"A arte é o espelho da pátria.
O país que não preserva os seus valores culturais j
amais verá a imagem de sua própria alma."
- Chopin

Cora Coralina - venho do século passado e trago comigo todas as idades

Cora Coralina - foto: Acervo ©Museu Casa de Cora Coralina
(Global Editora)
"Eu sou aquela mulher
a quem o tempo muito ensinou.
Ensinou a amar a vida
e não desistir da luta,
recomeçar na derrota,
renunciar a palavras
e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos
e ser otimista.

Creio na força imanente
que vai gerando a família humana,
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana,
na superação dos erros
e angústias do presente.

[...]

Aprendi que mais vale lutar
do que recolher tudo fácil.
Antes acreditar do que duvidar"
- Cora Coralina, em trecho do poema "Ofertas de Aninha (aos moços)", do livro "Vintém de cobre: meias confissões de Aninha". 6ª ed., São Paulo: Global Editora, 1997, p.145.


Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (Cidade de Goiás GO, 20 de agosto de 1889 - Goiânia GO, 10 de abril de 1985). Poeta e contista. Passa a infância e adolescência na Cidade de Góias. Pertencente a uma família de origens aristocráticas, é educada em casa por uma mestre-escola, cursando apenas os quatro primeiros anos primários. Apesar da pouca escolaridade, aos 14 anos começa a publicar contos e poemas em periódicos da cidade, valendo-se do pseudônimo Cora Coralina, que adota devido à repressão familiar. Na mesma época frequenta o "Clube Literário Goiano". Durante uma das reuniões conhece o advogado Cantídio Tolentido de Figueiredo Bretas, com quem, em 1911, foge para o interior paulista (os dois só se casariam oficialmente em 1926). Durante os anos que vive com o companheiro, continua escrevendo, porém não publica sua produção. No entanto, contribui com artigos para jornais das regiões de Avaré e Jaboticabal. Com a morte do marido, em 1934, passa a morar na capital paulista e, para sustentar a si e aos filhos, torna-se vendedora de livros na editora de José Olympio (1902 - 1990). Na década de 40 volta para a cidade de origem, tornando-se doceira, profissão que a sustentou até o fim da vida. Em 1965, aos 76 anos, decide publicar pela primeira vez seus escritos (Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais) pela mesma editora José Olympio. Em 1983 recebe o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal de Goiás (UFG), e no mesmo ano torna-se a primeira mulher a vencer o prêmio Juca Pato com o livro Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha.
Cora Coralina - foto: Acervo ©Museu Casa de Cora Coralina
(Global Editora)
Comentário Crítico
O cerne da prosa e da poesia de Cora Coralina reside na memória autobiográfica. Em seus textos, a escritora aborda cenas da infância em sua cidade natal, sobretudo aquelas que se passam no espaço doméstico - como no poema "Antiguidades": "Quando eu era menina/ bem pequena,/ em nossa casa,/se fazia um bolo,/ assado na panela/ com um texto de borralho em cima". O título do poema, aliás, já antecipa que sua matéria será o passado, assim como o título de outros poemas da autora ("Velho sobrado";"O passado...";"Velho"). Pode-se afirmar então que, no caso de Cora Coralina, obra e biografia são elementos indissociáveis, e a figura pública da escritora amalgama-se à da senhora doceira que rememora o passado de menina. Mesmo em suas obras infanto-juvenis, como o Tesouro da Casa Velha, em que são narradas histórias de tom imemorial, envolvendo fantasmas e tesouros escondidos, os contornos biográficos estão presentes: os fantasmas são parentes de Cora, e os tesouros estão escondidos na casa de sua família.
Nesse sentido, a cidade de Goiás - e seu glorioso passado colonial - possui lugar relevante em sua obra, uma vez que Cora associa de forma tenaz a cidade natal e biografia. Por vezes, ao meditar em versos sobre o sobrado familiar (ligado intrinsecamente à história da cidade), o eu lírico parece configurar certa nostalgia das formas de vida do Brasil colônia ("Homens sem pressa,/talvez cansados,/descem com leva/madeirões pesados,/lavrados por escravos/(...)Passantes cautelosos/desviam-se com prudência./Que importa a eles o sobrado?").
Embora não tenha participado ativamente do movimento modernista, a linguagem simples e coloquial e o registro do dado local de Cora Coralina possuem afinidades com a estética surgida com o movimento, evidenciando assim a sincronismo da autora com seu tempo.
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Fonte: Enciclopédia de Literatura Brasileira/Itaú Cultural


"A estrada da vida é uma reta marcada de encruzilhadas.
Caminhos certos e errados, encontros e desencontros
do começo ao fim.
Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."
- Cora Coralina, em trecho do poema "Exaltação a Aninha (o professor)", do livro "Vintém de cobre: meias confissões de Aninha". 6ª ed., São Paulo: Global Editora, 1997, p.151.


Cora Coralina - foto: Acervo ©Museu Casa de Cora Coralina
(Global Editora)

CRONOLOGIA VIDA E OBRA DE CORA CORALINA
1889 - Nasce Ana Lins do Guimarães Peixoto Bretas (Cora Coralina), na cidade de Goiás, em 20 de agosto. Filha de Jacinta Luíza do Couto Brandão Peixoto e do Desembargador Francisco de Paula Lins do Guimarães.
1900 - Impedida de frequentar regularmente a escola, descobre a literatura lendo os almanaques encontrados em sua casa e começa a escrever seus primeiros versos.
Cora Coralina - foto: Acervo ©Museu Casa de Cora Coralina
(Global Editora)
1905 - Passa a frequentar os saraus literários realizados na residência de um advogado da cidade, em que, sem revelar o nome do autor, lê publicamente seus poemas.
1907 - Tem pela primeira vez seus poemas publicados no jornal O Paiz. Trabalha como redatora do jornal A Rosa.
1910 - Publica seus primeiros poemas no jornal O Paiz e pela primeira vez utiliza pseudônimo Cora Coralina, que adota em toda sua carreira literária. Publica o seu primeiro conto "Tragédia na Roça" no Anuário Histórico Geográfico e Descritivo do Estado de Goiás .
1911 - Grávida, sai da cidade com Cantídio Tolentino de Figueiredo Brêtas, que havia sido designado delegado de polícia da Vila de Goiás nesse ano.
1912 - Instalam-se na cidade de Jaboticabal, interior de São Paulo.
1914 - Colabora no Jornal O Democrata, em que seu marido trabalha como redator. Em seus artigos faz reivindicações em favor dos pobres e idosos da cidade. Defende a criação da Escola de Agronomia de Jaboticabal.
1921 - Publica no jornal O Estado de S. Paulo o artigo "Idéias e Comemorações", elogiado pelo escritor Monteiro Lobato (1882 - 1948).
1923 - O casal adquire uma chácara onde a poeta passa a cultivar e comercializar flores. Colabora no jornal A Informação Goiana.
1925 - Viaja com o marido para São Paulo e oficializam o casamento. Em lua-de-mel, vão para o Rio de Janeiro.
1926 - Muda-se com a família para São Paulo.
1932 - Apóia a Revolução Constitucionalista e colabora no jornal O Estado de S. Paulo.
Cora Coralina - foto: ©Acervo Museu Casa de
 Cora Coralina (Global Editora)
1934 - Morre seu marido e para sustentar a família abre uma pensão.
1936 - Conhece o editor José Olympio (1902 - 1990) e passa a vender os livros da sua editora.
1937 - Muda-se para Penápolis, São Paulo, onde abre uma casa de retalhos e colabora no jornal O Penapolense.
1940 - Instala-se em Andradina, São Paulo, e inaugura uma casa de tecidos. Adquire uma chácara na vila Alfredo de Castilho e se torna lavradora. Pouco tempo depois adquire dois novos sítios, no primeiro passa a produzir algodão e o segundo destina ao aluguel para o descanso das boiadas que, vindas de Mato Grosso, vão para o Matadouro de Araçatuba. Colabora no periódico O Jornal da Região.
1954 - Vende seus bens de São Paulo para seu filho e retorna para a vila de Goiás, onde produz doces.
1959 - Conhece o advogado Tarquínio de Oliveira, que a estimula a publicar seus poemas por uma editora paulista, então aprende datilografia e passa a limpo suas poesias.
1959 - Em companhia de Tarquínio de Oliveira encontra-se com o escritor Antônio Olavo Pereira (1913), irmão de José Olympio e administrador de sua editora em São Paulo.
1976 - É homenageada pelo Grêmio Lítero-Musical Carlos Gomes, sediado em Goiânia.
1979 - Recebe carta do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987) enaltecendo-a como uma das grandes poetas nacionais. Os dois poetas passam a se corresponder freqüentemente.
1980 - No Rio de Janeiro, é homenageada como uma das dez mulheres do ano nas letras nacionais. Drummond publica um artigo elogiando seus poemas no Caderno B do Jornal do Brasil.
1981 - Como tributo a seu trabalho literário recebe o Troféu Jaburu, doado pelo Conselho de Cultura do Estado de Goiás.
1982 - É reverenciada, em São Paulo, no 1º Festival Mulheres nas Artes. E participa do recital em sua homenagem promovido pela Fundação Ação Social do Palácio do Governo de Goiás.
Cora Coralina - foto: ©Acervo Museu Casa de
 Cora Coralina
1983 - Recebe o título de doutora honoris causa conferido pela Universidade Federal de Goiás. É homenageada pelo Senado, em solenidade promovida pela Fundação Pedroso Horta, pela Secretaria de Cultura do Governo de Goiás e pela Fundação Cultural. É agraciada com a Comenda da Ordem do Mérito do Trabalho, conferida pelo presidente da República, João Baptista Figueiredo (1919 - 1999), por seus méritos na promoção da cultura goiana.
1984 - Torna-se membro da Academia Goiana de Letras. Recebe o grande prêmio de crítica da Associação Paulista de Crítica de Arte - APCA e o Troféu Juca Pato da União Brasileira de Escritores - UBE reconhecida como Símbolo Brasileiro do Ano Internacional da Mulher Trabalhadora pela FAO.
1985 - Morre no dia 10 de abril, em Goiânia, e é enterrada na cidade de Goiás, onde é fundada a Casa de Cora Coralina, instituição que zela pela preservação de sua memória.



