, 
amanheço solidificada. 
Sou água, sou pedra, 
às vezes nuvem, 
às vezes nada. 
Por ser inconstante e difusa, 
enrolo e desenrolo essa vida 
num movimento mágico e confuso, 
admito ser ou não ser 
e ser assim. 
Como é bom sentir-me tão querida, 
tão bem-amada e tão dividida, 

eu resolvida inteiramente por mim!
- Flora Figueiredo, em "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. 

§

Vento novo
Estava enrolada
em teias e traças,
debaixo da escada,
lá no subsolo
da casa fechada.
Começava a tomar ares de desgraça.
Manchada do tempo,
fenecia
a esperar que um dia
alguma coisa acontecesse.
Antes que se perdesse completamente,
sentiu passar um vento cor-de-rosa.
Toda prosa, espanou a bruma,
pintou os lábios
e sem vergonha nenhuma
caprichou no recorte do decote.
A felicidade volta à praça
cheia de dengo e de graça,

com perfume novo no cangote.
- Flora Figueiredo, em "Amor a céu aberto".  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. 

§

Vivência
Se sua rua porventura aparecer 
coberta de pétalas caídas 
pela inclemência 
de um vento qualquer, 
não faça nada. 
Deixe-a assim desordenada 
e descabida. 
São reticências que sobraram da estação passada. 
Acabarão varridas pela própria vida.
- Flora Figueiredo, em "Amor a céu aberto". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. 


FORTUNA CRÍTICA
(...)



Flora Figueiredo - foto (...)
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:: Jornal da Poesia

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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Flora Figueiredo - a poética da vivência. Templo Cultural Delfos, abril/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 29.4.2016.


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