"Na minha alma, hoje, também corre um rio, um longo e silencioso rio de lágrimas que meus olhos fiaram uma a uma e que há de ir subindo, subindo sempre, até afogar e submergir na tua profundez sombria a intensidade da minha dor!..."
- Cora Coralina, em trecho do poema "Rio Vermelho", do livro "Villa Boa de Goyaz. São Paulo: Global Editora, 2001, p. 103.


OBRAS PUBLICADAS DE CORA CORALINA
Poemas de Cora Coralina
Poesia
:: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965.
:: Meu Livro de Cordel. Livraria e Editora Cultura Goiana, 1976, 93p.
:: Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha. (prosa e verso).. Goiânia: UFG Editora, 1983, 195p.; 5ª ed.[fotos Rosary Esteves, capa Marcos Santos Nunes e ilustrações Susy Simon]. São Paulo: Global Editora, 1995.
:: Vila Boa de Goyáz. [Seleção e edição Cecília Reggiane Lopes]. São Paulo: Global Editora, 2001.
:: Melhores poemas de Cora Coralina. [Seleção Darcy França Denófrio]. São Paulo: Global Editora, 2004, 325p.


Contos
:: Estórias da Casa Velha da Ponte. São Paulo: Global, 1985, 112p.
:: O tesouro da Casa Velha. São Paulo: Global, 1996, 144p.


Infanto-juvenil
:: Os Meninos Verdes[ilustrações Cláudia Scatamacchia]. São Paulo: Global, 1986, 24p..
Casa Velha da Ponte
:: A Moeda de Ouro que um Pato Engoliu. [ilustrações Alcy]. São Paulo: Global, 1999, 16p.
:: O Prato Azul-Pombinho. [ilustrações Lúcia Hiratsuka]. São Paulo: Global, 2002, 46p.
:: Poema do milho verde. [ilustrações Lélis]. São Paulo: Global, 2007, 32p.
:: As cocadas. (conto).. [ilustrações Alê Abreu]. São Paulo: Global, 2007, 28p.
:: A Menina, o cofrinho e a Vovó. [ilustrações Cláudia Scatamacchia]. São Paulo: Global, ? 24p.
:: Contas de dividir e trinta e seis Bolos. [ilustrações Cláudia Scatamacchia]. São Paulo: Global, ?, 48p.
** Fonte: Global Editora - Infantil  (coleções)


Culinária
:: Doceira e poeta. [ilustrações Cláudia Scatamacchia]. São Paulo: Global Editora, 2009, 114p.


Biografia
:: Cora Coragem, Cora Poesia. [Autora: Vivência Brêtas Tahan]. São Paulo: Global Editora, 1989, 240p.



Cora Coralina: poesia  LP (vinil) Comep/Edições Paulinas, 1989.
LP  - Cora Coralina Poesia
:: Cora Coralina - Poesia. (LP vinil).. [poemas declamados pela autora, pela filha Vicência Brêtas Tahan e pelo ator Hilton Viana; com trilha sonora de Eduardo Assad]. São Paulo: Comep/Edições Paulinas, 1989; reedição em "CD" - Edições Paulinas, disponível no site.


"Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos."
- Cora Coralina, na 'contracapa' LP Cora Coralina - poesia. Comep/Paulinas, 1989.


Antologias [participação]
BRASIL, Assis (Org.). A Poesia Goiana no Século XX: antologia. Goiânia: Fundação Cultural Pedro Ludovico Teixeira; Rio de Janeiro: Imago Editora, 1997, 302p.



“Quando escrevo, escrevo por um impulso interior que me vem do insondável que cada um de nós trás consigo. Mas uma coisa eu digo a você: ontem nós falamos nas pessoas que ainda estão voltadas para o passado. [...] E eu digo a você: não há ninguém que não faça sua volta ao passado ao escrever. Nós todos fazemos. Nós todos pertencemos ao passado. Todos nós. Queira ou não queira. É de uma forma instintiva. Nós todos estamos ligados muito mais aos nossos avós do que aos nossos pais.”
- Cora Coralina, em "Cora Política Coralina". Jornal de Brasília, Brasília, 7 outubro de 1984. 


Das pedras
Ajuntei todas as pedras
Cora Coralina fazendo seus doces - foto: Acervo ©Museu Casa de 
Cora Coralina (Global Editora)
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.

Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.

Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores

Entre pedras que me esmagavam
levantei a pedra rude
dos meus versos.
- Cora Coralina, em "Meu livro de cordel". 8ª ed., São Paulo: Global Editora, 1998, p 13.


CORA CORALINA - RECONHECIMENTO – HOMENAGENS, COMENDAS E PRÊMIOS
Cora Coralina - foto: ©Acervo Museu Casa de
 Cora Coralina (Global Editora)
1962 - Cidadã Andradinense – Andradina-SP.
1970 - Membro da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, Goiânia-GO.
1973 – Premio de Contribuição à cultura goiana – Literatura – UBE. Goiânia-GO.
1976 - Intelectual do Ano - Grêmio Litero Teatral Carlos Gomes, Goiânia-GO.
1977 - Membro da Arcádia Goiana de Cultura, Goiânia-GO.
1977 - Medalha Ana Néri – Sociedade Brasileira de Educação e Integração – São Paulo-SP.
1978 - Comenda do Mérito Anhanguera – Governo do Estado de Goiás, Goiânia-GO.
1978 - Medalha do Sesquicentenário da Fundação de Jaboticabal – Jaboticabal-SP.
1980 - Dez Mulheres do Ano, Conselho Nacional de Mulheres do Brasil, Rio de Janeiro-RJ.
1981 - Recebe o Troféu Jaburu, doado pelo Conselho de Cultura do Estado de Goiás, pelo seu trabalho literário.
____ . Medalha Veiga Valle, Organização Vilaboense de Artes e Tradições, Cidade de Goiás-GO.
____ . Expressão da Cultura, Academia Goiana de Letras e Fundação Projeto Rondon, Goiânia-GO.
1982 - Prêmio Fernando Chinaglia – UBE – Rio de Janeiro.
____ . Sócio Honorário da Casa do Poeta Brasileiro, Santos-SP.
____ . Medalha Tiradentes, Governo do Estado de Goiás, Goiânia-GO.
____ . Medalha Antônio Joaquim de Moura Andrade, Câmara Municipal de Andradina, Andradina-SP e Serviço Social do Comércio, São Paulo-SP.
Cora Coralina - foto: ©Acervo Museu Casa de
 Cora Coralina (Global Editora)
1983 - Recebe o título de doutora honoris causa, conferido pela Universidade Federal de Goiás.
____ . Mulher do Ano, Grêmio Litero Teatral Carlos Gomes, Goiânia-GO.
____ . É agraciada com a Comenda da Ordem do Mérito do Trabalho, conferida pelo presidente da República, João Baptista Figueiredo (1919 - 1999), por seus méritos na promoção da cultura goiana.
1984 - Recebe o Troféu Juca Pato, da União Brasileira de Escritores (UBE) e Folha de São Paulo, São Paulo.
____ . É reconhecida como Símbolo Brasileiro do Ano Internacional da Mulher Trabalhadora pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação).
____ . Cidadã Jaboticabalense, Jaboticabal-SP.
____ . Cidadã Goianiense, Goiânia-GO.
____ . Grande Prêmio da Crítica – Associação Paulista de Críticos de Arte, São Paulo-SP.
____ . Membro da Academia Goiana de Letras, Goiânia-GO.
1985 - Personalidade do Ano - Literatura, Rotary Club de São Paulo, São Paulo-SP.



“O grande livro que sempre me valeu e que aconselho aos jovens, um dicionário. Ele é o pai, é tio, é avô, é amigo e é um mestre. Ensina, ajuda, corrige, melhora, protege. Dá origem da gramática e o antigo das palavras. A pronúncia correta, a vulgar e a gíria. Incorporou ao vocabulário todos os galicismos, antes condenados. Absolveu o erro e ressalvou o uso. Assimilou a afirmação de um grande escritor: é o povo que faz a língua. Outro escritor: a língua é viva e móvel. Os gramáticos a querem estática, solene, rígida. Só o povo a faz renovada e corrente sem por isso escrever mal.”
- Cora Coralina, em trecho do poema "Voltei", do livro "Vintém de cobre: meias confissões de Aninha". 6ª ed., São Paulo: Global Editora, 1997, p. 127.


Cora Coralina,  por ©Lezio Junior
CORA CORALINA E A SEMANA DE 22
“Eu só me libertei da dificuldade poética depois do modernismo de 22, mas não acompanhei o movimento. Não sei como – não posso explicar como - me achei dentro daquela mudança. Em primeiro lugar, poesia para mim é comunicação; em segundo lugar é invenção, porque só o gênio cria. Hoje nós temos que achar a poesia na realidade da vida e a vida toda é poesia.
Porque onde há vida, há poesia. Poesia para mim é um ato visceral. É um impulso que vem de dentro e se eu não obedecê-lo me sinto angustiada. (...) Todo o poeta é meu preferido. Gosto dos poetas de 22. Mas para mim o fundamental é a poesia que busque inspiração na realidade. Não suporto os poetas do imaginário que fazem sua arte do caracol das palavras.”
- Cora Coralina, em Revista Análise, 1984, p. 10-11.


A MÁQUINA DE ESCREVER
A máquina de escrever de Cora Coralina - foto: (...)
“Querida amiga D. Cora Coralina, (...) A máquina de escrever é sua por direito de conquista. Não agradeça, portanto. Comprei essa Hermes Baby há alguns anos na convicção de que me serviria a escrever poemas. Tempo consumido em escritos econômicos, negócios, administração. Vejo que ela tinha um destino certo. E o realiza agora. (...) Certamente, um dia, será célebre nas obras de Cora Coralina e com maior beleza e valor. Não me agradeça. A máquina queira um dono côo a senhora. Teria fugido de mim mais cedo ou mais tarde. (...) Ela já era sua. Perdoe que não a tenha encontrado mais cedo.”
- Tarquínio J. B. de Oliveira – escritor, S. Paulo, 15 julho 60.


Ressalva
Este livro foi escrito 
por uma mulher 
que no tarde da Vida 
recria e poetiza sua própria 
Vida. 

Este livro 
foi escrito por uma mulher 
que fez a escalada da 
Montanha da Vida 
removendo pedras 
e plantando flores. 

Este livro: 
Versos... Não. 
Poesia... Não. 

Um modo diferente de contar velhas estórias.
- Cora Coralina, em "Poema dos becos de Goiás e estórias mais". Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965.


A poeta e contista Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, a Cora Coralina,
entre os frequentadores do Gabinete Literário Goiano
foto: Acervo ©Museu Casa de Cora Coralina



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE E A PROJEÇÃO NACIONAL DE CORA CORALINA
A repercussão nacional veio com a publicação da segunda edição de Poemas dos Becos de Goiás, em 1978, pela Editora da Universidade Federal de Goiás. Um dos exemplares foi encaminhado ao poeta Carlos Drummond de Andrade, que, não possuindo referências sobre a poeta, enviou uma carta* à universidade:

Cora Coralina - foto: ©Acervo Museu
 Casa de Cora Coralina 
“Cora Coralina. 
Não tenho o seu endereço, lanço estas palavras ao vento, na esperança de que ele as deposite em suas mãos. Admiro e amo você como alguém que vive em estado de graça com a poesia. Seu livro é um encanto, seu verso é água corrente, seu lirismo tem a força e a delicadeza das coisas naturais. Ah, você me dá saudades de Minas, tão irmã do teu Goiás! Dá alegria na gente saber que existe bem no coração do Brasil um ser chamado Cora Coralina. 
Todo o carinho, toda a admiração do seu.”
- Carlos Drummond de Andrade, Rio de Janeiro, 14 de julho de 1979. [publicado "Villa Boa de Goyaz", de Cora Coralina. São Paulo: Global editora, 2001].


Aninha, respondeu:
“Carlos Drummond de Andrade. Meu amigo, meu Mestre. 
Com alguma demora no recebimento de sua mensagem e maior da minha parte, vai aqui na pobreza deste papel de que só vale o branco, meu agradecimento àquele que de longe e do alto atentou para a pequena escriba, sem lauréis e sem louros, sem referências a mencionar. Sua palavra, espontânea e amiga, fraterna veio como uma vertente de água cristalina e azul para a sede
de quem fez longa e dura caminhada ao longo da vida. Abençoado seja o homem culto que entrega ao vento palavras novas que tão bem ressoam no coração de quem tão pouco as tem ouvido. Despojada de prêmios e de láureas caminha na vida como o trabalhador que bem fez rude tarefa, sozinho, sem estímulos e no fim contempla tranqüilo e ainda confiante a
tulha vazia. Meu Mestre. Meu Irmão. Que mais acrescentar? Eu sou aquela menina despenteada e descalça da Ponte da Lapa. Eu sou Aninha.”
- Cora Coralina. cidade de Goiás, 02 de setembro de 1979.


Essa carta foi à chancela para sua projeção nacional, consolidada com a Crônica “Cora Coralina, de Goiás”, publicada no Jornal do Brasil, transcrita na integra:
“Cora Coralina, de Goiás. Este nome não inventei, existe mesmo, é de uma mulher que vive em Goiás: Cora Coralina. Cora Coralina, tão gostoso pronunciar esse nome, que começa aberto em rosa e depois desliza pelas entranhas do mar, surdinando música de sereias antigas e de Dona Janaina moderna. Cora Coralina, para mim a pessoa mais importante de Goiás. Mais que o Governador, as excelências parlamentares, os homens ricos e influentes do Estado. Entretanto, uma velhinha sem posses, rica apenas de sua poesia, de sua invenção, e identificada com a vida como é, por exemplo, uma estrada. Na estrada que é Cora Coralina passam o Brasil velho e o atual, passam as crianças e os miseráveis de hoje.
Crônica "Cora Coralina, de Goiás - Drummond - JB.
O verso é simples, mas abrange a realidade vária. Escutemos: “Vive dentro de mim/uma cabocla velha/de mau olhado,/acocorada ao pé do borralho, olhando pra o fogo”. “Vive dentro de mim/a lavadeira do Rio Vermelho. Seu cheiro gostoso d’água e sabão”. “Vive dentro de mim/a mulher cozinheira. Pimenta e cebola. Quitute bem-feito”. “Vive dentro de mim/a mulher proletária./Bem linguaruda,/ desabusada, sem preconceitos”. “Vive dentro de mim/a mulher da vida./Minha irmãzinha.../tão desprezada,/tão murmurada...” Todas as vidas. E Cora Coralina as celebra todas com o mesmo sentimento de quem abençoa a vida. Ela se coloca junto aos humildes, defende-os com espontânea opção, exalta-os, venera-os. Sua consciência humanitária não é menor do que sua consciência da natureza. Tanto escreve o Ode às Muletas como a Oração do Milho. No primeiro texto, foi a experiência pessoal que a levou a meditar na beleza intrínseca desse objeto (“Leves e verticais. Jamais sofisticadas./Seguras nos seus calços/de borracha escura. Nenhum enfeite ou sortilégio”). No segundo poema, o dom de aproximar e transfigurar as coisas atribui ao milho estas palavras: “Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece./Sou o cocho abastecido donde rumina o gado./Sou a pobreza vegetal agradecida a Vós, Senhor”. Assim é Cora Coralina: um ser geral, “coração inumerável”, oferecido a estes seres que são outros tantos motivos de sua poesia: o menor abandonado, o pequeno delinqüente, o presidiário, a mulher-da-vida. Voltando-se para o cenário goiano, tem poemas sobre a enxada, o pouso de boiadas, o trem de gado, os becos e sobrados, o prato azul-pombinho, último restante de majestoso aparelho de 92 peças, orgulho extinto da família. Este prato faz jus a referência especial, tamanha a sua ligação com os usos brasileiros tradicionais, como o rito da devolução: “Às vezes, ia de empréstimo/ à casa da boa Tia Nhorita./E era certo no centro da mesa/de aniversário, com sua montanha/de empadas bem tostadas/No dia seguinte, voltava,/conduzido por um portador/que era sempre o Abdenago, preto de valor,/de alta e mútua Confiança./Voltava com muito-obrigados/e, melhor cheinho/de doces e salgados./Tornava a relíquia para o relicário...”
Cora Coralina - foto: Rosary Esteves
Acervo ©Museu Casa de Cora Coralina
Relicário é também o sortido depósito de memórias de Cora Coralina. Remontando à infância não a ornamenta com flores falsas: “Éramos quatro as filhas de minha mãe./Entre elas ocupei sempre o pior lugar”. Lembra-se de ter sido “triste, nervosa e feia./Amarela, de rosto empalamado./De pernas moles, caindo à toa”. Perdera o pai muito novinha. Seus brinquedos eram coquilhos de palmeira, caquinhos de louça, bonecas de pano. Não era compreendida.
Tinha medo de falar. Lembra com amargura essas carências, esquecendo-se de que a tristeza infantil não lhe impediu, antes lhe terá reparado a percepção solidária das dores humanas, que o seu verso consegue exprimir tão vivamente em forma antes artesanal do que acadêmica. Assim é Cora Coralina, repito: mulher extraordinária, diamante goiano cintilado na solidão e que pode ser contemplado em sua pureza no livro Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. Não estou fazendo comercial de editora, em época de festas. A obra foi publicada pela Universidade Federal de Goiás. Se há livros comovedores, este é um deles.
Cora Coralina, pouco conhecida dos meios literários fora de sua terra, passou recentemente pelo Rio de Janeiro, onde foi homenageada pelo Conselho Nacional de Mulheres do Brasil, como uma das 10 mulheres que se destacaram durante o ano. Eu gostaria que a homenagem fosse também dos homens. Já é tempo de nos conhecermos uns aos outros sem estabelecer critérios discriminativos ou simplesmente classificatórios. Cora Coralina, um admirável brasileiro. Ela mesmo se define: “Mulher sertaneja, livre, turbulenta, cultivadamente rude. Inserida na gleba. Mulher terra. Nos meus reservatórios secretos um vago sentido de analfabetismo”. Opõe à morte “aleluias festivas e os sinos alegres da Ressurreição. Doceira fui e gosto de ter sido. Mulher operária”. Cora Coralina: gosto muito deste nome, que me invoca, me bouleversa, me hipnotiza, como no verso de Bandeira.”
- Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, Caderno B, 27.12.1980. [publicado no livro "Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha". 6ª ed., Global Editora, 1997, p.21-22.

Ambos passaram a se corresponder nos anos seguintes. E Drummond, continuou promovendo a obra de Cora Coralina.


Carta de Drummond
Rio de Janeiro, 7 de outubro, 1983

"Minha querida amiga Cora Coralina: 
Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia 
( ...).
O beijo e o carinho do seu
Drummond."
- Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro, 7 de outubro, 1983. [publicado no livro "Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha". 6ª ed., São Paulo: Global Editora, 1997, p.23. 


“Faz tempo, queria contar para sua ternura,
essas coisas miúdas que nós entendemos.
Ah! Meu amigo e confrade...
As rolinhas... as últimas, fogo-pagou, cantaram a cantiga
da despedida no telhado negro da Velha Casa.
Cantaram em nostalgia toda uma certa manhã passada.
Olhei. Eram cinco, as derradeiras.
Levantaram vôo e se foram para sempre.”
- Cora Coralina, em trecho do poema "Meu amigo (in memoriam)", do livro "Vintém de cobre: meias confissões de Aninha". 6ª ed., São Paulo: Global Editora, 1997, p.187.


CORA CORALINA E JORGE AMADO - ENTRE ENCONTROS E CORRESPONDÊNCIAS
O primeiro contato se efetivou através de um bilhete de Jorge Amado e de uma carta de Cora em resposta:
Quero crer que Cora Brêtas, de Goiânia, e Cora Coralina de Jesus, [confundindo-a com a escritora Leodegária de Jesus] de Goyaz Velho, sejam a mesma pessoa. É certo ou estou em erro? Mande-me dizer.
- Jorge Amado


Resposta de Cora:
Visita de Jorge Amado a Cora Coralina (1977) 
foto: Acervo ©Museu Casa de Cora Coralina
Jorge Amado. Em hora aprazível tem chegado a Goiás suas mensagens, Zélia presente e eu os agradeço de cór. Cora Coralina de Jesus, do Coração de Jesus, de Jesus Maria e José, de São Paulo e de São Pedro, do Menino Jesus de Praga ou não, de todos os santos milagrosos. (...) e Amado filho muito nobre de Pirangi, da boa terra de São Jorge. (...) Para o endereço apenas Cora Coralina que a cidade é mesmo uma coisinha e eu não tenho xará. (...) Vai esta com um volume de meus escritinhos. É o que posso oferecer, e o faço com singeleza e algum acanhamento. Você que é escritor, revestido, condecorado e urbano, passe os olhos e releve. (...) Jorge meu irmão rico, saibam você e a Zélia de que tem nesta Cidade de Goiás uma contadeira de verdades e mentiras que os quer bem de todo o coração.
- Cora Coralina

Após esse contato, Cora Coralina e Jorge Amado, passaram a se corresponder. Essa correspondência é inédita, algumas foram publicadas recentemente em “A economia simbólica dos Acervos Literários: Itinerários de Cora Coralina, Hilda Hilst e Ana Cristina César". (Tese de Doutorado) Brasília: UnB, jun. 2011, de Clóvis Carvalho Britto.


O poeta e a poesia
Não é o poeta que cria a poesia.
E sim, a poesia que condiciona o poeta.

Poeta é a sensibilidade acima do vulgar.
Poeta é o operário, o artífice da palavra.
E com ela compõe a ourivesaria de um verso.

Poeta, não somente o que escreve.
É aquele que sente a poesia,
se extasia sensível ao achado
de uma rima, à autenticidade de um verso.

Poeta é ser ambicioso, insatisfeito,
procurando no jogo das palavras,
no imprevisto texto, atingir a perfeição inalcançável.

O autêntico sabe que jamais
chegará ao prêmio Nobel.
O medíocre se acredita sempre perto dele.

Alguns vêm a mim.
Querem a palavra, o incentivo, à apreciação.
Que dizer a um jovem ansioso na sede precoce de lançar um livro...
Tão pobre ainda a sua bagagem cultural,
tão restrito seu vocabulário,
enxugando lágrimas que não chorou,
dores que não sentiu,
sofrimentos imaginários que não experimentou.

Falam exaltados de fome e saudades, tão desgastadas
de tantos já passados.
Primário nos rudimentos de sua escrita
e aquela pressa moça de subir. 
Alcançar estatura de poeta, publicar um livro,

Oriento para a leitura, reescrever,
processar seus dados concretos.
Não fechar o caminho, não negar possibilidades.
É a linguagem deles, seus sonhos.
A escola não os ajudou, inculpados, eles.

Todos nós temos a dupla personalidade.
O id e o ego.
Um representa a sua vida física, material completa
Pode ser brilhante, enriquecida de valores que ajudam a ser feliz,
pode ser angustiada e vacilante, incerta, insatisfeita.
Mesmo possuindo o que deseja, nada satisfazendo.
O id representa sua vida interior paralela, ambivalente,
exercendo seu comando em descargas nervosas,
no eterno conflito entre a razão e o impulso incontrolado. 
Dupla vida inter e extra, personalidade se contrapondo.
Pode ser trivial e dependente, podemos fazê-la rica e cheia de nobreza,
nos valendo da força incomensurável do pensamento positivo
emanado da vida interior que é o nosso mundo,
invisível a todos, sensível ao nosso ego.

Há sempre uma hora maldita na vida de um homem.
Pode levá-lo ao crime e às paredes sombrias de uma cela escura.
Um curto circuito nas suas baterias carregadas,
uma descarga nas linhas de transmissão potencial.
Daí, fatos aberrantes que surpreendem.

Conclusões demolidoras de um passado brilhante.
- Cora Coralina, em "Vintém de cobre: meias confissões de Aninha". 6ª ed., São Paulo: Global Editora, 1997, p.191-192.


Cora Coralina  à doceira -  foto: Acervo ©Museu Casa de Cora Coralina

CORA CORALINA, A DOCEIRA DA CASA VELHA DA PONTE DO RIO VERMELHO DE GOYAZ VELHO
Cora Coralina  fazendo seus doces - 
foto: Acervo © Museu
 Casa de Cora Coralina
Doceira de profissão e poeta por vocação, Cora Carolina tinha as mãos precisas para o verbo e para o açúcar. Apesar de se considerar mais cozinheira do que escritora dominava as duas artes, mesmo só tendo publicado seu primeiro livro aos 75 anos.

"Minhas mãos doceiras...
Jamais ociosas.
Fecundas. Imensas e ocupadas.
Mãos laboriosas.
Abertas sempre para dar,
ajudar, unir e abençoar.

Mãos de semeador...
Afeitas à sementeira do trabalho.
Minhas mãos são raízes
procurando terra.
Semeando sempre."
- Cora Coralina, em trecho do poema "Estas mãos", do livro "Meu livro de cordel". São Paulo: Global Editora, 1998.

Fogão da Casa Velha da Ponte - foto:
© 
Acervo Museu Casa de Cora Coralina (Global Editora)


Sendo eu mais doméstica do
que intelectual,
Não escrevo jamais de forma
consciente e raciocinada, e sim
impelida por um impulso incontrolável.
Sendo assim, tenho a
consciência de ser autêntica.
[...]
Sou mais doceira e cozinheira
do que escritora, sendo a culinária
a mais nobre de todas as Artes:
objetiva, concreta, jamais abstrata
a que está ligada à vida e
à saúde humana.”
- Cora Coralina, em trecho do poema "Cora Coralina, quem é você?. do livro "Meu livro de cordel". São Paulo: Global Editora, 1998.


"Da janela da casa velha
todo dia, de manhã, tomo a bênção do rio:
- "Rio Vermelho, meu avozinho, 
Dá sua bença pra mim..."
- Cora Coralina, em trecho do poema "Rio Vermelho". do livro "Poemas dos becos de Goiás e estórias mais". Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora,  1965.


Cora Coralina - foto: (...)

"Eu brincava, rodava, virava roda,
e o antigo mandrião se enchia
e vento balão.
Aninha cantava, desentoada, desafinada,
boba que era.
Meu mandrião, vento balão,
roda pião, vintém na mão."
- Cora Coralina, em trecho do poema "Variação". do livro "Meu livro de cordel", São Paulo: Global Editora, 1998. 


A MEMÓRIA
Ilustração Fabiana Salomão, em "Cora, coração Coralina"
 (texto Lúcia Fidalgo). Editora Paulus, 2012.
Da memória de Cora menina:
“Eu devia ter nesse tempo dez anos. Era menina prestimosa e trabalhadeira, à moda do tempo. Tinha ajudado a fazer aquela cocada. Tinha areado o tacho de cobre e ralado o coco.  Acompanhei, rente à fornalha, todo o serviço, desde a escumação da calda até a apuração do ponto. Vi quando foi batida e estendida na tábua, vi quando foi cortada em losangos. Saiu uma cocada morena, de ponto brando, atravessada de paus de canela cheirosa. O coco era gordo, carnudo e leitoso, o doce ficou excelente. Minha prima me deu duas cocadas e guardou tudo mais numa terrina grande, funda e de tampa pesada. Botou no alto da prateleira."
- Cora Coralina, em "Cora, coração Coralina". [texto Lúcia Fidalgo e ilustração Fabiana Salomão].. (coleção brasileirinhos). Editora Paulus, 2012.


Cora Coralina reescreve Goiás, promovendo uma arqueologia do passado através das imagens que construiu. Seu ato de registrar, através da escrita, cenários e personagens historicamente silenciados, constituiu em uma forma de perenização e resistência.

Lembranças de Aninha
(colhe dos velhos plantadores...)
Colhe dos velhos plantadores que sabem com jeito e experiência
debulhar as espigas do passado e dar vida aos cereais da vivência.
Quanta informação antiga, quanta sabedoria inaproveitada...
O passado não volta, nem os mortos deixam suas covas
para contar estórias aos vivos.
Ninguém me alertou o entendimento. Meu avô, tia Nhorita, tia Nhá-Bá, 
Tio Jacinto, Dindinha, a grande mágica Dindinha.
Alguns estranhos diziam: Dona Dindinha.
Passei pelas minas e não soube minerar, 
daí a cascalheira das minhas frustrações.
- Cora Coralina, em  "Vintém de cobre: meias confissões de Aninha". 6ª ed., São Paulo: Global Editora, 1997, p.167.


"Alguém deve rever, escrever e assinar os autos do Passado
antes que o Tempo passe tudo a raso.
É o que procuro fazer, para a geração nova, sempre
atenta e enlevada nas estórias, lendas, tradições, sociologia
e folclore de nossa terra.
Para a gente moça, pois, escrevi este livro de estórias.
Sei que serei lida e entendida."
- Cora Coralina, "Ao leitor" - epígrafe do livro "Poemas dos becos de Goiás e estórias mais". Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora,  1965.




GOYAZ VELHO
Cidade Goias Velho - foto: (...)
“Sai desta cidade em 25 de novembro de 1911 e voltei em 22 de março de 1956. Deixei filhos, nora, genros, netos e bisnetos. A força da terra, das raízes que me chamavam eram mais fortes e sobrepôs a todos esses afetos familiares. Quando eu voltei, não tinha intenção de permanecer, tinha a intenção de matar saudades velhas e carregar saudades novas.”
- Cora Coralina, no Especial Literatura, TVE, 1985.


Minha cidade
Goiás, minha cidade... 
Eu sou aquela amorosa 
de tuas ruas estreitas, 
curtas, 
indecisas, 
entrando, 
saindo 
uma das outras. 
Cora Coralina na Casa Velha da Ponte 
foto: ©Acervo Museu Casa de
 Cora Coralina (Global Editora)
Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa. 
Eu sou Aninha. 

Eu sou aquela mulher 
que ficou velha, 
esquecida, 
nos teus larguinhos e nos teus becos tristes, 
contando estórias, 
fazendo adivinhação. 
Cantando teu passado. 
Cantando teu futuro. 
Eu vivo nas tuas igrejas 
e sobrados 
e telhados 
e paredes. 

Eu sou aquele teu velho muro 
verde de avencas 
onde se debruça 
um antigo jasmineiro, 
cheiroso 
na ruinha pobre e suja. 
Eu sou estas casas 
encostadas 
cochichando umas com as outras. 
Eu sou a ramada 
dessas árvores, 
sem nome e sem valia, 
sem flores e sem frutos, 
de que gostam 
a gente cansada e os pássaros vadios. 

Eu sou o caule 
dessas trepadeiras sem classe, 
nascidas na frincha das pedras: 
Bravias. 
Renitentes. 
Indomáveis. 
Cortadas. 
Cora Coralina  - foto: Acervo © Museu Casa de Cora
Coralina 
(Global Editora)
Maltratadas. 
Pisadas. 
E renascendo. 

Eu sou a dureza desses morros, 
revestidos, 
enflorados, 
lascados a machado, 
lanhados, lacerados. 
Queimados pelo fogo. 
Pastados. 
Calcinados 
e renascidos. 
Minha vida, 
meus sentidos, 
minha estética, 
todas as virações 
de minha sensibilidade de mulher, 
têm, aqui, suas raízes. 

Eu sou a menina feia 
da ponte da Lapa. 
Eu sou Aninha.
- Cora Coralina, em "Poema dos becos de Goiás e estórias mais". Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965.




O RETORNO
Na verdade, Cora regressou, sem o intuito de permanecer. Dois foram os motivos de seu retorno: lutar pela compra de sua casa natal; e iniciar uma espécie de “pesquisa de campo”, uma coleta de dados que orientariam a elaboração dos poemas de seu livro tão almejado. Este segundo fato, pouco divulgado, é fundamental para compreendermos o processo criativo de Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. Não por acaso o jornal Cidade de Goiás, publicou em 8 de abril de 1956 a seguinte nota: “Em visita a esta cidade encontra-se entre nós a Sra. D. Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretãs (...). Inteligência viva e palestra fluente, Cora Coralina esta colhendo dados para trabalho seu sobre".


Cora Coralina - foto: (...)
“Sim, foi naquele meio, afastada de tudo o que me prendia, sozinha, longe da vida de meus filhos (porque uma mãe quando mora com os filhos vive a vida de todo o mundo, menos a dela). Quando eu senti uma necessidade imprecisa, obscura de me por de longe, eu tinha qualquer coisa que me forçava a isso. Em Goiás, vamos dizer assim, abriram-se as portas do pensamento e escrevi o primeiro livro publicado.”
- Cora Coralina, em: ARAÚJO, Celso. "Os pensamentos de Cora". Jornal de Brasília, Brasília, 1977.


“Nós temos dentro de nós um porãozinho. Ele abre e fecha automaticamente. E as coisas caíram dentro do meu porão. E o porão se fechou. E ficou fechado durante quarenta e cinco anos. O tempo todo que eu estive fora da minha cidade. E eu senti a necessidade de abrir esse porão voltando. Lá não. Tinha que voltar para abrir o porão. Aqui é que o meu porão tinha que ser aberto soltando as coisas de
dentro. Soltando o passado de dentro.”
- Cora Coralina, em 'entrevista' na Casa Velha da Ponte, 1985.



“Mergulhar na obra de Cora, Aninha, a Mulher Guerreira, a Rapsoda, a Cigarra Cantadeira e Formiga Diligente (...) é uma lírica, telúrica e emocionante aventura: é um evocar de dados, lembranças, referências às nossas raízes e, acima de tudo, esplêndida imagem de uma vida forte e sabiamente vivida e muito bem expressa na sua palavra poética.”
- Marietta Telles Machado.


POEMAS ESCOLHIDOS DE CORA CORALINA
Cora Coralina -  foto: ©Acervo Museu
Casa Cora Coralina
Aninha e suas pedras 
Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha 
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas 
e não entraves seu uso
aos que têm sede. 
- Cora Coralina, em "Vintém de cobre: meias confissões de Aninha". 6ª ed., São Paulo: Global Editora, 1997, p. 139.



Assim eu vejo a vida
A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.
- Cora Coralina, [O poema acima, inédito em livro], foi publicado pelo jornal "Folha de São Paulo" — caderno "Folha Ilustrada", edição de 04/07/2001.


Conclusões de Aninha
Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.

Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.

O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?

Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.

Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.
Cora Coralina, em "Vintém de cobre: meias confissões de Aninha", 6ª ed., São Paulo: Global Editora, 1997, p. 160.




Cora Coralina - foto: (...)
Mascarados
Saiu o Semeador a semear
Semeou o dia todo
e a noite o apanhou ainda
com as mãos cheias de sementes.
Ele semeava tranqüilo
sem pensar na colheita
porque muito tinha colhido
do que outros semearam.
Jovem, seja você esse semeador
Semeia com otimismo
Semeia com idealismo
as sementes vivas
da Paz e da Justiça.
- Cora Coralina, no Caderno "Folha Ilustrada", São Paulo: Folha de São Paulo, edição de 04/07/2001.



Meias impressões de Aninha
(mãe)
Renovadora e reveladora do mundo 
A humanidade se renova no teu ventre. 
Cria teus filhos, 
não os entregue à creche. 
Creche é fria, impessoal. 
Nunca será um lar 
para teu filho. 
Ele, pequenino, precisa de ti. 
Não o desligues da tua força maternal. 

Que pretendes mulher? 
Independência, igualdade de condições... 
Emprego fora do lar? 
És superior àqueles 
que procuras imitar. 
Tens o dom divino 
de ser mãe 
Em ti está presente a humanidade. 
Mulher, não te deixes castrar. 
Serás um animal somente de prazer 
e ás vezes nem mais isso. 
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar. 
Tumultuada, fingindo ser o que não és. 
Roendo o teu osso negro da amargura. 
Cora Coralina, do livro "Vintém de cobre: meias confissões de Aninha". 6ª ed., São Paulo: Global Editora, 1997, p. 171.



Meu destino
Nas palmas de tuas mãos
Cora Coralina - foto: ©Acervo Museu Casa de
 Cora Coralina (Global Editora)
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.

Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos.

Passavas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.

E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...
- Cora Coralina, em "Meu livro de cordel", São Paulo: Global Editora, 1998. 




Pedras
Os morros cantam para meus sentidos
a música dos vegetais
que se movem ao vento.

As pedras imóveis me enviam
uma benção ancestral.
Debaixo da minha janela
se estende a pedra-mãe.

Que mãos calejadas
e imensas mãos sofridas de escravos
a teriam posto ali,
para sempre?

Pedras sagradas da minha cidade,
nossa íntima comunicação.
Lavada pelas chuvas,
queimada pelo sol,
bela laje velhíssima e morena.

Eu a desejaria sobre meu túmulo
e no silêncio da morte,
você, uma pedra viva, e eu,
teríamos uma fala
do começo das eras.
- Cora Coralina, em "Villa Boa de Goiaz", São Paulo: Global Editora, 2001, p. 93. 



Cora Coralina - foto: (...)
O chamado das Pedras
A estrada está deserta.
Vou caminhando sozinha.
Ninguém me espera no caminho.
Ninguém acende a luz.
A velha candeia de azeite
de lá muito se apagou.

Tudo deserto.
A longa caminhada.
A longa noite escura.
Ninguém me estende a mão.
E as mãos atiram pedras.
Sozinha...

Errada a estrada.
No frio, no escuro, no abandono.
Tateio em volta e procuro a luz.
Meus olhos estão fechados.
Meus olhos estão cegos.
Vêm do passado.

Num bramido de dor.
Num espasmo de agonia
Ouço um vagido de criança.
É meu filho que acaba de nascer.

Sozinha...
Na estrada deserta,
Sempre a procurar
o perdido tempo que ficou pra trás.

Do perdido tempo.
Do passado tempo
escuto a voz das pedras:

Volta...Volta...Volta...
E os morros abriam para mim
Imensos braços vegetais.

E os sinos das igrejas
Que ouvia na distância
Diziam: Vem... Vem... Vem...

E as rolinhas fogo-pagou
Das velhas cumeeiras:
Porque não voltou...
Porque não voltou...
E a água do rio que corria
Chamava...chamava...

Vestida de cabelos brancos
Voltei sozinha à velha casa deserta.
- Cora Coralina, em "Meu livro de cordel", São Paulo: Global Editora, 1998. 




Cora Coralina - foto: (...)
Meu Epitáfio
Morta... serei árvore 
Serei tronco, serei fronde 
E minhas raízes 
Enlaçadas às pedras de meu berço 
são as cordas que brotam de uma lira. 

Enfeitei de folhas verdes 
A pedra de meu túmulo 
num simbolismo 
de vida vegetal. 

Não morre aquele 
que deixou na terra 
a melodia de seu cântico 
na música de seus versos. 
- Cora Coralina, em "Meu livro de cordel". São Paulo: Global Editora, 1998. 




Todas as vidas
Vive dentro de mim 
uma cabocla velha 
de mau-olhado, 
acocorada ao pé do borralho, 
olhando para o fogo. 
Benze quebranto. 
Bota feitiço... 
Ogum. Orixá. 
Macumba, terreiro. 
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim 

a lavadeira do Rio Vermelho. 
Seu cheiro gostoso 
d’água e sabão. 
Rodilha de pano. 
Trouxa de roupa, 
pedra de anil. 
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim 

a mulher cozinheira. 
Pimenta e cebola. 
Quitute bem feito. 
Panela de barro. 
Taipa de lenha. 
Cozinha antiga 
toda pretinha. 
Bem cacheada de picumã. 
Cora Coralina - foto:  (...)
Pedra pontuda. 
Cumbuco de coco. 
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim 

a mulher do povo. 
Bem proletária. 
Bem linguaruda, 
desabusada, sem preconceitos, 
de casca-grossa, 
de chinelinha, 
e filharada.

Vive dentro de mim 

a mulher roceira. 
- Enxerto de terra, 
meio casmurra. 
Trabalhadeira. 
Madrugadeira. 
Analfabeta. 
De pé no chão. 
Bem parideira. 
Bem criadeira. 
Seus doze filhos, 
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim 

a mulher da vida. 
Minha irmãzinha... 
tão desprezada, 
tão murmurada... 
Fingindo ser alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim: 

Na minha vida - 
a vida mera das obscuras. 
- Cora Coralina, em "Poema dos becos de Goiás e estórias mais". Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965.


Ode às muletas
Muletas novas, prateadas e reluzentes. 
Apoio singelo e poderoso 
de quem perdeu a integridade 
de uma ossatura intacta, 
invicta em anos de andanças domésticas. 
Muletas de quem delas careceu 
depois de ter vencido longo 
tempo e de ter dado voltas ao mundo 
sem deixar a sua casa. 
Máquina de Costura de Cora Coralina -
 foto: Leila Kiyomoura - USP

Andarilha que fui 
de boas tíbias e justo fêmur, 
jamais reumáticos. 
Um dia o inesperado trambolhão, 
escada abaixo. 
Como sempre, as vizinhas 
prestativas, maravilhosas correm. 
Um vizinho possante 
me levanta em braços 
de gigante. 
Uma ambulância. 
Goiânia. Parentes à espera. 
Filhos que chegam de longe. 

A Clínica. 
Por sinal que Santa Paula. 
Médicos ortopedistas, 
dos anos de meus netos. 
Gente moça. Enfermeiras, atendentes. 
Colegas fraturados. 
Jovens e velhos, indistintamente. 
Viveiro. Cultura de acidentados, 
as estradas asfaltadas, 
as ruas alegres da cidade, 
as casas. 
Desastrados meios de locomoção. 
A ânsia incontida da velocidade. 
A pressa da chegada - a mesa de operação. 

A sala de cirurgia inapelavelmente branca. 
A mesa estreita operatória. 
Até o dia muito breve 
da cirurgia eletrônica. 

Agora: o soro, o oxigênio. 
Picadas leves. 
O branco invade o submundo sensitivo. 
Cora Coralina - foto: ©Rosary Esteves

O bloqueio nervoso. 
Nada mais. A omissão total. 
O inconsciente, o inerte. 
Atentos o anestesista, 
o cardiologista. 
Médicos amigos presentes 
formam a corrente magnética, 
vibratória, propiciatória. 

O cirurgião, absoluto, corta. 
Pinça, acerta, ajeita, aparafusa 
plaquetas metálicas, 
irmanando ossos fraturados. 
Depois... a volta triunfal 
à Vida. 
Vida! Como és bela na ânsia 
do retorno. Flores! Amigas. 

A cadeira de rodas no pátio, ao sol. 
A troca de cumprimentos. 
Cordialidade entre quebrados. 
A alta. 

A casa humana, hospitaleira, 
carinhosa e fraterna. 
Abençoada casa de sobrinhos 
superamigos. 
Cheia de meninos, 
daqueles do Evangelho 
que se achegavam a Jesus. 
Carinhosos no me trazerem 
o copo d’água, a almofada. 

As muletas fora de alcance. 
Sutis no abrir e fechar portas. 
Acender e apagar botões de luz. 
Meus queridos meninos 
do tempo de Jesus. 
(Para vocês esta pequenina estrofe de carinho e gratidão.) 

Muletas utilíssimas!... 
Pudesse a velha musa 
vos cantar melhor!... 
Eu as venero em humilde gratidão. 
Leves e verticais. Jamais sofisticadas. 
Seguras nos seus calços 
de borracha escura. 
Nenhum enfeite ou sortilégio. 
Fidelíssimas na sua magnânima 
utilidade de ajudar a novos passos. 
Um dia as porei de parte, 
reverente e agradecida. 

Seja de uma grande bênção 
aquele que as criou 
em hora sagrada. Inspiração do alto. 

Vieram vindo devagarinho. Transformações 
várias através dos séculos. 
Foi bastão primeiro do indigente, 
desvalido, encanecido, peregrino 
em distantes romarias. 
Varapau do serrano em agrestes serranias. 
Bordão de frade penitente, mendicante. 
Menestrel em tempos idos 
tateando incertos passos. 
Rapsodos descantando 
romanças e baladas 
pelos burgos, castelos, castelanias. 
Cajado patriarcal de pastores, 
santos e profetas. 
Vara simbólica de autoridades 
em remotas eras. 

Subiu a dignidade eclesiástica 
e foi o báculo episcopal. 

Entrou no convívio social. 
Bengala moderna, urbana, requinte 
e complemento da juventude. 
Estética e estilística dos moços. 

Bengalão respeitável dos velhos, 
encastoado em prata e ouro, 
iniciais gravadas, 
acrescentava algo ao ancião - respeito, veneração 
aos seus passos tardos. 

Bengala de estoque... 
arma traiçoeira do malandro 
e do sicário. 
Bengalas de junco, de prata, 
de marfim e de unicórnio... 
encastoados em ouro e pedras finas. 

Subiu e galgou. Uso e desuso. 
Modificada, acertada à necessidade humana 
reaparece, amparo e proteção. 
Transformação técnica, 
- muletas ortopédicas. 

Do primitivo bordão 
à sua excelsa utilidade 
Cora Coralina e a atriz Bruna Lombardi 
foto: ©Acervo Museu Casa de
 Cora Coralina (Global Editora)
e ao seu préstimo constante 
e inexcedível, 
eu as canto numa ode de imensa gratidão. 

Bengala branca sem igual! 
Quem não as viu um dia 
sobrelevando a multidão 
e deixou de atender ao seu sinal!... 

Alçada pelo cego, ela faz 
parar o trânsito 
e atravessa incólume 
ruas e avenidas das cidades 
grandes num consenso 
dignificante da beleza universal, 
estabelecido pelos povos 
civilizados na Convenção Internacional 
de Proteção e Direito dos Cegos 
de todo o mundo. 
Mais do que as muletas 
que nos dão apoio, 
eu me curvo reverente ante 
a bengala branca do cego 
que é a própria luz de seus olhos mortos 
em meio à multidão 
vidente. 
- Cora Coralina, em "Poema dos becos de Goiás e estórias mais". Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965.



Lua-luar
Escuto leve batida.
Levanto descalça, abro a janela
devagarinho.
Alguém bateu?
É a lua-luar que quer entrar.

Entra lua poesia
antes dos astronautas:
Gagarin da terra azul,
Apolo XI que primeiro passeou solo lunar.

Lua que comanda os mares,
a fúria dos vagalhões
que vem morrer na praia.
O banzeiro das pororocas.

Lua dos namorados,
das intrigas de amor,
dos encontros clandestinos.
Lua-luar que entra e sai.

Lua nova, incompleta no seu meio arco.
Lua crescente, velha enorme, fecunda.
Lua de todos os povos
de todos os quadrantes.

Lua que enfurece o mar e em chumbo,
acovarda barcos pesqueiros.
O barqueiro se recolhe.

O pescado volta às redes.
O jangadeiro trava amarras.
Gaivotas fogem dos rochedos.

Lua cúmplice.
Lésbica lua nascente,
andrógina — lua-luar.
Lua dos becos tristes
das esquinas buliçosas.
Luar dos velhos.
Das velhas plantas sentenciadas.
Do sopro morto
dos bordões, rimas, violinos.

Lua que manda
na semeadura dos campos,
na germinação das sementes,
na abundância das colheitas.

Lua boa.
Lua ruim.
Lua de chuva.
Lua de sol.

Lua das gestações do amor.
Do acaso, do passatempo
Irresistível,
responsável, irresponsável.

Lua grande. Lua genésica
que marca a fertilidade da fêmea
e traz o macho para a semeadura.
O fruto aceito —
mal aceito: repudiado, abandonado,
A semente morta
lançada no esgoto.
A semente viva palpitante

deixada em porta alheia.
- Cora Coralina, em "Meu livro de cordel". São Paulo: Global Editora, 1998. 



Mulher da vida
[Contribuição para o Ano Internacional da Mulher, 1975]
Mulher da Vida, 
Minha irmã. 

Cora Coralina - foto: (...)
De todos os tempos. 
De todos os povos. 
De todas as latitudes. 
Ela vem do fundo imemorial das idades 
e carrega a carga pesada 
dos mais torpes sinônimos, 
apelidos e apodos: 
Mulher da zona, 
Mulher da rua, 
Mulher perdida, 
Mulher à-toa. 

Mulher da Vida, 
Minha irmã. 

Pisadas, espezinhadas, ameaçadas. 
Desprotegidas e exploradas. 
Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito. 

Necessárias fisiologicamente. 
Indestrutíveis. 

Sobreviventes. 
Possuídas e infamadas sempre 
por aqueles que um dia 
as lançaram na vida. 
Marcadas. Contaminadas. 
Escorchadas. Discriminadas. 

Nenhum direito lhes assiste. 
Nenhum estatuto ou norma as protege. 
Sobrevivem como erva cativa 
dos caminhos, 
pisadas, maltratadas e renascidas. 

Flor sombria, sementeira espinhal 
gerada nos viveiros da miséria, 
da pobreza e do abandono, 
enraizada em todos os quadrantes 
da Terra. 

Um dia, numa cidade longínqua, essa 
mulher corria perseguida pelos homens 
que a tinham maculado. Aflita, ouvindo 
o tropel dos perseguidores e o sibilo 
das pedras, 
ela encontrou-se com a Justiça. 
A Justiça estendeu sua destra poderosa 
e lançou o repto milenar: 
“Aquele que estiver sem pecado 
atire a primeira pedra”. 

As pedras caíram 
e os cobradores deram as costas. 

O Justo falou então a palavra 
de equidade: 
“Ninguém te condenou, mulher... nem 
eu te condeno”. 

A Justiça pesou a falta pelo peso 
do sacrifício e este excedeu àquela. 
Vilipendiada, esmagada. 
Possuída e enxovalhada, 
ela é a muralha que há milênios 
detém as urgências brutais do homem 
para que na sociedade 
possam coexistir a inocência, 
a castidade e a virtude. 

Na fragilidade de sua carne maculada 
esbarra a exigência impiedosa do macho. 

Sem cobertura de leis 
e sem proteção legal, 
ela atravessa a vida ultrajada 
e imprescindível, pisoteada, explorada, 
nem a sociedade a dispensa 
nem lhe reconhece direitos 
nem lhe dá proteção. 
E quem já alcançou o ideal dessa mulher, 
que um homem a tome pela mão, 
a levante, e diga: minha companheira. 

Mulher da Vida, 
Minha irmã. 

Cora Coralina - foto: (...)
No fim dos tempos. 
No dia da Grande Justiça 
do Grande Juiz. 
Serás remida e lavada 
de toda condenação. 

E o juiz da Grande Justiça 
a vestirá de branco 
em novo batismo de purificação. 
Limpará as máculas de sua vida 
humilhada e sacrificada 
para que a Família Humana 
possa subsistir sempre, 
estrutura sólida e indestrutível 
da sociedade, 
de todos os povos, 
de todos os tempos. 
Mulher da Vida, 
Minha irmã. 

Declarou-lhes Jesus: "Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no Reino de Deus”. 
Evangelho de São Mateus 21, 31. 
- Cora Coralina, em "Poema dos becos de Goiás e estórias mais". Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965.


O triângulo da vida
Minha bisavó não falava errado, falava no antigo,
ficou agarrada às raizes e desusos da linguagem
e eu assimilei o seu modo de falar.
Ela jamais pronunciou "metro", sempre "covado" ou "vara"
Nunca disse "travessa" e sim "terrina", rasa ou funda que fosse,
nunca dizia "bem vestido", falava — "janota" e "fama" era "galarim".
Sobraram na fala goiana algumas expressões africanas, como Inhô, Inhá,
Inhora, Sus Cristo. Muito longe a currutela dos negros
que seus descedentes vão corrigindo através de gerações.

Nada tão real como o apóstrofe do gênesis:
"Tu és pó e ao pó retornarás".
O homem foi feito do barro da terra.
Sim, ele foi feito de todos os elementos que formam a Terra,
que contêm vida e de onde, na desintegração da morte, volta
para todo Universal. E a vida não sendo senão resultante
do meio magnético que compõe o Cosmos.
Um dia, o curto circuito e a sensação de esmorecimento e decadência,
a quebra do ritmo vital,
a paralisação total.
O meio físico é todo magnético
e somos acionados por esta corrente fluídica e contínua.
O que se dá à semente, aquilo que vulgarmente se diz o coração
e que a genética determina germe vital, onde se concentra a força magnética
que em contato com o magnetismo da terra, água e ar,
faz o milagre da germinação, a súmula da própria vida acionada
pelo poder criador que é a presença invisível de Deus.
Tudo o que somos usuários vem da terra e volta para a terra.
Terra, água e ar. O triângulo da vida.
- Cora Coralina, em "Vintém de cobre: meias confissões de Aninha". 6ª ed., São Paulo: Global Editora, 1997, p. 83.



Sou raiz
Sou raiz, e vou caminhando
sobre as minhas raízes tribais.
Velhas jardineiras do passado ...
Condutores e cobradores, vós me levastes de mistura
com os pequenos e iletrados, pobres e remendados ...
Destes-me o nível dos humildes em tantas lições de vida.
Passante das estradas rodageiras, boiadeiros e comissários,
aqui fala a velha rapsoda.
Escuto na distância o sonido augusto do berrante que marca
o compasso das manadas que vão pelas estradas.
O mugido, o berro, o chamado da querência, a aguada,
o barreiro salitrado, a solta, o curral, a porteira,
a tronqueira, o cocho, o moirão, a salga, o ferro de marcar,
rubro, esbraseado. A castração impiedosa.
Eu sou a gleba e nada mais pretendo ser.
Mulher primária, roceira, operária, afeita à cozinha,
ao curral, ao coalho, ao barreleiro, ao tacho.
Seguro sempre nas mãos cansadas a velha candeia
de azeite veletudinária e vitalícia do passado.
Viajei nas velhas e valentes jardineiras
do interior roceiro, suas estradas de terra,
lameiros e atoleiros, seus heróicos e anônimos condutores
e cobradores, práticos, sabidos daqueles motores desgastados,
molas e lataria rangentes.
Santos milagreiros eram eles. Onde estarão?
Viajei de par com os humildes que tanto me ensinaram.
Viajantes das velhas jardineiras, meus vizinhos
das estradas viaje iras ...
Meus trabalhadores: Manoel Rosa, José Dias, Paulo, Manoel,
João, Mato Grosso, plantadores e enxadeiros, meus vizinhos sitiantes,
onde andarão eles?
Andradina, Castilho, Jaboticabal, comissários e boiadeiros, tangerinos,
esta página é toda de vocês.
Fala de longe a velha rapsoda.
- Cora Coralina, em "Vintém de Cobre: meias confissões de Aninha". 6ª ed., São Paulo: Global Editora, 1997, p. 111.


Recados de Aninha - I
Meu jovem, a vida é boa, e você cantando o cântico
da mocidade pode fazê-la melhor. E o melhor da vida é o trabalho.
No trabalho está a poesia e o ideal, assim possa sentir o poeta.
Só o trabalhador sabe do mistério de uma semente germinando na terra.
Só o cavador pode ver a cor verde se tornar azul.

Ele, na flor, já viu o fruto e no fruto prevê a semente.
E sabe que uma cana de milho, uma braçada de folhas e palhas
na terra é vida que se renova.
Que sabe você, jovem poeta, da fala das sementes?
Um poeta parnasiano do passado, conversava com as estrelas,
foi coisa linda no tempo.

Converse, você, poeta destes tempos novos,
converse com as sementes e as folhas caídas
que pisa distraído.
Você vai sobre rodas e caminha sobre vidas que o asfalto recobriu.
Quem fala essa mensagem é uma mulher muito antiga
que entende a fala e a vida de um monte de lixo
que vê da janela da Casa Velha da Ponte, lá do outro lado do rio,
nos reinos da minha cidade.

A vida é boa. Saber viver é a grande sabedoria.
Saber viver é dar maior dignidade ao trabalho.
Fazer bem feito tudo que houver de ser feito.
Seja bordar um painel em fios de seda ou lavar
uma panela coscorenta. Todo trabalho é digno de ser bem feito.

Coisa sagrada o trabalho do homem.
A dignidade de um profissional.
A seriedade de um operário, sua competência.
Respeito maior o trabalho obscuro do braçal,
identificado com a terra, com a semente, com a chuva,
com o paiol, com o rego d’água.
Coisa mais nobre a porteira do sítio,
o batente da casa, o banco rústico, a mesa coberta
com uma toalha de tear. A taipa doméstica, rebrilhante
e acesa. Coisa mais urgente? A presença do homem na casa.
Homem culto da cidade,
num encontro com o da roça com sua enxada ao ombro,
ceda a ele sua preferência. Ele tem obrigação que você desconhece.
Você veste e se alimenta da semente que ele aninha na terra.
Você é um cidadão, ele é um lavrador.
- Cora Coralina, em "Vintém de cobre: meias confissões de Aninha". 6ª ed., São Paulo: Global Editora, 1997, p. 152-153.


Velho
Estás morto, estás velho, estás cansado!
Como um suco de lágrimas pungidas
Ei-las, as rugas, as indefinidas
Noites do ser vencido e fatigado.
volve-te o crepúsculo gelado
Que vai soturno amortalhando as vidas
Ante o repouso em músicas gemidas
No fundo coração dilacerado.
A cabeça pendida de fadiga,
Sentes a morte taciturna e amiga,
Que os teus nervosos círculos governa.
Estás velho estás morto! Ó dor, delírio,
Alma despedaçada de martírio
Ó desespero da desgraça eterna.
- Cora Coralina, em "Melhores poemas de Cora Coralina". 2ª ed., São Paulo: Global, 2004, p. 40.


Cora Coralina - foto: (...)


FORTUNA CRÍTICA DE CORA CORALINA
[Estudos acadêmicos: teses, dissertações, monografias, ensaios, artigos, livros e artigos jornalísticos]
A vitória de Cora. Revista Análise, Goiânia, n.° 6, maio 1894. p. 10-12. 188.
ABREU, Lívia Dias de. Cora Coralina – A consagração do Juca Pato. Jornal de Araguari, Araguari, 4 jul. 1984. p. 9.
AFLAG. Anuário da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás. Goiânia, 1970.
ALENCASTRO, Jane de. Memórias de Aninha. In: SIQUEIRA, Ebe Maria de Lima; CAMARGO, Goiandira Ortiz de; MAMEDE, Maria Goreth. (Orgs.). Leitura: teorias e práticas. Goiânia: Editora Vieira, 2003.
AMERICANO BUENO, V. Viaje al reino de Cora Coralina. Revista Literaria y Cultural El Urogallo, Formas del Ministério: la mujer em la cultura brasileña. Jul/ago, 1985. p. 110-111.
ANDRADE, Carlos Drummond. Cora Coralina, de Goiás. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 31 dez.1979.
ANJOS, José Humberto Rodrigues dos. Entre becos e memórias: o modernismo em Cora Coralina. (Dissertação Mestrado em Estudos da Linguagem). Universidade Federal de Goiás - Campus Catalão, UFG, 2013.
Cora Coralina, por  ©(...)
ANJOS, José Humberto Rodrigues dos. Entre becos e memórias: Cora Coralina e a tradição poética modernista em Goiás. (Monografia Graduação em Letras Português/Inglês). Universidade Estadual de Goiás, UEG, 2009.
ANJOS, José Humberto Rodrigues dos; CARDOSO, João Batista. Entre becos de Goiás e Vila Rica: olhares, memórias e o modernismo em Cora Coralina.. Hispanista (Edição em Português), v. 1, p. 15-31, 2012.
ARAÚJO, Celso. Os pensamentos de Cora. Jornal de Brasília, Brasília, 1977.
ARAÚJO, Márcia Melo; MORAES, André Cezar. Cora Coralina: memória e representação do eu na construção da consciência social. Letrônica, v. 3, n. 1, p. 345 - 354, julho 2010. Disponível no link(acessado em 03.12.2011).
AVANCINI, Atílio José. A Goiás de Cora Coralina como fonte de inspiração. Jornal da USP, São Paulo, , v. 621, p. 10 - 11, 11 nov. 2002.
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BRITTO, Clovis Carvalho. Cidade dos Becos: sociabilidade urbana em Goiás através da poética de Cora Coralina. Urbanidades (Online), v. 5, p. 1-14, 2008. Disponível no link(acessado em 03.12.2011).
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BRITTO, Clovis Carvalho. "Pela minha voz cantam todos os pássaros do mundo": Cora Coralina e o inventário dos obscuros nos becos de Goiás. Hispanista (Ed. Portuguesa), v. 8, p. 238, 2007.
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Cora Coralina, por  ©(...)
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DELGADO, Andréa Ferreira. A invenção de Cora Coralina na batalha das memórias. (Tese Doutorado em História). Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, 2003.
DELGADO, Andréa Ferreira. Cora Coralina: a construção da mulher-monumento. Caderno Espaço Feminino (UFU), v. 19, p. 387-416, 2008.
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DELGADO, Andréa Ferreira. Cora Coralina e a invenção de siEducação, Subjetividade e Poder, Porto Alegre, v. 6, nº 6, p. 42-54, 1999.
DELGADO, Andréa Ferreira. Memória autobiográfica e memória coletiva: Cora Coralina na sala de aula. In: III Encontro Perspectivas do Ensino de História, 1999, Curitiba. III Encontro: Perspectivas do Ensino de História. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1998. p. 632-642.
DELGADO, Andréa Ferreira. Goiás: a invenção da cidade “Patrimônio da Humanidade”. Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, jan./jun. 2005. p. 113-143. Disponível no link(acessado em 05.12.2011).
DELGADO, Andréa Ferreira. Memória, trabalho e identidade: as doceiras da cidade de Goiás. Cadernos Pagu, Campinas-SP, n.° 13, 1999. p. 293-325.
DENÓFRIO, Darcy França (Org). Cora Coralina - Coleção Melhores Poemas.São Paulo: Global Editora, 2004.
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VELLASCO, Marlene Gomes de. Reconstrução poética da memória. In: Seminário Internacional Mulher e Literatura, 2007, Ilhéus. Trabalhos Completos do Seminário Internacional Mulher e Literatura - CD-ROOM (No Prelo). Ilhéus: Editora da UESC, 2007. v. 1. p. 1-9. Disponível no link(acessado em 04.12.2011).
VELLASCO, Marlene Gomes de. Histórias de Mulher. Revista Vintém de Cobre, Cidade de Goiás, n. ° 1, 1999. p. 27-35.
VELLASCO, Marlene Gomes de. O Eu multiplicado em Cora Coralina. Temporis(ação) (UEG), v. 1, p. 35-48, 1998.
VERAS, Dalila Teles. A velha rapsoda. Folha de São Paulo. São Paulo, 10 jun. 1984.
VERAS, Dalila Teles. Cora Coralina: senhora de todas as vidas. União Brasileira dos Escritores – Prêmio: O intelectual do Ano: Troféu Juca Pato. São Paulo, 20 jun. 1984.
Cora Coralina, por ©Lezio Junior
YOKOZAWA, Solange Fiúza Cardoso. Atualizações do Ubi Sunt em Cora Coralina. Linguagem. Estudos e Pesquisas (UFG), v. 10, p. 255-269, 2007.
YOKOZAWA, Solange Fiúza Cardoso. A reinvenção poética da memória em Cora Coralina. In: XVII Encontro Nacional da ANPOLL, 2002, Gramado. Programação e Resumos do XVII Encontro Nacional da Anpoll: A Pós-Graduação em Letras e Linguística no Brasil: Memórias e Projeções, 2002. v. 1. p. 358-359.
YOKOZAWA, Solange Fiúza Cardoso. Confissões de Aninha e memória dos becos: a reinvenção poética da memória em Cora Coralina. Anais do Terceiro Encontro de Professores de Letras do Brasil Central. Brasília, Universidade de Brasília, out. 2002.
YOKOZAWA, Solange Fiuza Cardoso. Estórias da velha rapsoda da Casa da Ponte. Porto Alegre, n. 39, p.195-212, jan./jun. 2006. Disponível no link(acessado em 05.12.2011).



Oração do milho, de Cora Coralina, recitado por Lauro Moreira.


“[...] sua obra não conta apenas o que lhe aconteceu em outros tempos, mas também o processo pelo qual o seu passado se transformou em seu presente, construindo seu próprio tempo nas injunções da existência, permitindo ao leitor compartilhar de uma maneira ou de outra, no exercício de sua própria experiência dos objetos cortantes, e a tensão em que ela se mantém é a do próprio pensamento que se vigia contra os riscos da embotadura.”
- Marlene Gomes Vellasco, pesquisadora goiana, 1999.


Bernardo Neto, Lima Duarte e Cora Coralina - foto: Eduardo França,
TV Globo - Som Brasil - 
©Acervo Memória TV Globo


DOCUMENTÁRIO
Filme: Cora Coralina: O Chamado das Pedras
Sinopse: Documentário que narra a vida e a obra da poeta goiana Cora Coralina, através da colagem de trechos selecionados de seus poemas e inserções de depoimentos assim com a exploração fotogênica da paisagem natural - Serra Dourada - da paisagem urbana - a Goiás do passado - da visitação aos álbuns fotográficos das famílias goianas, do Museu das Bandeiras, do Museu Conde dos Arcos, do Museu Casa de Cora, e de antigas fazendas do município de Goiás. Um Goiás denso de ancestralidades, o Goiás de Cora.
Direção/Roteiro: Waldir Pina de Barros
Gênero/formato: Documentário, 35 mm.
Ano/País: 2008 - Brasil
Duração: 22 min – Cor: Colorido


Curta metragem O Chamado das Pedras.



VÍDEO/DOCUMENTÁRIOS SOBRE CORA CORALINA

Cora Coralina, TV Integração canal 11.
com depoimentos da poeta Cora Coralina.




Cora Coralina, programa de "Lá pra cá", TVBrasil - parte I


Cora Coralina, programa de "Lá pra cá", TVBrasil - parte II


Documentário Mulheres Brasileiras, TV Cultura


Não conte pra ninguém
Eu sou a velha
mais bonita de Goiás.
Namoro a lua.
Namoro as estrelas.
Me dou bem
com o rio Vermelho.
Tenho segredo
com os morros
que não é de adivinhá.
Cora Coralina, por LPC

Sou do beco do Mingu,
sou do larguinho
do Rintintim.

Tenho um amor
que me espera
na rua da Machorra,
outro no Campo da Forca.
Gosto dessa rua
desde o tempo do bioco
e do batuque.

Já andei no Chupa Osso.
Saí lá no Zé Mole.
Procuro enterro de ouro.
Vou subir o Canta Galo
com dez roteiros na mão.

Se você quiser, moço,
vem comigo:
vamos caçar esse ouro,
vamos fazer água — loucos
no Poço da Carioca,
sair debaixo das pontes,
dar que falar
às bocas de Goiás.

Já bebi água de rio
na concha da minha mão.
Fui velha quando era moça.
Tenho a idade de meus versos.
Acho que assim fica bem.
Sou velha namoradeira.
Lancei a rede na lua,
ando catando estrelas.
- Cora Coralina, em "Meu livro de cordel". São Paulo: Global Editora, 1998.


Manuscrito de Cora Coralina - original inédito em que a escritora faz um inventário afetivo de cenas da cidade de Goiás,
escrevendo poemas sobre imagens da época - 
©Acervo particular de Vicência Brêtas Tahan


SOBRE GUIMARÃES ROSA, ESCREVEU:
"O melhor roteiro é sempre ler e assimilar o que lê. Ler para aprender, procurar vencer. A maior dificuldade de todos escritores se limita a duas palavras: escrever bem. Então o roteiro é esse. Procurar ler para aprender. Ninguém escreve bem sem ler muito e procurar assimilar o máximo. Assimilar não é imitar. (...) Eu sou uma grande leitora de
Guimarães Rosa e uma grande admiradora dele, muito antes dele ser aceito. A literatura dele não é uma literatura fácil, principalmente nos dois maiores livros dele, Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas (...) Agora há os imitadores de Guimarães Rosa, mas imitar é uma coisa e assimilar é outra. Então eu digo, a gente deve ler, reler, transler. Ser dono dele. Não precisa abrir o livro no começo. Abre ao acaso e só fecha quando cansou, quando já não tem mais tempo. Ponha sempre perto de sua cama ao alcance de suas mãos, ao alcance de seu tempo."
- Cora Coralina, In: "Cora contemporânea Coralina", Jornal de Brasília, Brasília, 3 out. 1984.


Traço de união
Irmanadas na poesia
nos encontramos:
Quem vem vindo.
Quem vai indo.
Na roda-viva da vida
girando se esbaldando
Cora Coralina - foto: ©Acervo Museu Casa de
 Cora Coralina

no encalço de uma rima
fugidia.

Pegar no laço do pensamento
a rima feliz e plantar com amor
na divisa extrema do verso...
A chamada rima de ouro
que tem forma de chave de ouro.
E, dizer que há poetas consagrados
que têm delas um chaveiro!

Com os dedos pegamos a luz
Começou o seu tempo.
Meu tempo se acaba.
O esplendor de uma aurora.
O poente que se apaga.

Fui na vida o que estás agora.
Tu serás o que sou.
Nosso traço de união.
És o passado dos velhos.
Eu, o futuro dos moços.
- Cora Coralina, em "Meu livro de cordel". São Paulo: Global Editora, 1998. 

antiga Casa Velha da Ponte, atual Museu Casa Cora Coralina.
foto: ©Acervo Museu Casa de Cora Coralina (Global Editora)

MUSEU CASA DE CORA CORALINA
O Museu
A Associação Casa de Cora Coralina, é uma entidade de direito privado, sem fins lucrativos, com o objetivo imediato de lutar pela preservação da vida e da obra de Cora Coralina. O museu foi inaugurado em 1989 e nos estatutos aprovados constam como finalidades: “projetar, executar, colaborar e incentivar atividades culturais, artísticas, educacionais e filantrópicas visando, sobretudo, à valorização da identidade sociocultural do povo goiano, bem como preservar a memória e divulgar a obra de Cora Coralina”.
O Acervo
Casa Velha da Ponte, atual Museu Casa Cora Coralina
foto: ©Acervo Museu Casa de Cora Coralina (Global Editora)
A constituição do acervo da Casa de Cora Coralina é um projeto de organização e acumulação de vários dos tempos da vida da poeta, formando um arquivo geral de objetos, imagens e discursos preservados para evocar Cora e promover sua imortalização. No museu há diversos tipos de materiais, todos organizados, e de fácil acesso aos turistas, com o intuito de preservar a memória da poeta em simbiose com a comunidade de Goiás. Há desde peças de roupas, até fotos, utensílios domésticos, livros, móveis e cartas, no interior da casa; além do jardim nos fundos, e da bica de água potável.
Serviço
Endereço: Rua Dom Cândido, 20 Centro CEP 76.600-000 Cidade de Goiás – Goiás Tel.: (62) 3371-1990
Site/blog oficial: Museu Casa de Cora Coralina
Site Era Virtual Museus: faça um tour virtual pelo Museu Casa de Cora Coralina


Busto "Cora Coralina", margem esquerda do Rio Vermelho, Goiás Velho/GO
 foto: ©
Antonio Carias Frascoli (26.12.2013)

"Na estrada que é Cora Coralina passam o Brasil velho e o atual,
passam as crianças e os miseráveis de hoje.
O verso é simples, mas abrange a realidade vária."
- Carlos Drummond de Andrade


EDITORA 



"Sou espiga e o grão que retornam à terra.
Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando,
é o arado milenário que sulca.
Meus versos têm relances de enxada, gume de foice
e o peso do machado.
Cheiro de currais e gosto de terra."
- Cora Coralina, trecho do poema "A gleba me transfigura", do livro "Vintém de cobre: meias confissões de Aninha". 6ª ed., Global Editora, 1996, p.109.


Cora Coralina (Aninha)
- foto: (...)
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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Cora Coralina - venho do século passado e trago comigo todas as idades. Templo Cultural Delfos, novembro/2011. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Post atualizado em 17.05.2014.



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